O lado obscuro do Surrealismo que explorou a “Histeria” Feminina.
O lado obscuro do Surrealismo que explorou a “Histeria” Feminina.

Embora o termo “Histeria” não esteja mais presente nos diagnósticos médicos pós-modernos, ele já fora a designação de uma vasta variedade de sintomas físicos e mentais — especialmente em mulheres. Inclusive, a própria palavra que nomeia o distúrbio é intensamente genérica: “Histeria” deriva de um arcaico vocábulo grego para “útero”. Antigos artigos médicos do período atribuíram a aflição à um deslocado ou “navegante” útero.

A Histeria possui uma extensa história na área medicinal, emergindo tanto em diversas culturas, quanto em diversos períodos. Seu corpo teórico foi amplamente popularizado no final do século XIX e, em especial, na França, onde o neurologista Jean-Martin Charcot edificou uma clínica para histéricas no Hospital La Salpêtrière em Paris. Apesar de pouco renomado atualmente, os experimentos de Charcot para com jovens “histéricas” fora elementar tanto para os iniciais trabalhos de Sigmund Freud, quanto para, posteriormente, os princípios fundamentais do movimento Surrealista.

André Brouillet, Une leçon clinique à la Salpêtrière (Uma aula clínica no Salpêtrière), 1887. Imagem via Wikimedia Commons.

A Histeria era classificada como uma doença de elevada complexidade: geralmente, era encarada como um distúrbio mental complementado por sintomas físicos, tais como, por exemplo, surtos. A historiadora Lisa Appignanesi afirma em seu livro Louca, Má e Triste: Uma História sobre Mulheres e os Médicos da Mente (2007) que, na França de Charcot, o termo “descrevia uma loucura erótica repleta de contradições, que poderia manifestar-se em todas as partes de uma mulher e apresentar uma variedade absurda de sintomas, embora nenhum deles tivesse qualquer base real e detectável no corpo”. (Charcot admitia que homens também sofriam de Histeria, entretanto, ele insistia que esses casos eram, em sua maioria, ocasionados por acidentes traumáticos, ao invés de — no caso das mulheres — por predisposições de gênero).

As pesquisas de Charcot tornaram-se célebres por meio de pacientes internadas em La Salpêtrière e cujos sintomas eram exibidos e analisados em sessões abertas ao público. Charcot se tornou um médico renomado, transformando suas modestas sessões de diagnóstico em espetáculos para o consumo da plateia (masculina). Os métodos de diagnóstico e de tratamento no La Salpêtrière eram altamente expostos, desenvolvendo, assim, uma espécie de “teatro da Histeria” em que as sucessivas jovens e belas “histéricas” atuavam os seus sintomas como se roteirizados.

Uma das inovações de Charcot foi a configuração de um estúdio fotográfico em La Salpêtrière para, assim, poder documentar os sintomas físicos de suas pacientes — tais como a bela e dramática Augustine. As imagens foram, então, publicadas no Iconografia Fotográfica de La Salpêtrière (1876–80), um influente livro de fotografias médicas elaborado por Paul Regnard e Désiré Bourneville. Apresentado como um documento visual científico, o livro surtiu um efeito duplo: Para leitores homens, ele proveu um registro ótico das atraentes e — frequentemente — seminuas “histéricas”, enquanto que para consumidoras mulheres, ele assumiu a forma de um “manual da Histeria e seus sintomas” para elas o cumprirem, corroborando com os estereótipos associados à situação.

Paul Régnard, Attaque Hystéro-Épileptique Arc De Cercle (Ataque Histérico-Epilético Arco da Histeria), 1880. Cortesia da Biblioteca Médica Harvey Cushing/John Hay Whitney.

Nas imagens, a câmera assume a posição de um voyeur, com as pacientes olhando para as lentes e envolvendo-se diretamente com a fotografia apenas quando estão em seus momentos “sãos” ou “normais”. Quando elas estão submersas nos espasmos de um ataque histérico, as mulheres estão aparentemente absortas da presença da câmera, revelando partes de seus corpos que o pudor Vitoriano, por outro lado, esconderia.

Em uma fotografia retratando o arc de cercle,ou o “arco da Histeria”, que acreditava-se expressar a angústia resultante do distúrbio — e que Louise Bourgeois, posteriormente, desfiguraria em um corpo masculino de bronze — a mulher contorce o seu corpo para, assim, repousar sobre seus pés e ombros. Sua cabeça permanece oculta, todavia, suas pernas e seus pés estão quase plenamente expostos. A relativa distância entre a câmera e a paciente, de modo que a lente a emoldure, sugere que a fotografia é realizada para ilustrar uma “verdade” científica, mas também, simultaneamente, para colocar o observador em uma posição voyeurística; ou seja, tanto para o estudo científico, quanto para a geração de prazer sexual visual.

Freud era um discípulo de Charcot, alcançando renome por seus Estudos sobre a Histeria (1893–95). A Histeria edificada por Charcot, o corpo teórico formulado por Freud e os documentos visuais de La Salpêtrière, juntos, proveram uma fortuna de matéria cultural para complementar o trabalho de artistas Surrealistas. Em 1928, os escritores franceses André Breton e Louis Aragon publicaram um artigo no jornal La Révolution Surréaliste, que exibia imagens da “histérica” Augustine do La Salpêtrière, e que expressou o desejo “de celebrar, aqui, o quinquagésimo aniversário da Histeria, a maior descoberta poética do fim do século XIX.” Breton e Aragon continuam, contemplando a “Histeria juvenil” e, também, a “deliciosa” Augustine. “Histeria não é um fenômeno patológico e pode ser considerada, em todos os aspectos, um supremo meio de expressão”, eles concluem. Um excerto do romance Nadja de Breton, publicado no mesmo ano, aparece na mesma edição de La Révolution Surréaliste. Nesse livro, Breton celebremente escreveu “Beleza será CONVULSIVA ou não será”, sugerindo que os espasmos de um ataque histérico acontecem em um estado de excitação não satisfeita.

Louise Burgeois, Arc de Cercle (Arco da Histeria), 1993. Museu da Arte Moderna.

A invocação do “convulsivo” por Breton foi tida como um princípio dirigente da arte Surrealista. Defendendo as sensibilidades artísticas expressas pela loucura e pela “paranoia” — que acreditava serem englobadas pela Histeria — Salvador Dalí apropriou-se dos tropos visuais presentes nas fotografias de La Salpêtrière em vários de seus trabalhos.

O Fenômeno do Êxtase (1933), de Dalí, é uma colagem de diversas fotos retratando rostos de mulheres “histéricas” expressando, aparentemente, prazer sexual, não a suposta dor. Suas pinturas e seus desenhos — tais como Invisible Lion, Horse, Sleeping Woman (1930) — constantemente exibem mulheres arqueando seus corpos de uma forma que, inevitavelmente, rememora o Arco da Histeria performado pelas histéricas de Charcot. Em seu desenho Poems Secrets Nude with Snail (1967), uma mulher com o rosto parcialmente oculto arqueia o seu corpo para, assim, conseguir beber o leite derramando de suas mamas. Com os corpos mutilados, traços excessivamente eróticos e olhos fechados, as mulheres de Dalí são vulneráveis ao olhar do espectador, sem qualquer poder legítimo pela sua aparente escravização às incontroláveis características de seu gênero.

1. Salvador Dalí, Poems Secrets Nude with Snail, 1967; de Fine Art Acquisitions. 2. Andre Breton e Louis Aragon, Le Cinquantenaire de l’Hysterie (O Cinquentenário da Histeria), 1928; de “La Revolution Surrealiste”; cortesia da Biblioteca Nacional da França, Paris.

A fascinação com a Histeria perdurou por todo o período-chave do sucesso do Surrealismo. O convite para o evento de abertura da Exposição Internacional do Surrealismo (supervisionado por Marcel Duchamp), em 1938, prometeu aos visitantes uma noite de l’hysterie. Durante a tarde, a exibição colaborativa experimental foi utilizada como o cenário de uma performance pela atriz Hélène Vanel, preparada para a ocasião por Dalí e Wolfgang Paalen. A atriz pulou de uma pilha de travesseiros, nua e acorrentada, se esparramou em uma poça de água e, por fim, recriou um ataque histérico em uma cama, unindo as noções de submissão do corpo feminil com instabilidade mental e dependência natural.

Hélène Vanel na Exposição Internacional do Surrealismo em 1938, Paris. Foto por Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Imagens.

Os Surrealistas vislumbraram a Histeria como uma condição em que a expressão poética poderia ser livre, mesmo que ao custo da liberdade de mulheres que não obtiveram a oportunidade de se manifestar, ao invés disso, foram objetificadas. Décadas depois, em 1980, a Histeria foi, por fim, removida do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em sua terceira edição. Todavia, por um significante período de tempo, este distúrbio mental — agora supostamente extinto — foi classificado como uma condição fundamental da mulher e foi intensamente explorado, tanto por cientistas, quanto por artistas.


Adaptação do artigo The Dark Side of Surrealism That Exploited Women’s “Hysteria” por Anna Souter.


imagem de capa: Salvador Dalí, Invisible Lion, Horse, Sleeping Woman (Leão invisível, Cavalo e Mulher Adormecida), 1930. Museu da Arte Moderna, Centro Georges Pompidou, Paris.

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