constantemente escuto dizer que “somos o sexo frágil”, e ficava argumentando com alguns exemplos que me pareciam bobos, do tipo, “você leu aquela matéria mostrando que não existe esporte “feminino” ou “masculino”, mas que o próprio tipo físico das mulheres é determinado por anos de incentivo a determinadas atividades físicas?”; ou, ainda, “sei que algumas mulheres batem nos maridos, mas isto não reflete um problema social”; etc. apesar de de vez em quando contra-argumentar, especialmente em espaços em que a didática deveria prevalecer, tudo sempre me pareceu uma grande estratégia de enfraquecimento das narrativas femininas, e é bem isso que a Mackinnon* trata nesse texto.

o feminismo não está preocupado com a Ciência que legitima a superioridade do argumento quantitativo de verificação. uma epistemologia feminista justamente nega a objetividade e as normas tradicionais masculinistas de fazer Ciência. partimos da construção social de uma generificação dos sexos.

diria Mackinnon*: “não haveria o que conhecemos como diferença de sexo — muito menos isso seria a questão social que é, nem teria o significado social que tem — se não fosse pela dominação masculina. Às vezes as pessoas me perguntam: ‘Quer dizer que você acha que não há diferença entre homens e mulheres?’. Só conheço uma resposta a isso: é claro que há; a diferença é que os homens têm o poder e as mulheres não” (p. 236).

por isso, por negarmos a visão positivista, “neutra”, do saber científico, é que também nos poupamos de responder questões como “nem todas as mulheres vivenciam isso”; “nem todos os homens fazem aquilo” — — por que se estivéssemos defendendo que 100% das mulheres vivem de tal forma, e 100% dos homens cometem tais abusos, estariamos biologizando uma questão que é social: a generificação dos sexos. mulheres não deveriam ser submetidas às violências masculinas simplesmente por nascerem XX. quem produz isso é o gênero: uma categoria social opressora que subjulga e explora corpos femininos em benefício dos homens. o problema, portanto, como nos ensina a famigerada Beauvoir, não é nascer mulher XX, mas tornar-se mulher numa sociedade que nos transforma em matéria, natureza e objeto. nos transforma nas Outras, enquanto eles, os Self, os Atores, detêm a Ciência e a neutralidade.

ainda Mackinnon*: “mostrar que uma observação ou experiência não é a mesma para todas as mulheres só prova que ela não é biológica, e não que não é generificada. Da mesma forma, dizer que não só as mulheres vivendam algo — por exemplo, sugerir que, porque alguns homens são estuprados, o estupro não é um ato de dominação masculina — apenas sugere que o status das mulheres não é biológico. Os homens também podem ser feminizados, e sabem que o são quando são estuprados” (p. 242).

significa dizer que não existe sexo frágil, mas sexo menosprezado. não SOMOS NATURALMENTE INFERIORES, SOMOS INFERIORIZADAS, SUBJULGADAS, EXPLORADAS. tudo isso não é biologizante, é fenômeno social, comprovado através das nossas histórias silenciadas e apagadas pela ciência da comprovação quantitativa masculinizada.

(*Mackinnon, em “Desejo e poder” — trechos extraído de uma palestra e parte integrante do livro ‘Teoria política feminista e textos centrais’, de Miguel e Biroli)

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