das tetas subversivas
das tetas subversivas

A amamentação talvez seja um dos poucos momentos (senão o único) que uma mulher consegue dar a uma parte do seu corpo extremamente erotizada pela sociedade uma função que não seja sexual.

Na amamentação o seio tem função nutricional, ele é uma fábrica de leite que serve para alimentar um bebê. Esse ato é profundamente transgressor na nossa sociedade machista e um preço alto é pago por isso. Um seio aleatório desnudo é belo, um seio alimentando uma criança é “nojento”. Mulheres são rechaçadas, tolhidas, insultadas, coagidas a se esconder enquanto amamentam. Os companheiros não apoiam suas mulheres nesta tarefa e pressionam pelo encerramento precoce do período de amamentação para ter de volta o objeto do seu prazer.

Não há informação em quantidade e qualidade suficiente para as mulheres sobre amamentação. Mitos proliferam minando a confiança da mulher na sua capacidade de amamentar. Na maternidade, bebês são afastados da mãe assim que nascem contrariando a orientação de mamar na primeira hora de vida e recebem leite artificial. Os profissionais estão mal preparados e não conseguem orientar adequadamente as puérperas sobre como amamentar. A indústria alimentícia financia um poderoso lobby junto aos profissionais de pediatria para que estes sejam seus porta-vozes e engrossem o discurso do desmame substituindo ou complementando leite materno por leite artificial, ou iniciando uma introdução alimentar precoce.

A licença-maternidade oferecida pelo Estado, de apenas 120 dias, não cobre satisfatoriamente o período de amamentação exclusiva de 180 dias indicado pela OMS. Muitas creches se recusam ou não estão preparadas para manipular o leite materno enviado pela mãe para alimentar seu bebê quando esta retorna ao trabalho. São necessárias campanhas públicas para incentivar e garantir o direito ao aleitamento materno.

A nossa sociedade machista não apoia de verdade mulheres que amamentam porque o seio feminino abandona sua função de objeto erótico. Porque na relação mãe-bebê que envolve a amamentação nenhum homem está sendo sexualmente beneficiado.

das tetas subversivas
“Amamentando? Isso aqui é um SHOPPING! Nós não podemos permitir mulheres mostrando os peitos descaradamente!!”

Para uma amamentação de sucesso existe um binômio que precisa ser atendido:

  • informação: sobre auto-cuidado, pega correta, livre demanda, posições confortáveis para amamentar, impedimentos reais e fictícios da amamentação, tempo de descida do leite, características do leite, tipos de mamilo, ritmo de amamentação do bebê, características de uma amamentação bem sucedida, comportamento do seio durante o período de amamentação, problemas que podem surgir e como lidar (mastite, ingurgitamento, fissuras no mamilo), ordenha e armazenamento de leite, alergias, desmame e muitíssimas outras coisas.
  • rede de apoio: a mulher que amamenta fica exausta e com privação de sono. É importante, ainda na gestação, que se trace estratégias para reduzir ao máximo as tarefas paralelas que ela tenha sob sua responsabilidade. Principalmente nas primeiras semanas, os cuidados com a casa, preparação de comida, entre outras coisas, são atividades que se puderem devem ser assumidas integralmente por alguém.

Mais que um subaproveitado “quarto de bebê”, a mulher precisa do seu “quarto de amamentação”, com uma cama confortável para ela e seu bebê, muitas almofadas que a auxiliem a amamentar em diversas posições, uma televisão com seus filmes e séries favoritas, música, livros, internet, tomada perto da cama para o celular estar sempre carregado, comidinhas, água, sucos, ao alcance da sua mão.

O puerpério é uma batalha em que a mulher é protagonista, o foco deve ser nela, a atenção e o cuidado devem ser para ela, para que ela esteja fortalecida para cuidar das demandas iniciais do bebê.

Mulheres precisam de apoio real para amamentar. Essa não é uma tarefa fácil. É cansativa. Nem sempre é agradável. Pode ser dolorida. Desconfortável. Pode despertar diversos gatilhos em mulheres que têm uma vivência de violência e abuso contra seu corpo. A mulher tem o direito, inclusive, de não gostar de amamentar (e não querer) e não ser julgada por isso, e ter opções a sua disposição, como acesso a uma ampla rede de bancos de leite, por exemplo. E a mulher também pode não conseguir amamentar.

Mulheres-mães precisam de apoio. Na sua maternagem, na sua nova vida, com o seu retomado corpo. No seu subversivo ato de alimentar a cria num seio que é só seu, de mais ninguém.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui