A Indústria Musical: Beyoncé e o Colorismo
A Indústria Musical: Beyoncé e o Colorismo

O que Mathew Knowles dissera-nos a respeito da segregação entre artistas negras na indústria musical?

Mathew Knowles e Beyoncé em premiação do “Grammy Awards”

Mathew Knowles, pai das artistas estadunidenses Beyoncé e Solange Knowles, recentemente fora entrevistado pela revista Ebony. Seus posicionamentos reergueram uma polêmica midiática suscitada há anos: o branqueamento de artistas negros e a preferência por aqueles os quais possuem peles de tonalidades menos escuras.

“Observes as artistas negras que tocam no rádio: Mariah Carey, Rihanna, Nicki Minaj e minhas filhas [Beyoncé e a irmã, Solange]. Quando o assunto são mulheres negras, ainda há muito colorismo mesmo dentro da nossa concepção de afro-americanos”, comenta Knowles.

Quando conheci Tina [ex esposa de Matthew e mãe de Beyoncé e Solange], pensei que ela fosse branca. Na minha infância e adolescência existiu um grande condicionamento para achar mulheres negras mais claras, mais bonitas”, continua Matthew.

Por último, enfatiza:

Muitos homens negros vivem isso, ainda têm essa raiva erotizada dentro de si, acham que namorar uma mulher branca, ou mulher de compleição mais clara, é uma forma inconsciente de ‘vingar-se’ da sociedade.

Atualmente, Mathew trata-se de um professor universitário e lançara uma obra literária cuja temática aborda o racismo: “Racism: From The Eyes of a Child” [Racismo: Através dos Olhos de uma Criança].

Beyoncé e o Colorismo na Indústria Musical

Beyoncé integra a seleta classe de artistas afrodescendentes os quais possuem abrangente visibilidade e poder sócio-aquisitivo, juntamente à Rihanna, Nicki Minaj, Cardi B, Jay-Z, Stevie Wonder e demais indivíduos. Seu primeiro destaque ocorrera durante o grupo musical Destiny’s Child, composto originalmente por: Beyoncé, Kelly Rowland, Michelle Williams, LaTavia Roberson, LeToya Luckett e Farrah Franklin.

Girl group Destiny’s Child em 1999.

Apesar do perceptível potencial vocal, as demais integrantes não alcançavam semelhante admiração, oportunidades comerciais e versos adicionais às canções. Desde a fundação, sempre fora Beyoncé o enorme destaque, a legítima criança do destino. Após o término do grupo musical, Beyoncé seguira carreira solo e as demais integrantes foram lançadas ao ostracismo pela indústria musical. Portanto, a cantora recebera massivo investimento em marketing, produção e segmentos artísticos. Porém, sob tal fantástica prosperidade, a indústria iniciara o seu processo de branqueamento.

Maquiagens densas, contornos nas narinas, afilamento facial, alisamentos de cabelo e photoshop, não trataram-se de estratégias performadas somente em Beyoncé, mas também em consagradas artistas pretas as quais perceberam a possibilidade de alavanque no mercado, por intermédio do branqueamento. Ademais, além de Beyoncé, as ex-integrantes possuem tons escuros. Deste modo, a ocultação de suas características afrodescendentes era-lhes fenotipicamente dificultada. Coincidentemente, a indústria abandonara-as.

Beyoncé enquanto artista
Beyoncé em momento lúdico

A datar dos primórdios da inclusão de artistas afrodescendentes no abrangente cenário musical, vigora a intensa cobrança para que sua ancestralidade seja ocultada. A indústria e o público optam por artistas negros de tonalidades menos escuras, salientando o modus racista através do qual o entretenimento hegemônico opera. Ao passo de que a indústria intenta em comercializar o discurso “revolucionário” da inclusão racial, boicota sistematicamente a ascensão de artistas negros de tonalidade escura.

Há inúmeras ocorrências de artistas os quais vivenciaram processos de branqueamento para maior deleite do público e indústria. Uma das ocorrências mais notórias, trata-se do fenômeno mundial Michael Jackson. Apesar de possuir vitiligo, recentemente, seu antigo dermatologista Arnold Klein revelara que a deficiência não tratava-se da única motivação para que sua pele tornasse-se branca:

“Michael tomava remédios para acelerar o procedimento, já que ele trabalhava com sua imagem, e ele querendo ou não, ficaria com 95% da pele branca, pois a doença se espalharia de qualquer maneira.” — Fonte: MNFANSBR

Porém, percebe-se que tal tendência mantém-se superior entre artistas mulheres. Enquanto cantoras tais: Rihanna, Beyoncé, Tina Turner e Whitney Houston eram ou permanecem a ser branqueadas, artistas masculinos tais: Usher, Snoop Dogg, Kanye West, Travis Scott e demais, detêm visibilidade ainda que extremamente fenotípicos.

O desejo afromisógino relaciona-se ao anseio de que mulheres negras possuam o porte físico estereotipado atrelado às afrodescendentes, contudo, detenham tonalidades passíveis ao crivo eurocêntrico. Afinal, historicamente, as percepções ocidentais pós-coloniais relativas ao belo, emergem do imaginário social europeu. Deste modo, uma máxima torna-se explícita às artistas negras: “faz-se necessário embranquecer, caso deseje-se o sucesso”.

O fenótipo caucasiano não associa-se tão somente à beleza, contudo, às noções de poder sócio-econômico e cultural. Lidar com a instauração de caucasianos detentores de poder, finanças e suposta beleza, trata-se de algo tão corriqueiro ao ponto de beirar à normalidade no imaginário social. Indivíduos negros associam-se historicamente à pobreza, ignorância e suposta feiura. Tais conceitos racistas, socialmente impregnados há séculos, reverberam-se constantemente nas publicidades, mídias e indústrias de entretenimento.

O moletom esverdeado afirma: “O macaco mais legal da selva”. O moletom laranja comunica: “Especialista em sobrevivência no manguezal e na selva.” (Tradução livre)

Há certo tempo, tornara-se explícita a perseguição velada a qual ergue-se quando uma mulher negra nega-se à submeter ao imposto branqueamento:

“A americana Jasmine Toliver, criou uma petição online reivindicando que os cantores cuidem do cabelo da menina, de 2 anos. No abaixo-assinado, nomeado como “Penteie o cabelo dela”, a autora descreve sua aflição ao ver a criança “despenteada”: “Como uma mulher que entende a importância dos cuidados com os cabelos, fico incomodada ao assistir a uma criança sofrendo por falta de hidratação no cabelo. Sean Carter, conhecido como Jay-Z, e Beyoncé têm falhado ao cuidar do penteado da filha Blue Ivy. A menina tem aparecido com rastas e tochas de cabelos embaraçados. Por favor, vamos manifestar nossa insatisfação e pedir um pouco mais de cuidado com o cabelo de Blue Ivy”. Surpreendentemente, a petição já conta com quase 3.500 assinaturas até o momento e alguns usuários do site não se intimidaram em expressar suas opiniões. ”– Fonte: EGO

Blue Ivy, Jay-Z e Beyoncé

Somente por não submeterem a filha à invasivos procedimentos de alisamento capilar, Beyoncé e Jay-Z sofreram represálias nas mídias sociais e tornaram-se alvo de tal petição. Blue Ivy fora submetida à chacotas, pois, herdara o fenótipo característico de seu pai. Atualmente, aos oito anos, a menina desenvolvera características similares à mãe, sendo considerada mais bela por aqueles os quais outrora rechaçavam-na por seus traços afrodescendentes.

Perceptivelmente, não é-lhes possível lidar com negras, a menos que possuam cabelos alisados, detenham fenótipo similar ao caucasiano e tonalidade mais clara. Não é-lhes possível lidar com a pele escura, cabelos crespos, narizes largos, lábios volumoso e feições características. Pois, jamais desejaram lidar com mulheres negras — somente com as concepções estereotipadas as quais possuem a respeito das tais.

Deste modo, fica evidente como a indústria e segmentos sociais suscitam falsamente a ideação da suposta “inclusão racial” e apropriam-se da causa antirracista quando é-lhes lucrativo. Porém, por detrás dos holofotes, sabotam artistas negras de pele escura em detrimento das detentoras de pele mais clara.

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COMO CITAR ESTE ARTIGO ACADEMICAMENTE: MORAIS, Yasmin. “A Indústria Musical: Beyoncé e o Colorismo”. QG Feminista, 2018. Disponível em: <URL>. Acesso em: dia, mês e ano.

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