Eu já fui uma mulher que acreditava em amor livre

O intuito principal deste primeiro texto é demonstrar como a lógica de libertação das mulheres nada tem a ver com amor livre ou poliamor. Muitas pessoas da esquerda, que se dizem progressistas e mais “avançadas” do que outras pessoas, tem usado esse discurso para pregar que só com o amor livre as mulheres poderão se emancipar por completo. E a minha pergunta é: Será mesmo?

Eu já fui uma mulher que acreditava veemente em amor livre, não monogamia – e gritava aos 4 cantos que o poliamor me deixaria mais livre e emancipada enquanto mulher. Desculpa te decepcionar, mas eu estava errada.

Eu já fui leitora ativa de Regina Navarro Lins e realmente acredito que monogamia está ligada diretamente com opressão e contratos econômicos.

Eu já fui uma mulher que namorou vários homens ao mesmo tempo – mesmo sabendo que se eu engravidasse deles, além de não saber quem seria o pai, de início, na prática – seria muito mais difícil conseguir ajuda quanto a paternidade. Afinal, quem iria querer assumir um filho de uma mulher que namorou 4 homens ao mesmo tempo, sem questionar a paternidade?

Eu já fui uma mulher que xingava qualquer pessoa que estava interessada por mim e que, ao mesmo tempo, me cobrava relacionamento monogâmico. Eu dizia «como assim monogamia em pleno século XXI, minha gente»?

Eu já fui uma mulher que acreditava piamente que homens manteriam responsabilidade afetiva quando o assunto era poliamor. Que realmente, na prática, teríamos um diálogo sincero quanto a nossas preocupações, dúvidas e medos no relacionamento. Mas não foi isso que aconteceu.

Eu já fui uma mulher chamada de «careta» por me recusar a fazer sexo em grupo, pois, na lógica do meu namorado «progressista» na época, como mulher que acreditava no poliamor eu deveria parar de ser tao antiquada (e sim, eu sei que poliamor nada tem a ver com suruba mas só enfatizando que, na prática, se nos recusamos a fazê-la, somos repreendidas).

Eu já fui uma mulher que, pra não ser considerada a «cricri» da relação, suportava as “brincadeiras” do meu ex dizendo que tudo bem ele ficar com 6 mulheres ao mesmo tempo e eu apenas estar com ele, não era motivo para eu ficar nervosa, triste e nem questionar. Que era melhor ele sair com 6 mulheres ao mesmo tempo primeiro (pra testar a não-monogamia) e depois eu também, teria direito de sair com mais homens, quando ele quisesse, claro.

Eu já fui uma mulher que li uns 30 livros sobre novas relações, modernidade, amar e ser livre no século XXI, como o poliamor revolucionou os discursos feministas. Sim, eu acreditava em cada letra sobre isso.

Eu já fui uma mulher que foi obrigada a participar de coisas das quais eu não gostaria porque no poliamor, deveria valer tudo para os meus exs, embora esse nem seja realmente, o discurso poliamorista.

Mas daí você pode me dizer que poliamor é empoderador para as mulheres e que homens babacas existem tanto em relações monogâmicas tanto em não-monogâmicas.

E eu te respondo, empoderamento nada tem a ver com namorar 1 homem ou 7 ao mesmo tempo. Empoderamento diz respeito a dar poder econômico, político e social para uma classe que sempre foi destituída de todo tipo de poder. Empoderamento, é sobre o grupo e não sobre uma mulher que acha que vai se sentir empoderada namorando vários homens ao mesmo tempo. O que você faz no seu tempo livre é problema seu, só não chama um ato individual de empoderamento feminino. Empoderamento feminino vai acontecer quando mulheres e meninas pararem de ser mortas, estupradas, pararem de ter o clítoris jogado fora aos 5 anos de idade; pararem de ter ácido jogado na cara simplesmente por saírem na rua. Empoderamento, é parar de existir casamento infantil.

Mas homens ruins existem em todo tipo de relacionamento, aberto ou fechado

Sim, eu concordo com isso. Só que, no discurso do amor livre, quem não se adequa é chamado de antiquado e muitas pessoas usam disso para dizer que essa é melhor forma de relacionamento. E eu sei que uma das premissas básicas dessa forma de relacionar-se é liberdade perante a igreja e o Estado, ou seja, nada de contratos econômicos nem simbólicos. Só que, eu sei também o quanto na prática, o amor livre também pode ser e é opressor para as mulheres. O discurso é lindo mesmo e eu acho válido que as relações não sejam compostas de ciumes, imposições, dogmas e contratos. Entretanto, por mais que eu mude a forma de me relacionar isso não quer dizer que só por isso eu me libertei enquanto mulher. Não existe emancipação num mundo ainda patriarcalista e isso vale pra moldes de relacionamentos aberto ou fechado.

E vocês defensores do poliamor, podem me dizer que também precisamos de empoderamento no setor afetivo. E eu digo que sim. Mas namorar mais de um homem ao mesmo tempo não me dá libertação enquanto grupo e classe de mulheres. Eu posso me sentir mais feliz por estar me desvencilhando dos velhos tabus sexuais mas isso não quer dizer que não vai acontecer misoginia dentro desses relacionamentos – só porque eles vem com uma aparência libertadora. Na prática, o amor livre, não se sustenta. Não para as mulheres.

E antes que alguma ou algum poliamorista ferrenho venha aqui me dizer que eu não posso usar minha experiencia individual que deu errado pra queimar o discurso amor livre, eu venho lhes informar que a maioria esmagadora de mulheres que experimentaram o poliamor ou amor livre também passaram por isso (pra ver mais, indico o livre «mulher, estado e revolução, da Wendy Goldman», só olhar pra vida das mulheres russas pós revolução, para entender como o discurso de amor livre, falhou na prática): milhões de crianças abandonadas pelos pais homens — que se diziam tão progressistas na época, mas se recusaram a assumir a paternidade dos filhos.

O foco do meu texto aqui é deixar claro que emancipação feminina nada tem a ver com namorar com 6 caras, ao mesmo tempo. As pessoas dizem que a monogamia é opressora para as mulheres e eu, como feminista radical, venho aqui reforçar que concordo com esse discurso. Mas, enfatizo ainda mais: a monogamia é opressora para as mulheres, mas o amor livre e o poliamor, também. Não é porque eu como mulher namoro 4 homens ao mesmo tempo, que serei considerada «livre» e emancipada, socialmente, por isso.

Enquanto mulher que luta pela libertação das mulheres, queremos libertação política, econômica e social e também, afetiva, obviamente. Porem, dentro de uma lógica patriarcal e machista, por mais que o discurso ‘amor livre’ seja atraente na teoria – ainda vivemos numa sociedade misógina. Homens não vão deixar de te matar, estuprar, violentar, porque agora você é uma mulher que pratica «amor livre».

Homens não vão ser mais atenciosos aos relacionamentos nem envolvidos emocionalmente neles – porque agora você é uma mulher «amor livre».

Homens, no geral, tanto em relações fechadas quanto abertas não gostam de se envolver emocionalmente, ou pelo o menos não gostam de demonstrar isso na prática. Se, você, como mulher, quer discutir a relação, para eles isso é irrelevante numa lógica monogâmica. Agora, se você, quer discutir a relação ou questionar sobre envolvimento emocional, numa relação aberta, facilmente será chamada de careta ou antiquada por esses homens.

Eu já tive várias relações poliamoristas e sobre todas elas eu posso dizer uma coisa: se eu tivesse engravidado, estaria perdida. Numa única vez em que estava envolvida sexualmente com 4 homens e cheguei a comentar com os 4 uma possível gravidez, fui xingada de «piranha» pra cima. Esses mesmos homens que se dizem tão progressistas, quando a responsabilidade chega, voltam pra mesma lógica monogâmica de «como assim vc tava comigo e mais três caras»? «se vc estiver grávida eu não vou assumir» e coisas do tipo. A pergunta que fica é: Mas eles não eram tao modernos e amor livre? Sim, mas ainda eram homens.

Dia desses estava ouvindo a conversa de umas amigas, que falavam que estavam se sentindo antiquadas porque não quererem entrar na lógica do «amor livre». Me senti no dever de dizer pra essas mulheres que emancipação feminina nada tem a ver com amor livre – se ainda continuamos despossuídas de todos os direitos possíveis, na prática. É atraente pensar que se tornar «amor livre» vai nos dá uma liberdade jamais antes alcançada, mas temos que lembrar que somos mulheres. Somos consideradas nada para a sociedade. na-da. Não importa se assumimos um discurso do amor livre – sempre seremos vistas como putas, piranhas vagabundas, a diferença é que no discurso liberal, ser chamada dessas coisas é sinônimo de liberdade.

Eu realmente percebo o quanto a monogamia é péssima para mulheres. Mas, eu também preciso te dizer que o amor livre, também, é péssimo para mulheres. Porque vivemos num sistema que odeia mulheres.

Não importa como amamos, sempre seremos julgadas por isso e homens sempre vão se aproveitar da nossa fragilidade para fazer o que fazem sempre – misoginia pura.

A diferença é que no discurso amor livre, essa misoginia vem enlaçada com fita vermelha, confete, glitter e bombom dentro, para parecer «suavizar» nossa opressão.

A libertação das mulheres também perpassa no quesito de (afetividades). Entretanto, antes de falarmos em amor livre e novos relacionamentos temos que ter em mente, que, para essas coisas realmente funcionarem de maneira equânime, na prática, nossa sociedade tem que ser outra: «sem machismo, misoginia, racismo, capitalismo». Porque não adianta nada querer implantar uma lógica de amor livre numa sociedade patriarcal: a reprodução do machismo vai acontecer do mesmo jeito nesses moldes de relacionamentos, só que disfarçado com outro nome.

Sem falar que, é nitidamente fácil falar em amor livre quando se é uma mulher branca. Falo disso porque eu sou uma. Para mulheres negras que sempre foram preteridas quando se fala em afetividades e relacionamentos – querer implantar um ideal de amor livre só vai repetir a lógica racista de que mulheres negras não devem ser amadas e que homens no geral não precisam assumir compromissos com mulheres negras.

Mas vocês podem me questionar: então devemos continuar reproduzindo moldes opressores dentro dos relacionamentos porque ainda vivemos num mundo patriarcal?

E eu te respondo que não. Meu texto não é sobre ser uma pessoa que não quer melhorar quando o assunto é formas de amar. Acredito veementemente que amar deve ser algo bom, sem ciúmes, posse ou contratos. E eu acho válido defender isso, porém, não precisamos criar novos moldes de relacionamentos pra praticar tais coisas. Eu detesto rótulos num geral – e acho perigoso demais usar um discurso de amor livre, porque a gente sabe muito bem que de livre, não tem nada, não para as mulheres. Homens tem, praticamente, obrigado mulheres a serem poliamoristas, principalmente, homens de esquerda e muitas mulheres se sentem culpadas por não querer ou não conseguir ser. O amor livre beneficia homens. Porque a sociedade beneficia homens e isso não vai ser diferente no amor. Eu sei que ninguém da comunidade amor livre – obriga pessoas a serem amor livre – mas acontece é que, mulheres que não são – estão sendo constantemente, cobradas pela esquerda em rodas de cv ou até nos relacionamentos: sendo chamadas de antiquadas e conservadoras ao recusarem esse discurso. Novamente, eu digo:

Amor livre e libertação feminina nada tem a ver – se você pensa assim, reveja seus conceitos e parem de chamar mulheres de antiquadas por se recusarem a ser «amor livre»

Sem falar que esse discurso é um prato cheio pra homens, né. Se homens não conseguem manter uma relação ok mesmo com uma pessoa e se dedicar a ela de maneira responsável, imagina namorando 5 ou 6 mulheres? e o mesmo vale para as mulheres. Será mesmo que esse povo amor livre tem tempo de se dedicar de maneira responsável com todos os seus parceiros? Porque se não, fica um tanto de gente namorando em teoria 3,4 pessoas mas levando o namoro com a barriga e não tendo responsabilidade. Falo por mim, porque já namorei várias pessoas ao mesmo tempo e o resultado disso tudo foi: eu e as pessoas envolvidas saímos com a cabeça fudida e cheios de traumas e ninguém conseguiu se dedicar ao outro de maneira OK.

Entenda, antes que venha alguém aqui nos comentários me chamar de conservadora: eu não estou louvando a monogamia só que, eu também não estou louvando o discurso amor livre. Sabe o que eu louvo? Libertação das mulheres e por isso que luto todo dia, por isso. Então, quando vejo várias delas caindo em armadilhas de discurso amor livre, eu me sinto no dever de escrever sobre isso. Eu defendo uma maneira saudável de se relacionar, uma maneira responsável com você e com a outra pessoa. e eu defendo, principalmente, as mulheres e também a saúde mental feminina. E eu acho que tanto o discurso monogâmico e o não mono tem feito com que mulheres se sintam na obrigação de assumir posturas que elas não querem — para agradar olhares masculinos. Esse texto é uma reflexão, um grito, um apelo.

Não quero que pensem que defendo relações opressivas, longe disso. Acho que já passou da hora de repensarmos como temos amado, mesmo porque amor é uma construção social. Eu só acho que o discurso amor livre não vai resolver nossos problemas enquanto classe de mulheres. Só isso.

Eu já fui uma mulher que acreditava no amor livre e via nele ele a solução dos meus problemas, enquanto mulher. Ainda bem, que hoje eu nem me iludo mais com isso.

One thought on “Eu já fui uma mulher que acreditava em amor livre

  • 02/03/2020 at 07:02
    Permalink

    Excelente reflexão!! Obrigada por tanto

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *