Ser mãe. Ser filha.
Ser mãe. Ser filha.

Eu penso nessas mulheres, que nos criaram, nossas mães. Sua mãe. Minha mãe. Elas nos contaram sobre suas dores? O que há por trás de uma criação muitas vezes frustrante para nós, filhas, e agora também mães, que vamos aos trancos tentando superar?

Eu quero falar de mulher para mulher.

De mãe para mãe.

Sobre a mãe que tivemos para a mãe que nos tornamos. Sobre ser filha no meio disso tudo. Dessa relação tão difícil e delicada. Mãe, filha. Duas mulheres. Criadas para servir num mundo dominado por homens. Ensinadas a competir, mesmo entre si. Mulheres a quem é dado o chicote da criação dos filhos e a missão de perpetuar a socialização masculina para dominação e a socialização feminina para submissão.

Toda mulher é educada para ser o capataz do patriarcado. Para reproduzir a educação machista que lhe foi ensinada. Infligir as mesmas privações e sofrimentos que recebeu sem a menor consciência do que sofreu e do que está fazendo sofrer. Para naturalizar a própria dominação, sendo esvaziada de si.

Mãe. Filha.

Duas cegas tateando num mundo de violência, que subjuga, subestima, humilha, persegue, abusa, sequestra, estupra, mutila, espanca, extermina mulheres. O tempo todo.

Será que somos capazes mesmo de entender o caminho que nossa mãe percorreu até nós? Será que ela foi assediada? Humilhada? Viveu relacionamentos abusivos? Será que ela desejou nos ter? Teve ajuda para nos criar? O que ela teve que suportar para ir em frente?

Será que nossa mãe se sentiu desesperada ao nos ter colo, sem saber o que fazer? Será que teve a quem recorrer? Será que notou o quão grande é o peso da maternidade nas costas? Quanto medo ela sentiu ao ver que éramos meninas? Meninas que poderíamos sofrer coisas que talvez ela tenha sofrido. Por ser mulher.

Será que ela descontou na nossa relação de mãe-filha todas as dores que também sofreu? Será que conseguiram nos amar incondicionalmente? Como? Se ninguém nos ensinou como se ama uma mulher?

O quanto nossas mães nos feriram tentando nos proteger? Das dores do mundo. Das próprias dores.

Será que se arrependem? Lamentam a vida que poderiam ter tido, sem nunca ser capaz de confessar, e se consomem de culpa? Culpa sempre. A culpa que castiga a todas nós, desde o mito do pecado original. Eternas Evas condenadas a sentir todas as dores do parto, expulsas do paraíso.

Em que uma vida de machismo, sofrimento, abandono, abusividade e solidão pode transformar cada mulher? Em que está nos transformando? O que fez com nossas mães? Quanta dor?

A dor de ser mulher em um mundo que odeia mulheres. A dor de ser mãe em um mundo que desampara mães.

O quanto dói a solidão no coração de cada mulher e hoje nossas mães nos olham nos olhos, de mulher para mulher, e ainda vêem a mesma criança que fomos, e sentem a falta daquela menina que não está mais lá. Fazendo companhia. Lado a lado. Em disputa. Lambendo cicatrizes.

Como proceder essa reparação, se nós mesmas, filhas, agora mães, mulheres, acumulamos nossas próprias feridas de guerra? É tanto peso, acumulado de geração, para geração, para geração.

Toda mulher é socializada para ser capataz do patriarcado. E a mãe é a figura primeira que vai iniciar o nosso treinamento social para a subalternidade ou dominância. Porque ela também foi treinada. Ela também aprendeu a servir o patriarca e ela também aprendeu que seu valor enquanto mulher só é dado se ela cumprir bem seu papel de esposa e mãe. E como mãe ela é o todo o tempo vigiada e instruída a doutrinar seus filhos para cumprirem a risca os papeis na hierarquia social que são destinados de acordo com o sexo que nascerem.

São as mães que tem a missão de preparar mulheres para serem mães e esposas. Que vão fiscalizar se você está se tornando “direita”, que vão reprimir qualquer coisa que esteja fora do que manda o manual patriarcal de comportamento feminino. Que vai repudiar qualquer coisa que não seja belo, recatado e do lar. Não há conciliação possível.

A mãe sabe que será punida se permitir que seus filhos repudiem o protocolo. A mãe sabe que será julgada e que a culpa será dela. Essa mulher aprendeu isso e ensinará isso. A misoginia que ela internaliza nos seus é a mesma que aprendeu das suas ancestrais. E romper com essa logica passa pelo entendimento do terrível lugar que a maternidade reserva para toda mulher. E com o rompimento com essa lógica nefasta.

Não existe possibilidade de uma relação de afetividade saudável entre mães e filhos, e principalmente entre mães e filhas, sob um regime de maternidade compulsória.

“Fecha estas pernas, menina”. Nossas mães disseram. Porque o mundo devora mulheres. Porque elas não puderam nos proteger. Não puderam proteger a si mesmas. E seguimos tentando perdoá-las, nos perdoar, nos amar e vencer esse desamparo. Permanecer vivas no meio desse massacre.
“Fecha estas pernas, menina”. Ainda é o que teremos que dizer para nossas filhas.

Será que hoje, nós, mulheres adultas, também mães, feministas, conseguimos separar nossas dores de filhas marcadas por uma criação machista e castradora da nossa solidariedade com a mulher que a vida fez nossas mães tornarem-se?

E nossas filhas? Será que um dia nos perdoarão?

Que mulheres possam quebrar essa roda. Que tenham força, apoio e incentivo de outras mulheres, porque não é fácil. A mãe é vigiada. A mãe é punida. A mãe existe da maneira que é dado na nossa sociedade para cumprir esse papel. A mãe também foi filha. A mãe é uma mulher marcada pela misoginia. A mãe marca. Nós. Mães. Filhas. Mulheres.

A mãe transgressora é revolucionária.

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