Stephanie Kenyaa Mzee

“Afromisoginia é uma misoginia direcionada a mulher preta, pode ser identificada como uma misoginia mais brutal e violenta contra as pretas. Quanto mais escura, mais afro e sem traços da estética branca, mais vítima de afromisoginia uma mulher será.”

– Negras Negralistas.

Mulheres negras foram contrabandeadas às Américas… para servir. No âmago da teorização eurocêntrica e nuances do racismo científico e “superioridade étnica”, a mulher africana não possuía uma consciência. Sentimentos, desejos, autonomias ou sequer o status de humana foram-lhe negados. Afora, um animal. Um corpo designado a ser explorado em labutas braçais, serviços domésticos e utilidades sexuais. Durante séculos, tais pensamentos foram perpetuados e executados. A desumanização de mulheres negras atravessara instâncias físicas, psicológicas e culturais. Religiões africanas tornaram-se pivô satânico sob a ótica colonial. Suas cosmologias, nas quais Deusas imponentes ditavam seus próprios destinos, foram transmutadas à percepção de um deus unitário: homem, caucasiano e punitivista. Ademais, não possuíamos alma. Portanto, ele sequer não poder-lhes-ia salvar. Atualmente, os pilares estruturados em tal passado, perpetuam a sustentação da desigualdade a qual mulheres afrodescendentes são submetidas.

A afromisoginia possui funcionamento sistêmico, trata-se de uma das instâncias mais potentes no racismo estrutural. O estigma particularmente direcionado à mulher preta, constitui um sofrimento o qual perpassa sua condição humana integralmente. Seja no âmbito emocional, profissional ou sexual, tal engrenagem regula o papel duplamente subalterno da fêmea no sistema racial.

Um pedaço de carne sem nome

Nêga

Morena

Neguinha

Preta

Não possuímos uma identidade. Enquanto indivíduos, mulheres negras são continuamente taxadas tal classe homogênea. O sistema racista negou-nos a possibilidade de individuação socialmente reconhecida. Somente o indivíduo branco possui particularidades, subjetividades e aspirações humanas. Porém, mulheres negras são concebidas tal a reprodução fiel dos estereótipos aos quais há séculos foram submetidas: a “mãe preta”, “mulata exportação”, “preta raivosa”, “preta maloqueira”, “barraqueira”, “ignorante” e “pobre”. Tais marcadores sociais, foram forçosamente atribuídos à subjetividade de mulheres negras. Contudo, pessoas brancas expressam particularidades, sem que sejam aprisionadas na teia da homogeneização absoluta. Afinal, caso uma mulher branca roube, é de praxe saber que ninguém especulará o quão mulheres brancas são “ladras natas” ou somente aguardam a melhor oportunidade para cometer delitos. Entretanto, o oposto é recorrente na sociedade brasileira.

Em uma sociedade forjada na aliança entre o Patriarcado e Hierarquia Racial, a mínima expressão de aspectos humanamente naturais, tais: raiva, medo ou desejo sexual em indivíduos pretos, especialmente mulheres, culmina em vinculações à estereótipos negativos sob a ótica da sociedade. A mulher preta sempre fora alocada nas bases da pirâmide… como mãe, serviçal, faxineira, semianalfabeta ou favelada, parindo civis os quais possivelmente jamais alcançarão satisfatórias condições de vida e existirão somente para servir ao Estado, sem que jamais recebam retorno financeiro e social equivalentes. Mulheres negras têm sido utilizadas tal diversão barata e satisfação dos desejos sexuais e alentos emocionais. Sua utilidade dá-se no silêncio, em uma submissão duplamente instaurada. Entretanto, quando subvertem tal lógica, o ódio mordaz da sociedade racista manifesta-se.

Outro aspecto constituinte da afromisoginia, trata-se do ódio direcionado ao corpo de mulheres pretas. Em Brasil, a expectativa de beleza e desejo sexual masculino socialmente bem-aceitos, em geral, constitui-se em: uma mulher, caucasiana, preferencialmente loira e de partes íntimas rosadas. Geralmente, a mulher no interior do imaginário sexual brasileiro, possui um porte muscular fenotipicamente afrodescendente (glúteos avantajados, seios fartos e coxas rijas). Entretanto, sua pele carece de ser clara e suas partes íntimas, (vulva, mamilos e ânus), rosadas. Coincidentemente, caso ausente-se o fator “músculos fenotipicamente afrodescendentes” o estereótipo da gostosa, torna-se a mulher para o matrimônio. Neste cenário, mulheres pretas são acrescidas tal o desejo marginal e destoante. Deste modo, tornam-se aquelas as quais devem ser “fodidas” às escondidas. Usualmente, não apresentam-nas à família ou amigos. Quando relegadas à mera atração sexual, frequentemente, associam-nas à hiperssexualização ou animalização.

Padrões estéticos foram, igualmente, atribuídos aos órgãos genitais femininos. Tal idealização, fomentada pela indústria pornográfica e perspectivas raciais discriminatórias, perpetuam-se e afetam a percepção física de enorme contingente feminino. Frequentemente, mulheres pretas, indígenas e oriundas de demais etnias, não possuem toda a genitália em tons cor-de-rosa. Faz-se notório que tal característica tão “desejável e bela”, é de natureza caucasiana.

Image for post
Caso emblemático ocorrido na Rússia nos meados deste ano, durante a Copa do Mundo. Torcedores brasileiros abordaram uma mulher russa e constrangeram-na, fazendo-a proferir a frase: “buceta rosa”, (sem que a mesma possuísse conhecimento do significado), em público. Ressaltando a preferência racista e afromisógina por órgãos genitais caucasianos, chegaram ao ponto de constranger e expor publicamente uma mulher inocente.

Consequentemente, as mulheres que não possuem-na, (em especial, pretas e mestiças), tornam-se alvo de violências verbais e humilhações físicas ou simbólicas. Tal nossos corpos, as partes íntimas são igualmente de segunda classe. Constituem-nos enquanto última opção ou um desejo o qual deve-se consumar em segredo.

Não, não podes: Afromisoginia e compensações

Uma mulher graduada. Pós-graduada. Mestra. Doutora. Pós-doutora.

Consegues imaginá-la? Caso consigas… trata-se de uma mulher preta? — Provavelmente, não.

Hávariados obstáculos os quais impedem o ingresso e permanência de mulheres pretas nas procedências acadêmicas. Dentre tais, pode-se citar: miséria, pobreza, maternidade precoce, trabalho infantil e abandono. Fatores comumente atrelados ao racismo institucional, constituem uma barreira quase intransponível à maioria de nós. Contudo, uma ínfima parcela conseguiram-na transpor.

Sim, mulheres pretas em cargos de poder existem. Não, a sociedade não é receptiva à elas.

Apesar das finanças e renome, suas vidas permanecem a ser permeadas pelo racismo e afromisoginia. Uma das manifestações vigentes no dia-a-dia de mulheres pretas as quais não correspondem ao estereótipo: “mulata, ignorante e hostil”, trata-se do: “Não, não podes”. A sociedade usualmente não concebe mulheres pretas intelectuais, ricas ou influentes. Jamais habituados, agem tal fossem um “ponto fora da curva”, agentes as quais devem ser constantemente avaliadas sob critérios mais rigorosos que os instituídos aos indivíduos brancos. Tal faceta, basicamente manifesta-se em todos os cidadãos. Pois, está mesclada ao imaginário popular.

O que vêm-nos à consciência quando contemplamos uma mulher negra e uma caucasiana? À qual delas seria-nos usual atribuir conhecimento, sabedoria e relevância?

Quantas vezes surpreendemo-nos quando acessamos um artigo teórico produzido ou descoberta científica de suma importância realizada por uma mulher negra?

Quantas vezes surpreendemo-nos ao descobrir que a mulher famosa a ser homenageada em um evento, é negra?

Quantas vezes, interiormente, não aceitamos que uma mulher preta detenha mais conhecimento ou influência do que nós?

A crença em uma suposta tendência à ignorância ou inferioridade, advém dos sintomas do racismo instaurado. É-nos usual não surpreendermo-nos e jamais questionarmo-nos a respeito. Quando duvidas ou surpreendes-te por tal “grande feito” ter sido realizado por uma mulher preta… estás a ser afromisógino.

Trata-se de algo demasiado dificultoso à consciência coletiva, embebida em crenças acerca de mulheres pretas em situações de subalternidade, chacota e miséria, enxergá-las enquanto agentes humanos e sociais semelhantes e totalmente capazes. Deste modo, constitui-se uma violência subjetiva abissal: Permanecem a não enxergar-nos inteiramente enquanto humanas. Permanecemos a ser concebidas tal uma “classe à parte”.

Ademais, a afromisoginia possui um viés de “compensação social”. A emancipação total da mulher negra trata-se de uma possibilidade preterida em tal sistema, portanto, cria-se “sub-estereótipos” cujo objetivo é tornar sua presença em ambientes de poder, atenuada. Tais sub-estereótipos tratam-se de uma compensação social à nível inconsciente, para que “assimilem” a existência de mulheres afrodescendentes e influentes.

Uma mulher preta pode ser médica, desde que seja bonita.

Uma mulher preta pode ser âncora, desde que seja rememorada por um apelido e não por seu nome.

Uma mulher preta pode ser famosa, desde que traje-se sensualmente e sirva tal objeto para a minha excitação sexual.

Uma mulher preta pode ser executiva-chefe, desde que mantenha os cabelos alisados, use maquiagens e esconda ao máximo suas raízes.

Uma mulher preta pode ser o que desejar, desde que atenda às minhas expectativas.

Image for post
A renomada tenista Serena Williams fora proibida pela direção do torneio de Roland Garros de utilizar seu uniforme inspirado no super-herói Black Phanter. O presidente do torneio, Bernard Giudicelli, alegou que fazia-se necessário o uso de trajes mais conservadores. Curiosamente, os trajes aprovados para o uso das atletas, são compostos por roupas curtas. O caso ganhou enorme repercussão, sendo comentado até mesmo pela marca Nike, que acrescentou: “ Você pode tirar o uniforme da super-heroína, mas nunca poderá tirar dela os seus poderes.” Fonte: Observatório do Cinema

Conclusão

Afromisoginia relaciona-se ao controle exercido sobre os corpos, vivências, pensamentos e ações de mulheres pretas. Intenta em manchar-nos, embranquecer-nos e tornar-nos submissas e moldáveis aos padrões hegemônicos e colonizadores. Através deste sistema, ratificam o lugar subalterno ocupado por negras há mais de 500 anos nas Américas.

O Patriarcado jamais desejará a emancipação de mulheres, ademais, pretas. A subalternização de nossos corpos, trabalhos, emoções e intelectualidade é-lhes demasiado lucrativa. Ainda que determinadas organizações aleguem desejar auxiliar-nos à obter avanços sociais, resquícios da afromisoginia e o desejo velado por obter controle, sempre ser-nos-á perceptível. Até onde podemos ir? Até onde podemos libertar-nos sem que soframos represálias por afetarmos os privilégios da classe caucasiana? Até onde podemos produzir, estudar e analisar nosso próprio povo sob uma ótica decolonial? Até onde mulheres pretas podem ser consideradas autônomas?

Este artigo é protegido pela Creative Commons CC BY-NC-ND, só permitindo que seja utilizado desde que atribuam crédito ao autor, mas sem que possam alterá-lo de nenhuma forma ou utilizá-lo para fins comerciais.

COMO CITAR ESTE ARTIGO ACADEMICAMENTE: MORAIS, Yasmin. “O que é Afromisoginia?”. QG Feminista, 2018. Disponível em: <URL>. Acesso em: dia, mês e ano.


DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui