*Spoilers à frente, o que não significa que estrague a mensagem do livro.

Acredito que muitos conheçam Jojo Moyes. Ela escreveu um livro chamado “Como eu era antes de você” e que foi transformado em filme, cujos protagonistas foram Emília Clarke (Dracarys) e Sam Clafim (que eu particularmente não conheço).

Muita gente chorou com essa narrativa, eu inclusa, contudo, Jojo Moyes tem em sua bibliografia uma pérola que deveria ser ovacionada, divulgada, amada, adorada chamada Um + Um.

Todos podem ser enganados pelo clichê que se apresenta na sinopse de uma mulher desesperada que precisa criar seus filhos sozinha e aparece um homem relativamente rico para salvá-la. Parece familiar? Também temos um cachorro gigante que é maravilhoso. Norman!

Essa ideia que apenas um homem pode salvá-la?

Temos toda uma publicidade cinematográfica e literária que é pautada nesses padrões. Principalmente quando direcionadas às mulheres.

Contudo, Um + Um não fala nada disso. Sim, ele tem esses personagens e muitos outros. Mas a lição mais importante e oculta a se extrair é que a superação dos problemas não depende da sua vida amorosa.

Existe o amor vencendo barreiras?

Claro.

A noção de amor romântico é forte no livro?

Sim.

Só que é apenas coadjuvante. Quer que eu prove?

Vamos passear pelo enredo, enredo esse que não foge às regras dos livros ditos e classificados como de mulher. (classificação essa que será questionada em outro texto).

Existe um homem marcado por problemas emocionais que ele considera que foram culpa das mulheres em sua vida, que não vê muito o contexto, só que ele realmente não é o protagonista.

Temos a maravilhosa Jessica Rae Thomas que é uma mãe solo, que deu um tempo para o seu marido se recuperar de uma suposta depressão (em tempo, ele não é depressivo. Ele usa de uma suposta doença mental para se aproveitar da esposa.)

Jessica tem dois filhos: Constanza, carinhosamente Tanzie e Nick que não é filho biológico dela e ela não faz nenhuma distinção dele por causa disso, é diarista, barwoman e faz tudo.

Enfrenta a violência sistemática que a pobreza em um local que recebe pouca atenção do serviço público traz.

O filho mais velho sofre bullying na escola por ter uma aparência diferente do padrão e a filha mais nova também sofre por ser superdotada.

Temos um cenário perfeito para que venha um príncipe do cavalo branco ou do Porshe preto venha salvar essas pessoas vulneráveis, mas não é isso o que acontece.

Tanzie, a filha mais nova ganha uma bolsa de estudos para estudar na melhor escola do Reino Unido e como a mensalidade é muito mais do que ela pode pagar, o professor de matemática sugere que ela participe de uma olimpíada de matemática cujo prêmio é uma bolsa nessa mesma escola.

E Jessica em seu desespero somado à chance de mudar de vida através da vitória da filha parte em uma viagem desesperada com um carro completamente irregular rumo à Escócia e ela é parada pela polícia e corre o risco de ser presa.

Claramente para dar mais sabor à trama Ed é a pessoa que aparece para ajudar e em um arroubo de generosidade ele oferece para levá-los até lá.

A atração entre ambos e a relação deles com as crianças considerando todos os atravancos dá um tom de comédia ao livro, mas sempre permeado com o tom das agruras de ser uma mãe solo que foi mãe na adolescência.

Acontece a junção de ambos por motivos diversos e a ruptura logo depois por motivos irônicos. E a avalanche emocional de Jessica diante disso é muito triste. Jessica cita várias vezes que com Ed ela pode se ressignificar além do papel de mãe e quando isso é cortado ela fica desolada.

Um recurso literário interessantíssimo a ser observado é quando a protagonista sofre, vem mais sofrimento para ela superar e acontecem vários fatos que fazem com que Jessica pense em desistir, somada à depressão pela briga com Ed, seus filhos andam com problemas maiores.

Como a maioria das mocinhas retratadas, ela tem a tendência de não querer incomodar, mesmo tendo um ex-marido que negligencia a criação dos filhos, que a lesa emocionalmente e depois ela descobre que ele fez algo horrível, mas na tentativa de poupar o emocional dele e em decorrência, se esforçar ao máximo para fazer tudo certo, acabou explodindo. A tendência é sempre achar que os problemas que ela tem são secundários e que todos precisam ser preservados e ela aguenta tudo até o final. O estereótipo da super mulher.

A catarse vem quando um ente querido sofre uma tentativa de sequestro e outro ente querido se machuca ao salvá-la. Jéssica se vê em um precipício e não sabe como seguir em frente. Nesse momento é aguardado que o mocinho perceba que errou e a salve de algo, mas não é o que acontece. Ela ainda está sofrendo pelo amor perdido, pela vida que não anda bem, pelo sofrimento dos filhos, contudo ela não esquece que é ela por ela mesma, mesmo

Usou de sua habilidade e perspicácia para conseguir se firmar, o aprendizado que a vida lhe trouxe foi empregado em prol dos seus entes queridos.

Seu filho mais velho também atua quando desabafa sobre todos os problemas e consegue o retorno por isso.

A mensagem que esse livro quer passar é: o amor é necessário, mas o romântico nem tanto. Supera-se os problemas desde que se tenha companheirismo, companheirismo esse que vem das amizades, da família e de quem mais aparecer.

O romantismo não salva as pessoas e até a literatura dita feminina está se rendendo a isso.

Deem uma chance a Jessica Rae Thomas, ela vai te surpreender.

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