O complexo da mulher perfeita

Para quem acompanha meus textos, sabe como foi difícil meu processo de aceitação quanto ao meu corpo, minha pele, meu cabelo, meus pêlos, minhas espinhas etc .

E aí, o que eu quero dizer sobre o complexo da mulher perfeita?

Que todas as meninas e mulheres foram socializadas para serem perfeitas aos olhares masculinos na sociedade. Dito isso, até mesmo feministas aguerridas e experientes se veem na situação de ainda quererem ser a mulher perfeita. Isso acontece. É normal.E repudiar isso leva tempo e faz parte do processo de tomada de consciência do que realmente é nossa opressão.

Meu texto tem por objetivo acalmar e acalentar o coração das mulheres que se sentem mal por serem feministas e ainda sentem desconforto toda que vez que a opinião dos homens (ou qualquer outra pessoa) as afeta. Não é de uma hora para outra que toda uma socialização de séculos vai sumir. Entender os mecanismo do patriarcado faz parte da nossa luta – mas até o entendimento leva tempo. Não se culpe por não ser a mulher perfeita que querem que você seja.

Há uns dias recebi um direct no insta, de um homem que disse que se eu fosse “mais feminina” ele me namoraria, com toda certeza. Eu li aquela mensagem e pensei “fodasi-vc-homi-escroto”…mas umas horas depois fiquei me perguntando: se eu usasse maquiagem, tivesse cabelão, barriga chapada eu seria mais aceita e seria talvez mais amada? Obviamente, esse pensamento me ocorreu porque minha estima foi anulada ao longo da vida e o pouco que sobrou foi estilhaçada por um homem e por mais feminista radical que eu seja, eu fui tornada mulher. Eu passei anos da minha vida sendo ensinada a agradar homens e vendo-os criticando minha aparência. Minha “rebeldia” por um segundo, pareceu que eu estava “negando minha missão na terra” e eu me senti mal.

E depois, por horas, fiquei me questionando: como eu posso ser uma feminista radical e ainda assim ficar muito mal com comentários que homens fazem sobre mim?

O que acontece é que homens nos xingam NÃO só pelo fato de não nos vestimos como eles querem – o fato de eu não me comportar como eles querem também causa fúria: “quem você acha que é pra negar sua feminilidade e assumir isso, publicamente”?

Porque homens não querem ter SÓ controle sobre nossos corpos, eles querem ter controle sobre tudo em nossas vidas, nossos pensamentos, nosso comportamento, até nossos sentimentos e isso se manifesta desde o tipo de corte do meu cabelo até meu tom de voz numa conversa.

Muitas pessoas acham que por mulheres assumirem posturas feministas em suas vidas, essas ESTARÃO blindadas de sofrer ao ouvir qualquer ofensa vinda de homens

Eu te digo que NÃO. Eu mesma sou uma feminista radical ferrenha, coloco minha teoria na prática e luto pela libertação de todas as mulheres. Entretanto, ainda vivemos num mundo que odeia mulheres e qualquer comentário que homens dizem sobre nós, talvez ainda nos cause raiva, tristeza e até vontade de querer voltar a reproduzir certos padrões de feminilidade só para não ser excluída por eles.

É normal sentir isso. Não se culpe. Ninguém vai tirar sua carteirinha de feminista porque por alguns segundos você pensou que se agradecesse olhares masculinos talvez não sofresse tanta violência e xingamentos. Ou mesmo se às vezes você acabar cedendo, porque esse processo não é simples mesmo.

Mas eu também preciso te dizer que não importa como você aja na sociedade. Como mulher, independente de você querer ou não agradar homens, eles vão ser machistas e misóginos de todo jeito. A feminilidade por si só já é violenta. Por mais que você seja mais aceita por ter cabelo grande do que eu com meu cabelo curto, ou que você reproduza feminilidade e eu não – nós todas ainda estamos sob as garras do patriarcado.

Por mais que estejamos nos moldes que eles querem (por causa da nossa socialização) – eles sempre vão dar um jeito de minar nossa aparência, nossos gostos, nossos discursos. Porque homens desejam que tudo seja sobre eles e nunca sobre nós.

Quando eu recebi aquela mensagem no direct, pensei: “como um homem pode se achar no direito de ditar o que eu sou ou não”? Mas eu lembrei que o mundo foi construído para eles e eles acreditam nisso.

Mas eu estou aqui pra dizer que: é bom saber que vocês sempre estiveram errados. Se o mundo foi construído para vocês, as mulheres sabem disso e estamos dispostas a lutar por nós mais do que nunca. Para construir um mundo em que o olhar masculino não seja o centro.

Eu já me senti muito culpada por ainda observar em mim comportamentos de ainda querer agradar homens e fazer tudo para caber no mundinho deles. Embora o feminismo radical sempre me dê suportes é difícil se desprender de padrões que nos foram impostos desde o descobrimento do nosso sexo, na barriga da nossa mãe.

Eu recebo inúmeros comentários de homens me xingando nas minhas redes sociais. Vai de “burra” para “horrorosa” “monstra” etc. Confesso que passei a não me importar, mas quando eles apelam para xingamentos específicos sobre minha aparência, eu paro, penso e as vezes sinto que minha autoestima foi destruída por 5 segundos.

Eu tenho aprendido com grandes teóricas feministas radicais que tudo é um processo. Que ainda vivemos numa sociedade em que homens criaram um protótipo de mulher perfeita e qualquer menina ou mulher que não seja esse protótipo terá a integridade e beleza questionadas, minadas e ridicularizadas.

Eu sei que não sou uma má feminista porque ainda me sinto mal quando homens xingam minha aparência, minha postura, meu discurso. Primeiro, porque sou um ser humano e segundo porque fui socializada para agradá-los. E por mais que eu lute contra todos os demoniozinhos dizendo “você não precisa agradar homens”, a sociedade ainda me cobra constantemente, que eu agrade.

Eu recebo muitas mensagens de meninas que dizem que fazem de tudo para viver uma vida independente do gosto masculino, mas que as vezes ficam mal quando um homem difama sua aparência.

Esse mix de sentimentos é normal, faz parte da nossa análise teórica , faz parte de quem a gente é. A luta não é fácil e sobreviver num mundo que odeia mulheres é uma das tarefas mais difíceis de ser mulher.

Então eu fiz esse texto para você saber que eu também sinto tudo isso. Que está tudo bem. E que, por mais que homens tentem nos dizer que precisamos dos olhares deles para nos sentirmos bem – faz parte do processo de luta tomar essa consciência de que não precisamos nem um pouco da opinião deles em nossas vidas.

Por mais feministas ferrenhas radicais que sejamos, o complexo de querer ser a mulher perfeita ainda vive em nós. Porque desde a mídia até o creme de cabelo que compramos, tudo, absolutamente tudo, tem sido feito e produzido para que agrademos o olhar masculino. Então as vezes é difícil saber o que nós gostamos, de verdade. Porque tudo na nossa vida enquanto mulheres foi ditados por outros homens.

Por isso, temos que aprender a entender o que gostamos realmente; o que é imposição, o que foi feito para deixar homens felizes e nós, acabadas.

Talvez demore um tempo, mas a síndrome da mulher perfeita, uma hora vai embora.

Eu te garanto.

E está tudo bem (mas bem mesmo) deixa a mulher imperfeita que vive em nós, nascer.

Faça isso por você. Por todas nós.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *