Visibilidade lésbica e feminilidade
Visibilidade lésbica e feminilidade

Após o Dia da Visibilidade Lésbica, dia 29 de Agosto, comecei a refletir sobre minha tal visibilidade e sua relação com a feminilidade. Hoje, sou estudante de graduação na Universidade de São Paulo, assumidamente lésbica e com muito mais conhecimento de teorias feministas e marxistas, experiência em militância, etc., do que quando comecei a questionar tais conceitos. Farei deste artigo um exercício para repensar minha vida e espero também fazê-lo de instrumento para outras lésbicas repensarem suas vidas privadas, políticas e sociais.

Para construir este texto e fazer reflexões à cerca da visibilidade da mulher lésbica e da feminilidade, pela primeira vez exporei publicamente memórias do meu passado e acontecimentos marcantes de minha vida. Não será fácil, mas acredito ser importante me colocar na posição de todo ou parte durante a problematização de questões e críticas amplas.

Minha prisão de feminilidade

Ao me assumir lésbica para meus familiares mais próximos, uma das primeiras coisas que ouvi foi “mas você quer ser homem?”. Foi muito difícil, mas para não me estender, a situação de negação inicialmente e depois de repressão foi, ao longo do tempo, diminuindo e chegou (até agora) a um nível suportável. Entretanto, tais questões sobre minha feminilidade e meu suposto desejo de “ser homem” não foram superadas ou esquecidas:

“Já já ela raspa a cabeça, igual homem.”

“Ah, ela sempre foi assim, parece um moleque.”

“Nada a ver usar essa camiseta de homem.”

“Mas esse tênis não é de homem?”

Recordo-me com tristeza de todas essas falas recentes e, voltando um pouco mais em meu passado, de muitas outras que, intencionalmente ou não, confundiram-me e me aborreceram profundamente.

A resignação de meus familiares quanto a minha sexualidade sempre incluiu cláusulas específicas. Ou seja, “tudo bem” eu ser lésbica, mas não posso “me parecer como homem”, “me portar como homem”, entre outros quesitos do estereótipo lésbico. Sendo assim, por muitos anos também me resignei e tentei ao máximo fugir da “masculinização”. Me “comportar como uma mulher”, namorar “mulheres femininas” e reproduzir a famosa frase “nem toda lésbica parece homem”.

O que isso tem a ver com a visibilidade lésbica?

Há quase dois anos morando sozinha, a 400 km de distância da minha família e com certo grau de independência financeira, libertei-me da obrigação de feminilidade que me aprisionava desde a infância: hoje tenho o cabelo bem curto como sempre quis, compro roupas que me agradam sem me importar em qual seção da loja estão, perdi a neurose quanto à depilação, dificilmente pinto as unhas (algo que nunca gostei, mas me sentia obrigada a fazer)…

Com todas essas mudanças em relação ao passado, afirmo sem titubear que sou tão mulher quanto era antes. Entretanto, tais mudanças também aconteceram sobre a percepção de outros em relação a mim como mulher e lésbica. Desde que abdiquei de tentar me encaixar na feminilidade, vi pessoas queridas se afastarem. Vi confundirem meu sexo por conta de minha aparência, vi oportunidades serem extintas e muitas outras coisas. Mas, sem sombra de dúvidas, a pior coisa foi não mais me ver.

É aí que a feminilidade transpareceu para mim sua relação com a visibilidade lésbica principalmente a midiática:

“A visibilidade lésbica propagada na mídia vem carregada de estereótipos comportamentais para lésbicas, tornando-as — principalmente aquelas com maior poder aquisitivo — um não-problema para o sistema, pois de exercedoras de uma sexualidade resistente à dominação masculina são rebaixadas a um nicho de consumo específico.” [1]

O papel de gênero está tão enraizado e, atualmente, sendo reforçado (midiaticamente ou não) tanto pelo conservadorismo quanto o movimento Queer, que rejeitá-lo é se tornar invisível. Ao entrar na universidade, por exemplo, me vi falsamente acolhida por coletivos e pessoas que, numa primeira visão, pensavam que me declarava não-binária (o que, como muitas lésbicas não femininas e sem informação, quase fiz); pessoas que depois de perceberem minha rejeição ao liberalismo dentro do movimento LGBT e ao tratamento da teoria Queer como imaculada, fizeram o mesmo que pessoas conservadoras: me excluíram.

No Dia da Visibilidade Lésbica os movimentos feministas e LGBTs, agora mais do que nunca tomados pelo liberalismo, essas pessoas que inicialmente me acolheram reproduziram o mesmo que a mídia tendenciosa e aliada ao capital fez: sexualizaram representação de mulheres e apagaram a especificidade da data; romantizaram a luta lésbica, normatizaram a mulher lésbica…

Visibilidade lésbica e feminilidade

Em todo lugar podemos observar propagação de estereótipos e a velha história de “nem toda lésbica ser masculina” como se masculinidade fosse automaticamente a única coisa possível após a rejeição da feminilidade.Vemos pessoas reforçando estereótipos sem a consciência da nocividade para as mulheres e principalmente mulheres lésbicas, que têm sua identidade duplamente apagada. Segundo estes pensamentos e discursos absurdos, a mulher que rejeita feminilidade não é mulher; consequentemente, lésbica masculinizada não é lésbica e sim uma tentativa frustrada de ser um macho heterossexual. Isso sem contar o transativismo e seu desfavor em aplaudir e incentivar “butches” a transicionar (não entrarei nessa questão).

Por uma lesbianidade visível!

Há semelhanças e divergências nos feminismos tanto quanto nos lésbicos (lesbianismo radical, lesbianismo separatista, etc.). Hoje é inegável objetivo comum do lesbianismo como movimento e forma de vida e suas conquistas quanto a lugares de sociabilidade específicos, espaços conquistados na universidade, na arte, na literatura e, principalmente, na luta política no alcance de visibilidade e de respeito à identidade. Entretanto, aponta Jules Falquet que

Essa tendência ‘comunitária’ foi, porém, criticada; às vezes por seu caráter encerrador, às vezes como a expressão de um modelo gay por demais influenciado pelo movimento homossexual masculino; e outras vezes ainda como uma política reformista de institucionalização que leva à recuperação do movimento e à sua neutralização ou normalização. (3)

Por isso, acredito que a busca por uma lesbianidade visível precisa estar atenta ao reformismo. A feminilidade é ainda um instrumento de dominação poderoso do capital na busca pela normalização do movimento lésbico e do feminismo. Como marxista-leninista, defendo que a mulher lésbica seja engajada tanto na destruição do gênero e do patriarcado quanto no capitalismo que os alimenta; isso, a meu ver, exclui a busca frenética liberal por “representatividade” em novelas da Globo, empoderamento pelo consumismo e busca de legalidade numa democracia falaciosa e um Estado conivente com a exploração de um sistema político, econômico e ideológico cruel.

Façamos conscientização política sobre a mulher, a lesbianidade e o trabalho nas periferias, no Dia da Visibilidade Lésbica. Procuremos ouvir as necessidades das mulheres lésbicas quanto ao sistema público de saúde, a maternidade, a violência, o trabalho, a educação; ouvir, refletir e agir, mas não agir para a legalização de sua exploração “mais humanizada” através de um Estado doente. Resistir já não é suficiente e ser inclusa só satisfaz lésbicas pequeno-burguesas. Lutar contra o Estado é lutar contra o patriarcado, lutar contra a feminilidade e o gênero é lutar contra a invisibilidade lésbica e, tudo isso, é lutar pela mulher. Por isso, sigamos na luta.

Menos:


Referências:

[1] https://manaschicas.wordpress.com/category/mes-da-visibilidade-lesbica/

(3) Breve resenha de algumas teorias lésbicas, Jules Falquet: https://drive.google.com/drive/folders/0B5E2EJH7Qw1iOHNYZGtQQlhUYmM

Dia Nacional da Visibilidade Lésbica comemorado em Juíz de Fora: http://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/mgtv-1edicao/videos/v/dia-nacional-da-visibilidade-lesbica-e-comemorado-em-juiz-de-fora/6111587/



Post de convidada: por I.M., estudante de pedagogia

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