Para ser miss

Recentemente, assisti o documentário – Para ser miss – que se encontra na Netflix. O documentário retrata como, historicamente, aconteceu a cultura de exaltação à beleza e a concursos de miss, na Venezuela.

Pelo que foi demonstrado no documentário, faz parte da cultura do país que meninas e mulheres desde cedo se preparem para se tornarem futuras misses universo. Em diversos momentos da narrativa é mostrado como várias mulheres venezuelas venceram o miss universo.

A indústria da beleza junto com o capital sempre estão atrelados: o capitalismo lucrando com a venda em massas de produtos que garantem “dar” beleza para as mulheres e a indústria de beleza reforçando o tempo inteiro que, para mulheres serem belas é preciso fazer vários rituais de belezas e, dentro desses, rituais estão: não se alimentar, fazer mais de 7 horas de academia por dia, inúmeras cirurgias no corpo, passar vastos tipos de maquiagem na pele e por aí vai.

Deixo claro que, não somente na Venezuela acontecem esses preparos (desde cedo) para que crianças venham a se tornar futuras princesas quando adultas. O recorte é feito na Venezuela por que o documentário se passa na Venezuela e nos revela como acontecem em massa concursos de beleza no país.

Umas das partes que mais me deixou furiosa no vídeo é quando uma família estava mostrando suas duas filhas totalmente maquiadas e com coroas na cabeça, detalhe, nenhuma das meninas tinham mais que 10 anos de idade, essa primeira menina da foto não tinha nem 5, mas já falava que queria ser miss quando crescesse.

O pai da menina disse que, o país é exportador de beleza e de misses e que, isso é muito importante para a cultura do país:

E a mãe das meninas fala e reforça na foto abaixo que a filha mais nova de no máx 5 anos de idade sempre gostou de coroas. Eu te pergunto: como uma criança de uns 5 de idade pode ter – sempre – gostado de coroas se isso não fosse ensinado diariamente, pra ela? Uma menina de 5 anos de idade não deveria estar gostando de coroas e nem concorrendo a concursos de beleza. A mãe reforça um discurso bastante comum: mulheres foram feitas para serem princesas, nao importa se uma bebe tenha 1 de idade ou uma mulher tenha 30, nossa funçao é sermos princesas e pronto. É inerente ser princa as mulheres e meninas, por isso, a mãe reforça que a menina sempre gostou de coroas. A mae da menina mesmo, deve ter sido ensinada a vida inteira a ser miss. Mas repito, uma criança de 5 anos de idade, com toda certeza, nunca gostou de coroas, ela foi ensinada a gostar – porque é isso que a cultura misógina e capitalista faz: adultização de crianças, veneração de coroas por meninas, utilização de batons e salto alto por crianças.

Concomitante a isso, uma professora de uma agência de miss estava ensinando umas 20 meninas a desfilar, isso mesmo, e ainda disse que «aqui as crianças continuam sendo crianças». É mesmo? um tanto de meninas maquiadas, algumas usando salto alto e performando os trejeitos de uma miss, continuam sendo crianças? É de uma irresponsabilidade enorme tratar todo essa adultização como se fosse parte de ser criança usar salto alto e batom. Beira e é absurdo uma fala dessas, mas demonstra o que sabemos: mulheres e meninas sempre foram ensinadas a isso e essa professora, só tá repassando o que nós aprendemos desde cedo.

Ao longo da narrativa me dava arrepios de ver o que estava acontecendo – os absurdos que eu tava ouvindo, mas a verdade é: isso é a realidade do mundo. Não só na Venezuela mas no mundo inteiro: meninas sendo socializadas para parecerem mulheres; socializadas para se tornarem misses e princesas.

A adultização de meninas é tanta no documentário, que em uma foto – uma menina de no máximo 5 anos, fiquei em dúvida se era a mesma menina citada anteriormente, aparece completamente maquiada, com uma vestimenta adulta e maquiada também – é de assustar:

Em alguns momentos do documentário aparece uma professora de uma universidade falando para suas alunas o quanto essa cultura de ser miss era destrutiva e ilusória, que o intuito era somente o lucro, e o que acontecia na Venezuela era que, ao invés deles quererem mulheres estudando e se emancipando, o ideal era que elas se tornassem miss, para que fossem alienadas o suficiente para não perceber a alienação. Tem até uma parte que mostra que mulheres socialistas foram para o front lutar no primeiro concurso de beleza na Venezuela. Ou seja, embora tenha toda essa conjuntura de vastos concursos de beleza, existem mulheres que, sempre estiveram lutando para que esta realidade mudasse.

Mostrou também como inúmeras jovens vem morrendo por causa dessas cirurgias estéticas exigidas, para se tornar uma miss: vários médicos despreparados ou pessoas que nem médico são, colocando silicone em mulheres e causando a morte dessas. No documentário fala de uma estudante que morreu em função de cirurgias estéticas.

A narrativa do que acontece na Venezuela é um retrato do que acontece no mundo todo: meninas e mulheres sendo socializadas para serem bonitas e nada mais, para participarem de concursos de belezas em que, para fazer parte desses é preciso perder não sei quantos quilos e fazer não sei quantas plásticas.

É essa cultura da pedofilia que coloca crianças, meninas de 3,4 anos com salto alto, de biquíni e toda maquiada numa passarela. É essa cultura – essas na realidade, que faz com que mães considerem bom ter suas filhas crianças disputando concursos de beleza.

Eu sinto muita raiva vendo tudo isso: fico brava, nervosa. E uso dessa raiva para mostrar pra o mundo que existem mulheres lutando contra toda essa cultura degradante e doentia, lutando contra essa cultura pedófila e misógina.

Precisamos proteger nossas crianças e a nós, mulheres, também.


OBS: todas as imagens mostradas nesse texto estão contidas no documentário “Para ser miss”, atualmente, disponível na plataforma Netflix.

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