Precisamos falar sobre a infeliz circunstância atual do Vaginismo.
Precisamos falar sobre a infeliz circunstância atual do Vaginismo.

A ideia para o presente texto emergiu de uma conversa que tive com uma colega do QG Feminista sobre algo que nós duas temos em comum: Vaginismo.

Vaginismo é, medicinalmente, uma contração muscular vaginal, involuntária, que se perpetua na presença de qualquer tipo de penetração de cunho sexual. Claramente é um assunto superficialmente estudado, visto que muitas de nós, diagnosticadas com vaginismo, temos dificuldade com qualquer tipo de penetração (absorvente interno, coletor menstrual, exames ginecológicos, etc.), não apenas de cunho sexual. Francamente, o próprio conceito de vaginismo, de acordo com diversas áreas, se mostra extremamente falocêntrico ao relacionar uma condição psicossomática (derivada talvez de abusos, assédios, podendo ter uma origem orgânica também) ao contato puramente peniano, sem considerar qualquer outro tipo de situação. Ainda não há uma discussão materializada sobre os efeitos do vaginismo que não em circunstância heterossexual, isso também é silenciamento de mulheres que não se encontram nessa bolha heterossexual e apresentam diagnóstico de vaginismo. Apesar das origens desta condição se efetivarem, muitas vezes, em uma circunstância de sexualidade com violência (abusos sexuais ou assédios), o vaginismo se perpetua em toda e qualquer situação na vida da mulher, isto precisa ficar claro.

Porém, vamos mais à fundo, vamos analisar a probabilidade de cura e o porquê da cura do vaginismo. Para isso, colocarei um trecho da afirmação que instigou todo este debate, colocada pela conta do Instagram psicologiadobuzu:

O medo do masculino dentro das disfunções sexuais relacionadas à dor […], temos algo bastante comum em algumas mulheres: o medo inconsciente do masculino […]. Por mais que conscientemente ela saiba que seu parceiro é um “bom” homem, “a vagina se defende impossibilitando ou dificultando a penetração”. A psicoterapia irá resgatar os papéis feminino e masculino, além das figuras parentais, resignificando o trauma, alinhando com as próprias energias feminina e também masculina. Nenhum remédio ou terapia terá eficácia se o trauma ainda estiver ali reverberando o passado junto do presente. Toda a disfunção sexual também tem origem psicológica.

Há uma imensa ironia patriarcal presente nesta situação analisada: o vaginismo origina-se frequentemente de abusos, de heterossexualidade compulsória; com uma perspectiva extremamente determinista, se supõe os sintomas dessa condição exclusivamente na área sexual — porque realmente não parece ser relevante problemas na genitália feminina quando relacionados à sua saúde, apenas importa a possibilidade de serem penetradas ou não — e, adivinhem, a intenção de curá-lo é justamente para a penetração masculina, para se “reafirmar papéis femininos e masculinos“.

Nós somos estupradas, abusadas e assediadas e o nosso corpo desenvolve um meio de proteção que precisa ser controlado por fatores de saúde orgânica da mulher, como a mera possibilidade de utilizar um coletor menstrual. Entretanto, isso é irrelevante pois o foco não é o falo, o interessante da cura para o patriarcado é a destruição deste meio de proteção para conseguirmos satisfazer homens sexualmente— nós somos estupradas e precisamos ser curadas para que homens consigam nos penetrar devidamente.

Eu simplesmente não quero ser penetrada. Esta frase pode ser emanada por mulheres lésbicas, que foram forçadas à se relacionarem com homens pela heterossexualidade compulsória e que, por isso, desenvolveram vaginismo. Esta frase pode ser emanada por vítimas de estupro, que recusam a tratar-se apenas para permitir um homem de se satisfazer sexualmente com seus corpos. Esta frase pode ser emanada por mulheres sem qualquer histórico de abuso físico, mas que notaram a violência e impaciência dos homens quando tentam e falham em penetrá-las em uma relação sexual, utilizando força física para atingir seu objetivo — podendo se tornar uma relação sexual traumática para a mulher.

O sexo penetrativo, em circunstâncias de vaginismo, é praticamente impossibilitado. E isso fere qualquer perspectiva masculina de procriação ou de sexo hétero em geral. Por isso, se diz em recuperação do papel feminino na cura do vaginismo, realmente, o papel feminino nunca deixou de se relacionar com a maternidade e heterossexualidade compulsórias. Mulher diagnosticada, atente-se, por que você quer curar seu vaginismo? Para a sua saúde, ou por que seu parceiro está reclamando desta situação? Pense bem, será saudável para você tratar o vaginismo apenas para satisfazer sexualmente o seu namorado/marido/ficante?

Termino aqui clamando por uma devida atenção à condição do Vaginismo: primeiramente, parem de focar em penetração masculina, nós não queremos isso, nós queremos saúde. Nós queremos fazer exames ginecológicos com qualidade, nós queremos estar aptas para cuidados fundamentais com os nossos corpos. Nós precisamos de mais estudos sobre o assunto, nós precisamos de um tratamento que não envolva deixar dilatadores falocêntricos persistentemente, e por um longo período de tempo, dentro da vagina — isso é um tratamento cruel, doloroso e destrutivo.

O patriarcado não se importa com a nossa saúde, ela não é válida quando comparada ao papel de mães, parceiras sexuais e cuidadoras domésticas — o patriarcado se importa com a possibilidade de sermos penetradas, independentemente da nossa vontade.

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