Como as mulheres devem lutar contra a prostituição, por uma feminista na Rússia Soviética

Maria Ivánovna Pokróvskaia nasceu em Níjni Lomov, na Rússia, formou-se em medicina e escreveu durante toda sua vida inúmeros artigos sobre higiene e direitos das mulheres. Maria, também, foi memorialista.

Um ponto importante sobre esta autora é que ela fundou e foi líder em 1905 do Partido Progressista das Mulheres. Em 1908, participou do primeiro congresso de mulheres da Rússia, congresso este que teve a participação de muitas outras mulheres conhecidas, dentre essas, Clara Zetkin.

Durante 13 anos foi editora da revista russaa Jénski Vêstik. Acredita-se que Maria faleceu em 1922.

O artigo escrito por Maria intitulado “Como as mulheres devem lutar contra a prostituição” foi anexado ao livro escrito por Graziela Schneider “ A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia Soviética”.

Neste livro, Graziele, reúne diversos artigos feministas escritos pelas mulheres soviéticas e esses abrangem diversas temáticas: desde direitos reprodutivos até questões salariais das mulheres proletárias.

Neste viés, selecionei esse excerto da Maria, que trata sobre a questão da prostituição. Atualmente, gera-se o debate por parte de algumas feministas marxistas e liberais que prostituição seria um trabalho como qualquer outro. Nós, enquanto feministas radicais, acreditamos veemente que prostituição é estupro pago.

Observa-se que, o que Maria escreveu nó século passado, ainda trás debates acerca dessa problemática, atualmente.

Irei pontuar questões importantes do artigo a título de informação e conhecimento.

“A aniquilação da prostituição é o tema mais pungente para as mulheres que aspiram à igualdade de direitos. Se tal igualdade se materializar, a prostituição desaparecerá. A questão da luta pela equidade feminina está ligada à questão da luta contra a prostituição”.

Para Maria, quando se fala em acabar com a prostituição, dois assuntos são debatidos: a questão econômica e a questão moral. A autora vai contra esta opinião de que a prostituição é um fator puramente econômico: Maria nos revela que – a questão da prostituição esta intrinsecamente ligada ao sexo.

E demonstra que, por existir na sociedade a dominação de um sexo sobre o outro – o sexo privilegiado pode satisfazer suas vontades e necessidades sexuais usando o (outro sexo) aquele oprimido pela sociedade, para saciar suas vontades, sejam elas quais forem. Desde pagar por sexo até estuprar mulheres e meninas. Em ambos os casos acontece o estupro, já que consentimento não se compra.

“Graças ao domínio de um sexo sobre o outro nas sociedades contemporâneas, existe um olhar desigual no que se refere às necessidade sexuais de homens e mulheres. A satisfação do instinto sexual dos primeiros é considerada tão primordial que a eles se concede o direito de saciá-lo como for. Já no caso das mulheres exige-se que elas saciem seu instinto sexual apenas no casamento”.

Em uma parte do artigo Maria conta que é tarefa da mãe educar seus filhos desde pequenos para que eles se tornem adultos responsáveis. Nesse ponto, eu discordo da autora, pois, não é somente responsabilidade da mãe educar seus filhos. Os pais tem papel de igual importância.

Acredito que por questões da época mesmo, início do século vinte, algumas mulheres embora quisessem a emancipação feminina ainda se viam estritamente ligadas a questão moral e religiosa. O que é compreensível devido a época em que os escritos foram publicados. Se ate hoje a moral e a religião dominam o pensamento social, imagina no século XIX?

Um dos pontos que achei extremamente importante no artigo foi como a autora trabalha de maneira concisa com a questão da pornografia e da prostituição. Maria nos mostra que, uma esta ligada a outra em nossa sociedade.

“Fica evidente que a pornografia, a prostituição, os camaradas, os serviçais e diferentes tipos de pão e circo contribuem para o despertar precoce das inclinações sexuais do jovem”.

Comenta também, que, enquanto as mulheres não tiverem direitos legislativos e criarem as próprias leis continuará a existir pornografia e a prostituição. Pois, se quem cria as leis são os homens e estes são os consumidores destas indústrias, eles jamais irão querer acabar com algo que os beneficia.

Outro trecho bastante interessante diz respeito ao por quê mulheres entram na prostituição. A autora nos mostra alguns motivos, dentre eles: abandono materno e paterno ainda jovens, situações de extrema pobreza e maus tratos oriundos de patrões que exploram e estupram suas empregadas domésticas. Maria atenta para o fato de que as empregadas domésticas deveriam ter seus direitos enquanto classe trabalhadora adquiridos por lei, para trabalharem menos e ter um pouco de lazer, poder se alimentarem direito e não viver como escrava dos seus patrões.

“ É uma escrava que qualquer um humilha de todas as formas possíveis. Seu dia de trabalho é entregue por completo ao bel prazer dos senhores”.

Observa-se que a autora contra-argumenta homens que dizem que mulheres que estão na prostituição – podem largar o serviço quando quiserem. Maria nos conta que, muitas mulheres ao tentarem sair sofrem inúmeras violências dos donos dos bordéis.

“Apesar de os regulamentadores afirmarem que a prostituta que deseja largar seu ofício fica livre de inspeção, isso não é verdade. A inspeção empurra-as para os braços de alcoviteiros e cafetões que, aproveitando-se do desempato das moças e da colaboração dos agentes policiais, cativam-nas tenazmente e não as deixam seguir ate que tenham sugado tudo delas”.

O que a autora quis dizer com essa citação é que a regulamentação é uma falácia. Dizem que regulamentar bordeis melhora a condição das mulheres prostituídas mas o que acontece é que, os próprios cafetões mantem ligação com esses regulamentadores e por isso, até chegam a oferecer dinheiro em troca de silêncio sobre as violências acometidas a essas mulheres nos bordéis. O próprio dono do bordel inventa dívidas e dívidas que elas terão que pagar para poderem sair, ou fazem ameaças a família e a própria mulher.

Portanto, a frase “elas podem sair quando quiser é totalmente falsa”.

Outra questão fundamental discutida no artigo é a falsa garantia de saúde. Os médicos ou falsos médicos nem chegam a fazer exames nas pacientes e já rotulam como “saudável”. Isso nos mostra como as prostituídas não tem nenhum direito de saúde e cuidados. E ainda dá aos homens a falsa impressão de que não precisam usar preservativos. A autora comenta que inúmeros casos de sífilis apareceram na época em função dessa carteirinha escrito “saudável”.

A autora comenta que devem existir leis que julguem e culpe os homens e não as mulheres que são prostituídas.

“Deve ser promulgada uma lei que castigue os homens pela compra de mulheres. Mas, é claro, enquanto apenas os homens tiverem poder legislativo, eles não promulgarão tal lei. Ela aparecerá somente quando as mulheres também tiverem esse poder”.

O artigo é bastante conciso em sua narrativa. É impressionante saber que no século XIX existiram mulheres que lutaram veemente contra a prostituição.

O que entristece e enfurece é saber que hoje, no séc XXI, esse problema ainda é alarmante na sociedade.

Enquanto as pessoas acreditarem (incluso feministas) que a prostituição é um trabalho como qualquer outro e não enxergarem a violência por trás dessa, continuaremos a ver mulheres sendo exploradas e estupradas todos os dias.

Prostituição nunca será um trabalho e nunca será um trabalho como qualquer outro. Estupro não é trabalho. Prostituição é estupro pago e consentimento não está a venda.


Referências bibliográficas

SCHNEIDER, Graziela. A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética, 2017. Boitempo.

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