Existem mais de dois sexos humanos?
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Em 2019, o canal de educação científica no YouTube, SciShow, lançou um vídeo chamado ‘Existem mais de dois sexos humanos’. O anfitrião Hank Green diz na introdução que:

“Na biologia do ensino médio, aprendemos que os humanos nascem com cromossomos XX ou XY e que os órgãos sexuais internos e externos de uma pessoa correspondem a esses cromossomos. Acontece, no entanto, que o sexo não é tão simples. “

Neste vídeo, Green descreve várias condições médicas congênitas do sistema reprodutor para provar que existe um espectro do sexo. Essas condições raras (conhecidas como Diferenças no Desenvolvimento Sexual, abreviadamente DSDs e classicamente conhecidas como intersex) produzem variações cromossômicas, hormonais e genitais atípicas.

Mas, essas condições médicas congênitas formam novos sexos, criando um espectro sexual, como afirma o SciShow? Ou essas condições são simplesmente variações dentro dos homens e das mulheres, revelando a diversidade do binário sexual?
Para responder a essa pergunta, temos que definir o que é sexo.

SciShow define sexo como:

“cromossomos, hormônios, gônadas e órgãos genitais”

Essa definição de sexo implica que qualquer combinação atípica dentro dessas quatro categorias fornece evidências para um espectro do sexo biológico. O problema, porém, é que mesmo nos casos em que essas categorias não se alinham, os mecanismos genéticos e hormonais ainda produzem um macho ou uma fêmea. Por quê?

Porque os indivíduos com DSDs ainda desenvolvem sistemas reprodutivos organizados em torno de espermatozoides ou óvulos.
E aqui descobrimos um componente crucial para a definição de sexo que Green nunca menciona: gametas.

Um macho é o sexo que desenvolve um sistema reprodutivo organizado em torno de pequenos gametas, e uma fêmea é o sexo que desenvolve um sistema reprodutivo organizado em torno de grandes gametas. Como observam dois biólogos evolucionistas, os traços relacionados ao sexo variam, mas a distinção final entre os sexos é encontrada nos gametas:

“Em muitas espécies, existe um conjunto completo de traços sexuais secundários, mas a definição fundamental do sexo está enraizada nessa diferença nos gametas, e a questão da origem dos dois sexos é então igual à questão de por que os gametas vêm em dois tamanhos diferentes.”

Qualquer definição de sexo que não inclua a razão pela qual nós temos um sexo em primeiro lugar (ou seja, que apoie a existência de espermatozoides ou óvulos) está errando o alvo. Ao ignorar a definição de sexo, Green pode alegar que variações nos cromossomos, produção de hormônios e morfologia genital formam novos sexos.

O problema com a afirmação de Green sobre um espectro sexual é que os DSDs não formam novos sexos, mas, em vez disso, mostram a variação entre machos e fêmeas. Para criar um novo sexo, uma nova função reprodutiva teria que ser evidente, o que exigiria a existência de um terceiro tipo de gameta. No entanto, os indivíduos com DDS ainda desenvolvem um sistema organizado em torno de espermatozoides ou óvulos, não algo novo.

Vamos revisar várias das condições médicas congênitas que Green discute.
Por exemplo, indivíduos com cromossomos XXY e XYY são machos (pois desenvolvem um sistema organizado em torno do esperma) e indivíduos com cromossomos X ou XXX são fêmeas (pois desenvolvem um sistema organizado em torno de óvulos).

Compreender DSDs mais complexos revela os mecanismos subjacentes que produzem o binário sexual.

Condições como a Síndrome de Insensibilidade Androgênica Completa (SIAC) nos mostram a independência do gene SRY e dos receptores de andrógenos. Apesar da ativação do SRY, o feto XY com SIAC desenvolve um fenótipo feminino devido a uma insensibilidade aos andrógenos. A síndrome de Swyer nos mostra que quando o gene SRY não é ativado em um feto XY, as estruturas reprodutivas femininas se desenvolvem, levando a um fenótipo feminino. A síndrome masculina XX nos mostra o que acontece quando o gene SRY se transloca para um cromossomo X, causando o desenvolvimento masculino em um feto XX. E os indivíduos com mosaicismo genético, que possuem uma mistura de células XY e XX, se desenvolvem como machos ou fêmeas, não os dois e nem entre os dois.

Agora imagine ter uma diferença no desenvolvimento sexual, como hiperplasia adrenal congênita (que pode causar desenvolvimento genital atípico em meninas), e descobrir que sua condição está sendo usada para argumentar que você não é mulher. Ou imagine ter Síndrome do Ducto de Mullerian Persistente, PMDS (que faz com que partes da estrutura de Muller, como um útero parcial, permaneçam em meninos), e alguém afirme que você não é homem.

As meninas com hiperplasia adrenal congênita são do sexo feminino, pois se desenvolveram para a produção de óvulos, e os meninos com PMDS são do sexo masculino, pois se desenvolveram para a produção de espermatozoides.

Como você pode ver, cada DDS se desenvolve em direção a um ou outro sistema reprodutivo, e o indivíduo é macho ou fêmea, não algo intermediário, nem um terceiro sexo.

Se Green definisse o sexo biológico como as duas anatomias reprodutivas evoluídas organizadas em torno de dois gametas, ele não poderia argumentar que existem mais de dois sexos.

Então, se você ver o vídeo do SciShow sendo apresentado, entenda que:

  1. Eles não usam a definição fundamental de sexo.
  2. Eles apresentam pesquisas de décadas sobre DSDs, não novas descobertas científicas.
  3. Eles tratam pessoas com condições médicas complexas como os “outros”, como se não fossem nem homens e nem mulheres.

Hank Green está correto ao dizer que o desenvolvimento do sexo é mais complexo do que o que a maioria de nós aprendeu no colégio, mas isso não significa que haja mais de dois sexos humanos. Existem apenas dois gametas e, portanto, apenas dois sexos. As complexidades da diferenciação e do desenvolvimento do sexo nos mostram a incrível variação da anatomia e da fisiologia nos homens e nas mulheres. Não precisamos negar a ciência para aceitar essa diversidade.


Tradução da transcrição do vídeo do Paradox Institute


Fontes:

[1] Green, H. (2019). There Are More Than Two Human Sexes. SciShow, YouTube.
[2] National Health Service. (2019). Differences in sex development. NHS.
[3] Lehtonen, J., Parker, G. (2014). Gamete competition, gamete limitation, and the evolution of two sexes. Molecular Human Reproduction, 20(12).
[4] Czaran, T., Hoekstra. R. (2004). Evolution of sexual asymmetry. BMC Evolutionary Biology, 4(34).
[5] Kimball, J. (2020). Sex chromosomes. LibreText.org.
[6] Gilbert, SF. (2000). Chromosomal sex determination in mammals. Developmental Biology, 6th edition. Sunderland (MA), Sinauer Associates.
[7] Kashimada, K., Koopman, P. (2010). Sry, the master switch in mammalian sex determination. Development, 137.
[8] NIH. (2020). Androgen insensitivity syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.
[9] NIH. (2020). Swyer syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.
[10] Anik, A., et al. (2013). 46,XX Male DSD: A Case Report. Journal of Clinical Research in Pediatric Endocrinology, 5(4).
[11] Dumic, M., et al. (2008). Report of Fertility in a Woman with a Predominantly 46,XY Karyotype in a Family with Multiple Disorders of Sexual Development. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 93(1), 182–189.
[12] NIH. (2020). 21-hydroxylase deficiency. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.
[13] NIH. (2020). Persistent Mullerian Duct Syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.
[14] Wilson, G. (2013). Third sex redux. Intersex Human Rights Australia.
[15] Cox, P., Togashi, T. (2011). The Evolution of Anisogamy, A Fundamental Phenomenon Underlying Sexual Selection.
[16] Schmitt, D. (2017). Sex and Gender are Dials (Not Switches), Psychology Today.

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