Heterossexualidade compulsória, lesbofobia e resistência
Heterossexualidade compulsória, lesbofobia e resistência

É importante que o movimento feminista não reduza o conceito de heterossexualidade compulsória enquanto igualmente nociva a todas as pessoas. Quando se fala de heterossexualidade compulsória, não se está falando de uma suposta opressão genérica que visaria forçar todas as pessoas à heterossexualidade por um motivo moral. A heterossexualidade compulsória é um regime político que visa manter o acesso de homens aos corpos e capacidades laborais e reprodutivas de mulheres, através do conceito ferrenho de núcleo familiar, da monogamia, da dicotomia entre espaços públicos e privados, e da naturalização da mulher enquanto categoria reprodutiva resumida à sua especificidade biológica e portanto inferior, complementar, existente apenas em oposição ao masculino, saída da costela.

Enquanto homens são educados para a dominação, para a primazia do núcleo familiar patriarcal, a mulher é forçada à submissão, tanto fisicamente (ainda existem países em que o casamento é estipulado pelos pais da mulher, ela é transferida enquanto propriedade do pai para propriedade do marido e nunca será entendida enquanto ser possuidor de autonomia) quanto culturalmente — em uma série de políticas familiares e educativas que incutem à mente das mulheres que sua existência é definida pela atratividade que exerce aos homens e só será completada quando for devidamente penetrada e engravidada por um (o que só é possível mediante um suposto merecimento). A penetração também é compulsória: é dada como única forma de sexo, heterossexual ou não, e colocada como prazerosa quando é perigosa ou dolorosa para grande parte das mulheres.

Aos homens gays foi ensinada a virilidade e a dominação e eles a exercem, mesmo rejeitando o papel de patriarca — eles exploram empregadas domésticas e suas mães, avós e tias, e não deixam de levantar a voz para uma mulher quando confrontados, não deixam de ser possuidores de salários maiores, poder aquisitivo e político maiores. Às mulheres é forçado um entendimento da própria existência regado a submissão e insegurança desde os primórdios, o primeiro sapatinho rosa colado à barriga da mãe — e qualquer manifestação de autonomia é reprimida (estudo, trabalho, escolha quanto à maternidade, etc). A heterossexualidade compulsória não oprime homens e mulheres. Às mulheres lésbicas é relegada, então, a sub-existência, o limbo dos despossuídos e despossuidores, na margem da sociedade. A falta de direitos básicos as relega a subempregos e as coloca em condições ainda maiores de exploração. A lésbicas resta a histeria, a loucura, a invisibilidade. O único modo de se afirmarem é enquanto outsiders, é afirmarem sua existência fora da norma e sua consequente resistência.

O movimento LGBT assimilou essas duas vivências e cooptou mulheres lésbicas sob o argumento de que sofrem igualmente as consequências de algo que chamaram heteronormatividade; ignorando qualquer recorte de sexo e as estruturas de poder, opressão, exploração e interesse que mantêm o sistema. É papel do movimento feminista fazer a diferenciação, pois não há nada que assemelhe mulheres lésbicas a homens gays, eles não compõem uma categoria pois não existem da mesma forma, não são oprimidos da mesma forma e não tem o mesmo papel na sociedade — e mulheres lésbicas são um reduto de resistência. A sexualidade lésbica é o que há de mais subversivo — e, portanto, asqueroso — dentro de uma sociedade patriarcal, e é desonesto, reducionista e politicamente interessante quando tentam encaixá-las no conceito de diversidade.

Assim, ao invés de se preocupar com mulheres lésbicas que seguem enxergando a heterossexualidade como única saída, que estão presas ao regime compulsório no qual foram criadas, o movimento feminista se deixa cooptar e passa a gritar por uma liberdade sexual que de livre não tem nada, num discurso raso que não abrange nem um décimo do que é a vivência lésbica e a importância em negarem seus corpos ao acesso masculino. O feminismo precisa ser lesbocentrado porque a revolução será lesbocentrada ou não será. Isso não quer dizer que toda mulher é ou será lésbica ou que as pautas de mulheres heterossexuais e bissexuais são menos importantes, mas sim que é necessário se reavaliar, colocar a própria sexualidade em questionamento, e tentar ao máximo se livrar da ideia de que é absurdo ou anormal viver sem homens — porque só entendendo os corpos das mulheres enquanto autônomos as mulheres poderão estender esse raciocínio para sua existência e por consequência suas atividades, sua força de trabalho, sua inteligência e capacidade. Isso não quer dizer também, que não exista heterossexualidade como sexualidade, apesar de também a sexualidade ser socialmente construída — quer dizer que a existência da heterossexualidade não anula o caráter político que ela tem e o que ela representa em via de regra. E, por último, isso não é sobre endeusar mulheres lésbicas ou romantizar lesbianidade. É sobre entender a importância de mulheres amarem e priorizarem apenas mulheres dentro de uma sociedade patriarcal.

É de suma importância, então, que o movimento feminista fale de lesbofobia, e não de homofobia, e que entenda suas diferenças; que dê importância à produção política lesbiana. É importante que o feminismo não caia nas relativizações e distorções típicas do movimento LGBT, no conceito de monossexualidade enquanto grupo e como potencializadora de poder, privilégio e opressão, na crença de que lesbianidade é um rótulo a ser abolido como todos os outros, na crítica pós-moderna à saída do armário lésbica porque se assumir lésbica seria conservador, e na misoginia clara que é a abominação de mulheres que restringem sua atividade sexual a pessoas com vaginas, quando taxadas enquanto transfóbicas. Enquanto o movimento feminista reproduzir esses conceitos falhos, ele não será acolhedor a lésbicas e suas especificidades; enquanto culpabilizar ou duvidar da lesbianidade de mulheres que se assumiram mais tarde (inclusive invisibilizando a existência de lésbicas mães), enquanto não entender a violência que a presença de homens pode ser para lésbicas, enquanto não pautar estupro corretivo, ele estará as invisibilizando, estará sendo lesbofóbico e reproduzindo mais do mesmo travestido de discurso revolucionário. O feminismo precisa exaltar, respeitar e honrar a lesbianidade.

Isso é um apelo. Pois enquanto o feminismo for heterocentrado e se juntar ao coro daqueles que gritam, aos quatro ventos, que lésbicas não existem, ele não será para nenhuma lésbica. E sem sapatão não há revolução. Continuaremos nas garras do patriarcado.

O lesbianismo feminista explica que a mulher não depende econômica, emocional e materialmente dos homens. Esse já é um ato subversivo frente ao patriarcado e frente a todas essas formas de exploração e subordinação. Não necessitamos dos homens para viver, pois criamos redes solidárias entre mulheres, sejam elas lésbicas ou não. Essas redes têm gerado outras formas de relação, de sexualidade e prazer, nem falocêntricas nem opressoras. São outras relações sociais não hierárquicas. A partir dessa posição, o lesbianismo, então, não se entende somente como uma prática sexual, mas também, sobretudo, como uma atitude de vida, uma ética emoldurada em uma proposta política.”

Ochy Curiel

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