A origem da prostituição segundo Françoise Héritier
A origem da prostituição segundo Françoise Héritier

Trecho selecionado por Hélène Assekour, responsável pela “antenne OLF 54”

Nicole Bacharan: A prostituição sempre existiu?

Françoise Héritier: Não temos dados que nos permitem julgar com totalidade, mas do meu ponto de vista, não creio que sim. Na vida dos homens pré-históricos, a sexualidade podia talvez manifestar-se livremente em qualquer momento, quando a vontade acometia o macho, visto que as fêmeas estejam solícitas. Um pouco como vemos em “A Guerra do Fogo. O exemplo de todos os grupos de caçadores-colhedores que nós estudamos nos mostra que nessas sociedades, a prostituição — com um pagamento — e mulheres reservadas para este fim, não existia. Nos agricultores africanos samo, encontrei também um caso totalmente particular: o das mulheres “selvagens”. Elas vivem de maneira independente, como os homens, elas podem ter parceiros casuais, mas não são prostituídas, elas não aceitam pagamento por “serviços sexuais”.

Por que elas são selvagens?

Porque elas não têm um marido para domesticá-las. O que não quer dizer que elas nunca tiveram. Para os Samo, toda menina é casada um dia, mesmo se ela é mal agraciada pela natureza ou doente. Tornando-se viúvas (frequentemente por causa de uma diferença de idade entre os cônjuges) ou depois de uma separação aceita, algumas se recusam a voltar para o controle do pai ou do irmão. Elas se encontram livres, portanto selvagens, Elas ganham suas vidas e são livres também em suas sexualidades. Se elas colocam filhos no mundo, elas os destinam a um amante, e não a um marido que poderia ter direitos sobre elas.

Portanto para os Samo e para outras sociedades primitivas que se parecem com as de nossos ancestrais, encontramos exemplos de liberdade sexual, mas não exemplos de prostituição?

Evidentemente. As sociedades de caçadores-coletores são constituídas de grupos de pequeno tamanho, que vivem dos recursos da natureza. Ora, não penso que a\prostituição possa começar sem a existência de um sistema monetário mais organizado de produção ou de uma massa monetária.

Assim sendo, a partir de qual período encontramos vestígios conhecidos de prostituição?

Nos papiros egípcios, que se referem aos locais de construção das pirâmides. Mencionam-se tavernas onde os homens que trabalhavam nessas obras encontravam as “garotas de felicidade”, “prostituídas”. Os textos desse período se expressam como os de hoje. Eles diziam: “garotas de felicidade”, “garotas de conforto”, “garotas públicas”. A felicidade e o conforto eram evidentemente para os homens, e as mulheres deviam fornecer a eles em troca de um pagamento adiantado. A sociedade egípcia era muito hierarquizada, com trabalhadores a serviço do faraó, longe de suas famílias, e portanto de suas esposas. A partir do momento em que existia o comércio, as formas de artesanato e de indústria, de grupos coletivos maiores, um começo de vida urbana, penso que tudo estava conspirando para que a prostituição se desenvolva.

Como ela começa ?

Com o pagamento. Certamente nas relações de desejo normais, nós podemos oferecer comida, joias, bens de todo o tipo a uma mulher, mas na prostituição o ato sexual não existiria se não houvesse o pagamento.

De onde vem a ideia de pagamento para conseguir um “serviço sexual”? Os homens paleolíticos certamente não ofereciam qualquer compensação material quando se deparavam com uma mulher.

Creio que o pagamento seja correspondente ao abastardamento de um costume muito antigo: o dolo. No momento em que havia o rapto e a violação de uma menina, um pagamento era feito aos homens de sua família. O mal não era feito à menina, mas à sua família, porque a menina tinha perdido uma parte importante de seu valor como objeto de troca. Se trata sempre das antigas trocas, símbolo da dominação masculina: as meninas são consideradas um valor, que os homens trocam entre eles, a fim de ter certeza a respeito de suas paternidades.

Portanto, se haviam raptos e violações, alguma coisa era dada a algum homem, pai ou irmão da menina em questão?

Sim, o prejuízo deve ser compensando, frequentemente segundo regras muito precisas. Eram em geral compensações em dinheiro, igualmente estabelecidas por outros tipos de prejuízo: furar o olho de alguém valia tanto, cortar um dedo valia tanto. Esses costumes são presentes no mundo bárbaro germânico na época de César e existiam bem antes. É uma das bases do direito : o pagamento impede a guerra ou a vingança. Procura-se uma maneira pacífica de regular os conflitos, é um princípio civilizatório.

Suponho que, em caso de estupro, a compensação do prejuízo era recebida pelos homens da família, e não pelas mulheres elas mesmas. Como passamos do dolo à prostituição?

Penso que às vezes por razões específicas os homens eram ausentes, uma menina estava perdida, era um período de guerra… o pagamento era destinado à menina. E era uma maneira de dizer : tu não podes mais te lamentar. Depois adquiriu-se o hábito de estuprar uma menina e pagar a ela em seguida. A prostituição começa. Porém, isso não pode acontecer em um outro contexto além do da civilização, com uma vida preponderantemente urbana, chefes, um poder estatal. As sociedades em que se pratica de forma costumeira a prostituição não aquelas — como a nossa — que não põem jamais em questão a licitude da pulsão masculina nem o direito dos homens de possuir corpos femininos para satisfazê-los. É necessário dar-se conta que é um mal imenso feito às mulheres!

Para começar, a recíproca não é verdadeira para mulheres: a libido feminina jamais foi reconhecida como sempre lícita ou irrepreensível.

Mesmo hoje em dia, uma mulher que procura um pouco demais os homens é facilmente tratada como ninfomaníaca ou pior! Uma mulher casada que se dispusesse de homens prostituídos chocaria a sociedade. Como uma mulher que abordasse um desconhecido e dissesse: “Tu me agradas, se quiseres, eu te pago!”

Afirmamos tranquilamente que a libido feminina é mais fácil de controlar.

Quem diz isso? Os homens. Ninguém jamais provou. Por outro lado, sempre ensinamos as meninas à canalisar seus desejos, a escondê-los. Quanto aos meninos, eles são vangloriados e valorizados. Além disso, existe uma grande contradição em evocar a “natureza das mulheres”, sendo necessário prestar atenção e entender que se os homens são racionais, senhores de si — e ao mesmo tempo afirmar que a “natureza das homens” não devesse e não pudesse ser controlada. Quanto aos homens eunucos ou mal agraciados pela natureza eram necessárias “irmãs de caridade” de um tipo um pouco especial para diminuir suas angústias. E as mulheres eunuco e desgraçadas pela natureza? A ideia de que uma mulher mais velha, deficiente física, sozinha, possa ter necessidades sexuais é ignorada, ainda pior: ridicularizada. Aos olhos do estupro e da prostituição (nota da tradutora: prostituição é estupro pago), não temos sempre as barreiras mentais e sociais indispensáveis (o reconhecimento muito recente na história da humanidade do estupro como um crime cometido contra uma mulher, e não contra seu marido ou seu pai).

Nos tempos antigos, as mulheres jamais escolheram livremente vender seus corpos?

Dizer que as mulheres têm o direito de se vender é esconder que os homens têm o direito de comprá-los. Com o pagamento, o homem está liberado de toda obrigação ou culpa e a mulher está a serviço dele. É esquecer tamb´me que o papel — ele mesmo também muito antigo dos proxenetas. É esquecer que uma mulher que seria iniciada livremente nessa atividade se encontra depois forçada a continuar, todas as portas são fechadas a ela. É esquecer as ameaças, a violência, os crimes dos quais as mulheres sempre foram vítimas. Nenhuma mulher jamais sonhou ser prostituída em toda a sua vida, e esse status [a prostituição] não tem nada de inevitável.

Tradução livre de trecho de Françoise Héritier, Michelle Perrot, Sylviane Agacinski, Nicole Bacharan, A mais bela história das mulheres, Seuil, 2011.

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