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Feministas costumavam rejeitar revistas como a Cosmo, agora devemos celebrá-las como “empoderadoras”

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Depois de serem pressionados pelo National Center on Sexual Exploitation, o Walmart retirou a Cosmopolitan das suas filas de checkout. Agora, as feministas liberais estão defendendo a revista como empoderadora para as mulheres.

Na terça-feira, o Walmart anunciou que vai remover a revista Cosmopolitan das suas filas de checkout (embora ainda esteja disponível nas prateleiras de revistas). Apesar do motivo por trás dessa decisão ser conservador, voltado para a “proteção das famílias”, e dela ter sido incentivada por uma organização que é ao mesmo tempo anti-pornografia e liderada por um homem “pró-vida”, eu não vou ficar chorando pela Cosmo.

Aparentemente, eu sou uma minoria.

Em resposta ao argumento do National Center on Sexual Exploitation’s (NCOSE) que: “A Cosmo atinge meninas mais novas ao colocar antigas estrelas da Disney na sua capa, apesar dos artigos sexualmente eróticos que descrevem atos sexuais de risco como sexo em público, intoxicado ou anal em detalhes”, liberais discursaram em defesa da famosa revista feminina.

Várias mulheres online insistiram que a Cosmo “empodera mulheres para falarem sobre sexo de uma forma saudável e positiva”, que “Sexualidade ≠ exploração” e que o movimento #MeToo e a objetificação de mulheres na mídia não deveriam ser relacionados. Michelle Ruiz na revista Vogue chegou a comparar essa ação com a série The Handmaid’s Tale, escrevendo: “#MeToo é sobre sexo indesejado e atenção sexual, agressão sexual e assédio … é tudo sobre o sexo consensual entre adultos”.

Na Salon, Nicole Karlis escreveu:

“A Cosmo não é uma revista pornográfica. É uma revista feminina que empodera mulheres a abraçarem sua sexualidade e frequentemente encoraja mulheres a desfrutarem do sexo porque é prazeroso e porque as mulheres merecem esse prazer — enviando a mensagem de que o sexo não é um ato feito apenas para agradar homens.”

É lamentável que, para os liberais americanos, a única maneira possível de manter a “liberdade” seja apoiando toda e qualquer representação do sexo, da sexualidade e do corpo das mulheres. O falso binarismo perpetuado pelo feminismo liberal exige oposição à direita ao apoiar tudo contra o qual ela se opõe, se essas coisas são de fato coisas úteis para apoiar ou não é o que simplifica vários problemas e faz a análise feminista ser uma bagunça.

Ao mesmo tempo em que eu não confio nos motivos de uma organização que tem relação com a direita religiosa, eu também acredito que feministas deveriam responder em seus próprios termos, ao invés de defenderem automaticamente a cultura pornográfica, dizendo que tudo que critica ela é “púdico” e tudo que tem relação com sexo e com a sexualização do corpo feminino é “empoderador”.

Parte do problema aqui é o desespero moderno de ser uma “garota legal”, graças em parte à terceira onda do feminismo, centrada na juventude, que não contesta (e até mesmo apóia) acusações de “pudor” e “negatividade sexual” lançadas contra qualquer mulher que ouse desafiar o sexo focado no homem e a objetificação feminina. Também tem o fato do cristianismo ser tão forte nos Estados Unidos, que muitas das meninas novas que apoiam o feminismo liberal vieram de famílias onde qualquer coisa fora o sexo hétero dentro do casamento seria considerado “ruim”, então essas mulheres estão ainda presas em um tipo de rebeldia adolescente onde elas consideram que sexo é algo inerentemente liberatório. Mas outro fator é que, como cultura, nós não entendemos a diferença entre “atração” ou “desejo” e objetificação. Nós unimos tanto essas ideias nas nossas cabeças, que para muitas pessoas é praticamente impossível entender que pornografia não é igual a sexo, e que contestar a objetificação feminina feita pelos homens (ou mesmo a objetificação feminina internalizada por mulheres) não significa que a atração dos homens por mulheres seja inerentemente ruim ou fora dos limites.

Na verdade, atração deveria ser o oposto de objetificação. O que a objetificação faz é cortar as pessoas (principalmente mulheres) em partes — é um jeito desumanizador de olhar para seres humanos, que separa os corpos das mentes, dos sentimentos, das políticas, dos interesses e dos desejos. Quando eu me atraio por um homem, por exemplo, essa atração nunca é desconectada da sua personalidade, linguagem corporal, comportamento, senso de humor e etc. (Infelizmente isso não quer dizer que eu só me atraia por homens com personalidades e comportamentos incríveis, então essa verdade existe tanto para o bem quanto para o mal.) Eu não escolho os meus amigos pelas aparências, mas porque nós gostamos da companhia um dos outros. A noção de que relacionamentos que incluem sexo deveriam excluir personalidade da equação é desumana, e a ideia de que “atração” deveria separar a mente do corpo é ridícula e perigosa. Esse conceito foi traduzido, dentro do patriarcado, para dizer que mulheres são apenas os seus corpos — que as suas mentes, interesses e desejos são irrelevantes para o mundo, pois seu propósito é agradar e atrair o prazer dos homens. Conectada com o capitalismo, nós extendemos a objetificação para mercantilização, e os corpos das mulheres e suas partes são comprados e vendidos, ou usados para vender produtos.

E a objetificação não é apenas uma ideia abstrata, desenvolvida por teorias feministas de filmes. Ela tem consequências na vida real.

Dois estudos recentes descobriram que objetificação sexual aumenta a agressão masculina contra mulheres. Um estudo mostrou que quando uma mulher era sexualizada, aumentava o senso de direito dos homens em relação ao corpo dela, e que, como resultado desse senso de direito, os homens respondiam com agressão quando rejeitados. O outro explica que “objetificação sexual é a percepção de um indivíduo apenas como objeto que pode ser usado para realizar desejos sexuais, ao invés de uma pessoa com direitos e morais próprias, e uma mente complexa.” Quando nós vemos uma pessoa apenas como partes de um corpo, ao invés de um ser humano completo e complexo (essa ideia pode ser aplicada em animais não humanos também) nós temos menos empatia e cuidado por essa pessoa, ou seja se torna mais fácil machucá-la e abusá-la. “Mulheres objetificadas sexualmente são vistas como pessoas sem natureza humana, frias, incompetentes e imorais, que possuem vidas mentais relativamente pobres”, explicam os pesquisadores.

Agora você pode estar perguntando como tudo isso se relaciona com a Cosmo. Por décadas a revista tem vendido cópias através do uso de mulheres sexualizadas nas suas capas.  Pode parecer estranho falar de objetificação no contexto de revistas femininas, porque geralmente nós entendemos objetificação como algo que existe apenas no contexto do olhar masculino, mas não são só homens que objetificam mulheres. De fato, nós, como mulheres, aprendemos a nos objetificar — para nos vermos através do olhar masculino. Nós aprendemos a querer ser objetificadas, e aprendemos que o nosso valor reside na nossa habilidade de conseguir ser objetificada com sucesso. Essa lente pornográfica que diz que as partes dos corpos das mulheres existem para excitar homens ou para serem fodidas, torna-se algo que excita as mulheres, já que, como não existem outras opções, elas conectam a objetificação ao sexo.

E não são apenas as capas das Cosmos que reeinforçam essa mensagem. O conteúdo da revista é focado em ensinar mulheres a agradar os homens dentro e fora do quarto e a colocar o prazer masculino acima do feminino.

Inúmeros artigos ao longo dos anos explicaram “O que homens realmente querem na hora do sexo” (Chocante: “34% dos homens dizem que querem que as mulheres os surpreendam com um boquete quando eles entram no quarto!”), como “Encontrar um novo homem até o verão”, e ensinam mulheres a questionarem “O que ele pensa quando passa pela sua porta”, enviando a mensagem de que encontrar um namorado ou marido deve ser o objetivo principal da vida de mulheres, e que se focar no que homens pensam sobre nós é um uso valioso da nossa energia mental.

Antes de um encontro, nós somos aconselhadas a ir na academia, esfoliar todo o nosso corpo, usar inúmeras loções para esconder tudo, desde a “descoloração” da nossa pele até a nossa celulite, criar uma iluminação no quarto que disfarce as suas falhas, evitar encarar homens de frente quando estiver nua, mas “virar-se para um ângulo de 3/4”, sustentar-se de maneira desajeitada na cama para garantir que você pareça o mais “sexy” possível, e usar sapatos de salto desconfortáveis, fisicamente danosos.

Além da mensagem de que mulheres devem gastar inúmeras horas e dólares se transformando em objetos para serem fodidos, nós também somos ensinadas a arte de agradar homens. Ultimamente isso tem significado utilizar a indústria sexual como guia. A Cosmo sugere, literalmente, que nos tornemos objetos do olhar voyeurista porque é “quente” assistir um homem te vendo —em outras palavras, o que é sexy é transformar você mesma em pornografia ao vivo. Nos últimos anos a revista tem começado a publicar dicas de sexo escritas por mulheres que trabalham com pornografia e prostituição, simultaneamente promovendo essas indústrias como opções empoderadoras e inofensivas para mulheres, mostrando “sexo” como algo que mulheres fazem para homens, e não para o seu próprio prazer.

Se a Cosmo estivesse realmente interessada na libertação e no empoderamento de mulheres, ela estaria nos dizendo que os nossos corpos são reais e humanos, com celulites, pelos e todo tipo de coisas que supostamente não seriam sexy, e que se um homem não quer estar perto de você porque você tem um corpo humano ele não merece nenhum momento do seu tempo ou da sua energia. Não estaria focada em vender milhares de dólares em produtos, roupas e cosméticos para mulheres “consertarem” os seus “defeitos” e o que está “errado” com seus corpos. E, definitivamente não estaria mandando a mensagem de que encontrar um namorado ou marido e em seguida, torcer-nos em nós (literal e figurativamente) tentando adivinhar seus pensamentos e realizar fantasias pornográficas para ele no quarto é um objetivo digno.

Em um comunicado de imprensa, Dawn Hawkins, diretor executivo da NCOSE, disse:

“É assim que a mudança real se parece em nossa cultura #MeToo, e a NCOSE tem orgulho de trabalhar com uma grande corporação como a Walmart para combater influências sexualmente exploradoras em nossa sociedade. Mulheres, homens e crianças são bombardeados diariamente com materiais sexualmente objetificadores e explícitos, não apenas on-line, mas na fila do caixa no supermercado. ”

Embora eu não possa presumir saber os motivos do NCOSE se conectar o #MeToo a essa ação, o impulso liberal contra isso é equivocado (mas previsível). O feminismo liberal trabalhou consistentemente para compartimentalizar a violência sexual, a pornografia, a prostituição e a objetificação. Mas recusar-se a conectar o movimento #MeToo à indústria do sexo e à objetificação sexual das mulheres, de forma mais ampla, garante o fracasso do feminismo. A agressão sexual, o assédio e a violência masculina contra as mulheres estão diretamente ligados à objetificação. De fato, a indústria do sexo é um lugar onde essas coisas não são apenas toleradas, mas erotizadas

No passado, movimentos de mulheres jogaram cópias da Cosmo em “latas de lixo da liberdade.” Hoje, as chamadas feministas não estão apenas se recusando a criticar a revista, mas também defendendo o que é, em muitos aspectos, um manual para a subordinação feminina como um aliado valioso nesse movimento político.

O fato de que não podemos diferenciar objetificação de sexualidade ou desejo significa que a cultura pornográfica moldou a nossa sociedade de forma massiva. O trabalho do feminismo deveria ser lutar contra isso — para dizer “nós podemos criar um mundo diferente.” É nossa responsabilidade como radicais imaginar que outra coisa é possível— além do que a esquerda, os liberais e a direita determinaram como nossas opções.

Se as mulheres não querem que a direita religiosa faça este trabalho, elas devem fazer isso por si mesmas.


Por Meghan Murphy
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