Racismo no feminismo e a necessidade de se racializar o discurso e a prática feminista

O primeiro passo para combater o racismo é reconhecer que ele existe; nomeando-o em todos os espaços. O segundo passo é procurar formas para enfrentar cada aspecto do racismo que molda nossa sociedade e nossa existência. E o terceiro é pôr essas formas em prática a fim de vencê-lo.

Tal questão é necessária de ser abordada a fim de cumprir verdadeiramente o objetivo do feminismo. Afinal, se o feminismo visa a libertação de todas as mulheres, então ele precisa discutir as outras opressões que moldam nossa existência. Feminismo que só discute sobre gênero e ignora ou minimiza outras questões tais como raça, classe, sexualidade, entre outros, apenas foca no grupo mais privilegiado das mulheres: as mulheres brancas e endinheiradas (de classe social média ou alta). Feminismo que apenas discute sobre gênero centra a discussão da mulheridade na mulher branca e, consequentemente, exclui categoricamente as questões que atingem mulheres indígenas, negras e asiáticas; excluindo todas as mulheres racializadas e empobrecidas.

Surge dessa marginalização no próprio movimento das mulheres, a necessidade de racializar todo o feminismo. Sem “recorte” racial, mas integrando raça nas análises feministas. Afinal, as pessoas não são apenas mulheres, homens, brancas, negras, indígenas, asiáticas — elas são várias coisas ao mesmo tempo e isso influi na forma que o resto do mundo te percebe e te trata, assim como a forma que você se percebe.

Logo, o presente texto tem como objetivo nomear o racismo dentro do feminismo, observando tanto o discurso teórico quanto as práticas feministas e de indivíduos feministas.

Nomeando o problema: racismo no feminismo

O primeiro passo para o combate ao racismo é reconhecer que ele existe — afinal, não é possível lutar contra algo que você não sabe o que é. E esse reconhecimento do racismo nos discursos e práticas feministas é feito através da nomeação, isto é, do apontamento de comportamentos e lógicas racistas.

É perceptível que há duas formas do racismo florescer: através de ações e de omissões.

Vejamos.

1. Através das omissões: ou seja, ao não discutir raça, o racismo floresce.

A omissão é perceptível na maior parte da teoria feminista quando apresenta a mulheridade branca como uma experiência universal; olvidando-se que mulheres não são um grupo homogêneo e que raça é um grande fator para a construção da identidade das mulheres.

Assim como é um grande fator para como mulheres racializadas experienciam o mundo, isto é, como a sociedade percebe mulheres negras, indígenas e asiáticas, como as trata e como elas mesmos se percebem e se tratam.

A teoria feminista não foi criada em um vácuo descontextualizado, ele foi resultado de seu meio — um espaço em que as divisões entre as mulheres já estavam estabelecidas socialmente, de forma que havia mulheres que detinham um status de opressora sob outras mulheres.

A omissão de boa parte da literatura feminista de incluir raça em sua análise implica que mulheres brancas se veem como pertencentes a uma raça neutra e ao não discutir sobre como raça é fator para ampliar a violência contra mulheres, incluem-se mulheres racializadas em dados e campanhas para a conscientização sobre misoginia, mas as ignora quando é pensado como as políticas públicas devem ser conduzidas.

A dificuldade do feminismo em falar na conjunção raça e sexo implica na dificuldade em pautar questões específicas a mulheres negras, indígenas e asiáticas. Marginaliza-as. E nessa marginalização molda a seletividade de quem é ouvido e de quem é ignorado dentro do movimento — que denúncias são importantes e quais não são; que pautas devem ser priorizadas e quais não devem.

2. Através das ações (e distorções): ou seja, através de comportamentos racistas que são tolerados e, muitas vezes, difundidos.

Feministas são (ou deveriam ser) mulheres minimamente politizadas, mas quando o assunto é raça e racismo — algumas mulheres brancas se recusam a aceitar que detém privilégios e são opressoras.

E como feministas são minimamente politizadas, significa que elas não serão racistas de forma tão explícita como chamar alguma negra de macaca ou mandá-la voltar para a África; significa que o comportamento racista terá um discurso que aparenta ser progressiva.

E é dessa forma que muitas feministas brancas perpetuam o racismo, por que elas sabem que o racismo as beneficiam de diversos modos.

Analisemos.

Qual é a desculpa dita para que não se debata racismo dentro de espaços feministas? “Falar sobre raça divide o movimento”.

O que, todos sabemos, é uma mentira. As diferenças entre mulheres já existiam antes do feminismo ser pensado. Ou seja, as mulheres já estavam divididas socialmente.

A dificuldade de pautar racismo é que falar sobre raça não beneficia o grupo mais privilegiado das mulheres (mulheres brancas); logo não é uma pauta que elas desejam fazer.

A dificuldade de pautar racismo no feminismo está no fato de que algumas mulheres brancas desejam estar em par de igualdade com homens brancos e não focada na libertação completa de todas as mulheres.

Em Feminismo é para todos, bell hooks fala

Todas as mulheres brancas nesta nação sabem que a branquitude é uma categoria privilegiada. O fato de que as mulheres brancas escolherem reprimir ou negar esse conhecimento não significa que elas são ignorantes; significa que estão em negação.

Outro comportamento racista por parte de algumas feministas brancas está nas duas medidas e dois pesos em relação a tolerância zero a misoginia e a alta tolerância a racismo.

Observem que qualquer caso de misoginia de um homem é levado a sério, especialmente quando é acometido a uma mulher branca. Mas casos de racismo de uma mulher branca acometido a uma mulher racializada é diminuído como “apenas raça”, “estamos todos aprendendo a desconstruir racismo”, “ela foi socializada para pensar e fazer isso”.

O mais interessante é que tais justificativas (se é que elas justificam alguma coisa) não seriam aceitáveis se fossem perante situações de misoginia vinda de homens. Ou “é apenas gênero”, “estamos todos aprendendo a descontruir misoginia”, “ele foi socializado para pensar e fazer isso” é algo compreensível para você?

A cumplicidade de feministas brancas perante mulheres racistas é, infelizmente, gigantesca. E o que se tornou bastante comum é a desvirtuação de termos para blindar o comportamento racista delas, enquanto as veem como pobres vítimas.

O termo interseccionalidade que implica em uma análise em que dois ou mais opressões são analisadas juntas se tornou uma forma de feministas brancas se apresentarem como “boazinhas”.

O termo rivalidade feminina que explica a desunião feminina e a contínua competitividade entre mulheres acaba sendo a razão para que feministas racistas sejam blindadas de denúncias de racismo de mulheres negras, indígenas, asiáticas e algumas brancas. Isto é, não estão reclamando sobre um comportamento racista seu; é tudo recalque — resultado da rivalidade feminina a qual todas nós estamos submetidas.

Um tema como padrão de beleza que fala sobre como mulheres são empurradas em um ideal de beleza quase impossível de magreza e branquitude que leva várias mulheres a terem problemas de autoimagem, de autoestima, transtornos alimentares, além da gordofobia a qual algumas mulheres passam por é muitas vezes reduzido a banalidades como “sou bonita ou sou apenas branca?”, desvirtuando o tema por completo ao egocentrismo de algumas feministas brancas.

E talvez o único momento em que haja interesse real em pautar racismo seja: na tentativa em defender sua vertente feminista ou sua militância de ser racista.

A necessidade em racializar o discurso e a prática feminista

Fica evidente que o feminismo tem uma história inegável de comportamentos e teorias racistas sendo perpetuadas e validadas. É inegável que a construção da teoria e da prática feminista foi influenciada pelo racismo que algumas feministas brancas cometiam. De modo que as mulheres negras, indígenas e asiáticas ou não são mencionadas em nenhum momento ou se o são, são reduzidas a estereótipos racistas.

A fim de que seja combatido o racismo dentro do feminismo é necessário racializar o discurso e a prática feminista.

O que significa racializar o feminismo? Pôr raça na análise em mesmo nível de importância que sexo; não como “recorte”, mas junto de.

A ideia de “recorte” racial apenas coloca raça como questão secundária a sexo. E isso é um problema. Porque raça tem tanta ou talvez até mais influência na forma em como nossa sociedade é hierarquizada que sexo. E é urgente reconhecer isso.

Logo, racializar o feminismo é fundamental para que a libertação de todas as mulheres sejam algo atingível.

E como disse Claire do Sister Outrider:

“É tempo de aposentar a ideia de que mulheres brancas não podem ser cúmplices ou se beneficiar de racismo pela razão de que elas experimentam misoginia.”

Carol Correia

uma coleção de traduções e textos sobre feminismo, cultura do estupro e racismo (em maior parte). email: carolcorreia21@yahoo.com.br

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