Reflexões feministas e filosóficas sobre o sistema social e o Covid-19

O Corona vírus que se tornou uma pandemia nos convida, sobretudo, a refletir sobre a lógica do sistema no qual estamos inseridos e o papel das mulheres dentro dele. A quarentena enquanto medida de prevenção contra propagação do vírus expôs a fragilidade do sistema social e econômico que é estruturado e pensado para atender as demandas do capital. A quarentena força boa parte da população mundial a ficar isolada dentro de casa, fazendo com que o mercado seja também forçado a parar. Sem trabalhadores, sem produção, sem consumo, esse esquema nos parece ser bastante óbvio. Mas diante de uma pandemia que ameaça a saúde , principalmente de pessoas mais velhas, precisamos refletir com atenção: Quem são as pessoas que estão na linha de frente de combate às mazelas do corona vírus? Ora, se numa estrutura social dos papéis de gênero, mulheres são socializadas para a realização dos trabalhos reprodutivos e do cuidado dos outros, não resta dúvidas que são as mulheres que enfrentarão na linha de frente através da prática e dos trabalhos com cuidado com o outro, e das mazelas provocadas pelo Covid19. Para muito além das reflexões a respeito das injustiças nas divisões dos trabalhos domésticos, onde mulheres são, desde a infância, responsabilizadas por tais, precisamos refletir sobre o modelo social e econômico que temos e qual é o modelo que almejamos.

No texto onde discuto sobre a economia feminista enquanto um paradigma urgente para a construção de um mundo mais justo, comento que o paradigma econômico dominante visa o crescimento econômico linear, ou seja, a produtividade econômica ganha uma atenção especial na sociedade, onde os trabalhos que geram diretamente um lucro e proporcionam um crescimento econômico são mais valorizados que outros. No entanto, o que é necessário saber é que na hierarquia estabelecida entre os papéis de gêneros, no que diz respeito ao trabalho, homens são direcionados ao trabalho produtivo (indústria, mercado econômico, construção civil…) e mulheres ao trabalho reprodutivo (trabalho doméstico, cuidado do outro, educação infantil…). No entanto, o trabalho reprodutivo direcionados às mulheres ou são explorados sem direito à remuneração ou direitos sociais ou são mal remunerados, como exemplo, as profissionais da educação infantil e da enfermagem.

A presente crise nos leva a perceber que é possível imaginar uma sociedade onde os meios de produção estejam parados por conta de uma pandemia, mas qual seria o futuro da humanidade se o trabalho realizado por mulheres, em grande parte, tão invisível e mal remunerado, parasse?

A crise social provocada pelo Corona Vírus nos conduz aos questionamentos sobre quais são realmente as nossas prioridades enquanto sociedade para a garantia de um bem estar social que atinja a todos? Quais são os trabalhos invisíveis que apesar das injustiças sustentam nossa teia social garantindo que os impactos provocados pela lógica do lucro não sejam mais devastadores do que já são? Quem realiza esses trabalhos possuem acima de tudo, sexo, possuem sexo de mulher. Mulheres que desde a infância são socializadas para o cuidado com o outro, que possuem seu trabalho explorado e seguem invisíveis no curso da história. Não é possível pensar um novo mundo sem levar em conta nossas verdadeiras prioridades e necessidades para a construção de um modelo social mais justo, não é possível construir esse novo mundo sem levar em consideração que mulheres estão sustentando essa teia social e que seguem invisíveis na realização dos seus trabalhos. É o trabalho invisível e desvalorizado das mulheres que sustentará que humanidade diante das crises que nos serão cada vez mais frequente. Mulheres estão na linha de frente, chegou a vez de sermos enxergadas e ouvidas. Valorizem nosso trabalho!


* Na imagem enfermeiras da Cruz Vermelha da Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial — Foto: British Red Cross

Jessica Miranda

Socióloga política falando de coisa séria e analisando de maneira crítica a realidade social.

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