Ecofeminismo: a perspectiva de gênero na consciência ecológica
lmagem: Hariná de Moura Marques | @sementesselvagens

Ecofeminismo, é claro, vem da junção de ecologismo e feminismo. A partir da ponte entre essas duas formas de pensar o mundo, cria-se a ideia de que a dominação das mulheres e a dominação da natureza têm uma origem comum, que é exploratória e de base patriarcal.

A história do ecofeminismo remonta às décadas de 1960 e 1970, quando feminismo e ecologia estavam bastante em evidência, com muita construção teórica e prática acerca desses dois assuntos. A luta das mulheres de então dedicava-se em grande parte, especialmente nos EUA e na Europa, dentro da chamada segunda onda feminista, ao direito reprodutivo das mulheres. Em 1974, o termo “ecofeminismo” aparece no texto “Le Féminisme ou la Mort” (“O Feminismo ou a Morte”, em tradução livre), de Françoise D’Eaubonne, que coloca tanto o controle de natalidade quanto a explosão demográfica na conta do patriarcado, apresentando uma “estreita relação entre superpopulação, devastação da natureza e dominação masculina” (PULEO, 2000).

Alguns anos depois, em 1978, Mary Daly retoma o ecofeminismo centrando-o na questão da saúde das mulheres. Assim, não apenas recuperar o controle do próprio corpo seria uma prática ecológica e feminista, mas também preservá-lo da contaminação dos venenos da produção agrícola e industrial, propondo uma nova forma de produção e consumo. Contudo, seu livro “Gyn/Ecology” (“Gin [mulheres, em grego] / Ecologia”, em tradução livre) explica o domínio patriarcal da natureza em bases essencialistas, dizendo que a própria natureza masculina, que não é capaz de dar luz, é responsável por criar essa tecnologia de produção que é poluente. Assim, as mulheres, por serem criadoras de vida, seriam naturalmente mais ligadas à preservação ambiental.

Essa visão não escapou de críticas, visto que muitas feministas de segunda onda estavam ativamente empenhadas em demonstrar que não havia, na natureza de homens e mulheres, diferenças entre suas capacidades mentais: se havia alguma diferença entre os sexos na forma de racionar, essa diferença era de ordem cultural.

No patriarcado, há um esforço de tentar relacionar homens com cultura e mulheres com natureza. Homens e cultura seriam as forças criativas da sociedade, mulheres e natureza, as forças a serem controladas e domesticadas. Uma das bases dessa ideia é o livro “Is female to male as nature is to culture?” (A mulher está para homem assim como a natureza está para a cultura?, em tradução livre), de Sherry Ortner, publicado pela primeira vez em 1972, em que a autora coloca a ideia de que as mulheres estão subordinadas aos homens nas sociedades patriarcais, da mesma forma que a cultura subordina a natureza, transformando-a de modo simbólico e por meio da tecnologia. Assim, haveria uma ideia na sociedade de que a natureza é inferior à cultura, do mesmo modo que mulheres seriam inferiores aos homens.

Nas décadas de 1980 e 1990, várias teóricas vão acatar o ponto de partida do ecofeminismo de que existe relação entre patriarcado e dominação da natureza, mas vão criticar o essencialismo das chamadas ecofeministas clássicas, incorporando ideias do marxismo (como Ynestra King, que pretende analisar a relação que homens e mulheres têm com a natureza a partir de uma visão materialista) e do anarquismo (como Barbara Holland Cruz, que traz a noção de ajuda mútua, descentralização e democracia direta), por exemplo. O próprio dualismo encontrado no par cultura/natureza é criticado, por teóricas como Val Plumwood, como visão binarista patriarcal, que faz parte de uma lógica de domínio, que coloca o mundo em perigo.

Com as teóricas dos países do sul global, temos a junção dessas ideias também com a reflexão sobre o colonialismo: a dominação da natureza e das mulheres está ligada à dominação colonial. Vandana Shiva escreve que as ações desenvolvimentistas do primeiro mundo exploram os povos e os recursos dos outros países e têm base no mesmo pensamento que exclui as mulheres da produção. Assim, a monocultura e o latifúndio expulsam mulheres do campo e dos seus conhecimentos acerca da produção de alimentos.

Mulheres e homens desempenham papéis diferentes na sociedade patriarcal. O trabalho de cuidados é delegado às mulheres, o que inclui a alimentação da família, o trabalho doméstico, cuidar de crianças, idosos e doentes da casa, entre outros. Por isso, quando há destruição ambiental, as mulheres acabam sofrendo mais as consequências dela.

Nos movimentos de mulheres camponesas dos países do sul global e movimentos de mulheres indígenas, o ecofeminismo aparece como noção a guiar as ações ambientalistas, de grupos desenvolvidos por essas mulheres, que abordam, em linhas gerais, autonomia das mulheres, agroecologia, decisões comunitárias igualitárias e preservação da água e do ar.

Na década de 1970, alguns movimentos de base feminista e ecológica vão aparecer nesses países, como o movimento Chipko, de mulheres indianas. Contudo, as feministas comunitárias da América do Sul apontam que a luta contra o patriarcado, o colonialismo e a devastação ambiental já existia nos seus modos de pensar e agir sobre o mundo, de forma que não pretendemos aqui traçar uma origem exata das práticas ecofeministas. O fato é que a partir de práticas ecológicas, mulheres conseguem espaços nos movimentos sociais de base camponesa.

“Não é por terem nascido mulheres, no sentido essencialista do termo, que elas têm a contribuir na discussão de propostas. É porque se tornaram mulheres — e estão inseridas socialmente em atividades específicas, porque têm pontos de vista historicamente e socialmente construídos, que podem oferecer visões sobre o desenvolvimento social que o pensamento e a prática masculinas não são capazes de abarcar” (SILIPRANDI, 2000).

O ecofeminismo é ainda uma escola de pensamento em desenvolvimento, nascida dentro do movimento radical e da segunda onda feminista, mas que se espalhou de diversas formas pelo mundo, sendo que há defensoras dele em diversas outras correntes de pensamento, como no anarquismo, no socialismo, no liberalismo, fundamentado em religiões e, claro, no feminismo radical.

Bibliografia:
PULEO, Alicia. Luces y sombras del ecofeminismo. Asparkía. Investigació Feminista, n° 11. 2000.
SILIPRANDI, Emma. Ecofeminismo: contribuições e limites para a abordagem de políticas ambientais. In: Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável. Porto Alegre, jan./mar. 2000.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui