Libertem Cláudia Aparecida
Libertem Cláudia Aparecida

Tá ali debaixo do carro o homem que eu amava”

Precisamos falar sobre Cláudia.
Cláudia Aparecida, de 47 anos, moradora de Ituverava, está presa acusada de homicídio doloso qualificado.

Cláudia matou seu esposo atropelado. Em seguida, fez transmissão de vídeo ao vivo no seu Facebook, mostrando o corpo no chão e assumindo o que fez. No vídeo, Cláudia conta que tinha ele já a tinha ameaçado de morte, que tinha medida protetiva contra contra o homem e que a família não acreditava nela.

Cláudia diz:
“Minha família não vai chorar (…) Eu vou chorar porque eu amava, mas não de arrependimento. Ele me fez sofrer, ele judiou de mim, ele acabou com a minha vida”

O Brasil tem em média 12 feminicídios por dia. Todos os dias, 12 “Claudias” são assassinadas. A maioria dos feminicidios são cometidos por homens com quem as vítimas se relacionavam afetivamente: maridos, ex maridos, namorados, ex namorados. A esmagadora maioria acontece no espaço de um ano após o término da relação.

“71% dessas mulheres —as que morreram e as que sobreviveram— foram atacadas pelo atual ou ex-companheiro. De cada 4 suspeitos, 1 tinha histórico de violência ou antecedentes criminais.” (fonte aqui)

Isso significa que são mortes anunciadas. O homem que assassina a mulher já tem histórico de violência contra a mulher, já tem denúncias feitas em seu nome, e continua em liberdade.

As campanhas contra a violência doméstica continuam pedindo às vítimas que denunciem. Continua responsabilizando a vítima pela sua salvação.

Não me entendam mal: é muito importante que mulheres continuem a insistir nas denúncias. Mesmo que eles depois nos mandem pra casa. Que nos digam pra “escolher melhor quem colocamos na cama”. Que digam que estamos mentindo. Denunciem. Nós precisamos desses dados. Precisamos dessa prova para reivindicar políticas. Foram as denúncias que forçaram os Estados a reconhecerem a epidemia, o problema que a educação e a cultura sexista misoginia criaram, e a criar dispositivos de auxílio à vítima (como abrigos, apoio psicológico, afastamento laboral, etc). Mas a mulher vítima de violência doméstica não vai resolver sozinha. Responsabilizar a vítima apenas pela sua própria salvação não vai parar a violência e precaver os feminicidio.

Onde estão as campanhas focando o agressor? Onde estão as campanhas dizendo que se ele agredir uma mulher, nós iremos atrás deles? Que eles serão responsabilizados?

Não existem. Ninguém diz ao agressor que ele está errado. Ninguém diz aos homens que eles não podem, não devem fazer isso. Que eles irão se dar mal. Eles são incentivados desde a infância a se relacionar com mulheres através da violência (“ele implica com você porque quer chamar sua atenção… Faz isso porque gosta de você…“). Eles são incentivados a provarem que são “machos” através da violência. Eles são incentivados a consumirem violência contra a mulher e isso é chamado de sexo e entretenimento, na pornografia. Como esperar diferente?

Nós queremos mais Cláudias Aparecidas, mulheres que revidam antea de serem mortas, mulheres que se salvam antes de esperar que as autoridades digam que ela está mentindo ou que coloquem uma tornozeleira eletrónica que não impede o agressor de matar. Nós queremos mais Cláudias e menos Rosangelas da Silva, mulher que denunciou seu ex namoradk agressor e dois dias depois foi encontrada morta na beira de um rio no Mato Grosso.

Mas nós também temos de estar lá por elas. Sair às ruas cada vez que o Estado culpa uma mulher por se defender. Cada vez que o Estado tira a liberdade da mulher que não aceita seu assassinato, violação e agressão com passividade. Quando o Estado prende uma mulher que se defende, ele está avisando a todas nós qual é o nosso lugar. Quando o Estado solta o estuprador e o feminicida, mas prende a mulher que mata seu Estuprador e seu potencial assassino, ele está dizendo que o homem tem direito de fazer o que quiser com aquela mulher. Com o corpo dela, com a vida dela.

Não. Não mais.
O violador é você.
Não somos nós.

Convido todas as mulheres a se manifestarem por Cláudia. Organizem protestos por Cláudia. Ela está sozinha encarando um Estado violador e femicida. Hoje é Claudia, amanhã somos nós.

Lembram-se do caso de Nusrat Rafi, no Bangladesh? A jovem estudante que denunciou seu professor por assédio sexual e depois foi qurimada viva por outros estudantes na escola. O professor chegou a ser preso logo após a denúncia de Nusrat, mas centenas de pessoas se manifestaram pela sua libertação do lado de fora da delegacia.

Os homens são sérios sobre os direitos e privilégios que têm. Os homens são sérios sobre a liberdade deles. E eles sequer estão ameaçados pela relação que têm com as mulheres.

Nós estamos. Diariamente. Cotidianamente. Está na hora de cada mulher ser séria sobre a sua liberdade, seu direito e libertação também.

Antes que sejam assassinadas.

“Estou pedindo que vocês organizem um apoio político para as mulheres que matam homens que as tenham ferido. Elas têm estado isoladas e sozinhas. Esta é uma questão política. Elas estão sendo punidas porque em algum momento de suas vidas elas resistiram a uma dominação que elas deveriam aceitar. Elas estão lá na cadeia por nós, para cada uma de nós que escapou sem ter que puxar o gatilho, para cada uma de nós que vivemos para contar sobre fugir sem ter o gatilho sendo puxado para nós.” – Andrea Dworkin

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