Intersexuais são um terceiro sexo?

Aqueles que afirmam que o sexo biológico não é binário, mas sim um espectro de possibilidades, geralmente usam o intersexo para argumentar.

“A ideia de que o corpo é masculino ou feminino está totalmente errada, sabemos que as pessoas intersexuais existem e quebram esse binário.” — Escritor da Teen Vogue.

Como alguém que fez uma extensa pesquisa sobre sexo e gênero, vejo isso quase todos os dias: Às vezes estou discutindo sobre dismorfismo sexual e a pessoa pergunta toda confiante: “Você já ouviu falar em pessoas intersexuais?”. Obviamente, a resposta é: “Sim, já”. É nessa hora que começam a chover os casos de estudos enquanto me dizem:

“Pessoas intersexuais não são machos ou fêmeas.”

Bom, enquanto a maioria dos homens e mulheres desenvolveram estruturas sexuais normais, às vezes, algumas variações nesse processo acontecem. Chamamos essas variações de intersexualidade. Indivíduos intersexo tem raras diferenças no desenvolvimento sexual que causam variações cromossômicas, hormonais ou genitais. Para muitos, essas variações significam que não podemos confiar no binário macho/fêmea. Que existiriam mais de dois sexos e que o sexo seria um “espectro”. Mas… Isso é mesmo verdade? As pessoas intersexo estão mesmo “no meio”?

A resposta depende de como você define sexo biológico. Antes de responder precisamos separar a categoria Sexo Biológico de Variações nas Características Sexuais e Identidades Pessoais.

Primeiro vamos separar Sexo Biológico de Variações nas Características Sexuais. Variações são comuns entre homens e mulheres (por exemplo, tamanhos diferentes de órgãos sexuais e diferentes características sexuais secundárias são comuns entre homens e mulheres). Mas essas variações não significam que alguém com características sexuais comuns é menos homem ou menos mulher. Isso significa apenas que as características sexuais variam em forma, tamanho e morfologia. Por exemplo, uma mulher sem seios pode ficar na menor linha de distribuição de características sexuais, mas isso não a torna “menos mulher” ou “mais homem”; ela ainda reside na categoria, ela ainda é fêmea. Dizer o contrário, além de muito ofensivo, seria completamente errado. Portanto, variações nas características sexuais não são sinônimo de sexo biológico.

Agora vamos separar o Sexo Biológico da Identidade Pessoal (como você se vê e se expressa). Variações de identidades e expressões são comuns; na verdade, identidades e expressões são tão variadas que são os traços mais diversos que temos como seres humanos (assim como tipos de personalidade).

Indivíduos intersexo podem se identificar como quiserem e podem se expressar num espectro de maneiras, e nós devemos encorajar a todos a viver a melhor vida possível. Ainda assim, essa diversidade colorida de identidades e expressões não significa sexo biológico.

Então, se nem as variações nas características sexuais e nem a identidade pessoal definem a categoria sexual, como podemos definir? A resposta é simples: a categoria do sexo biológico é definida pelo desenvolvimento pelo qual você passa para produzir espermatozoides ou óvulos, os dois únicos tipos de gametas. A produção de gametas é definida pela quantidade de tecido gonadal dominante que você tem (testículos ou ovários) e as respectivas estruturas reprodutivas (wolfianas ou müllerianas). As diferenciações e o desenvolvimento de ambas as gônadas e estruturas reprodutivas são determinadas pela ação de dois mecanismos. Primeiro, o funcionamento do gene SRY, e segundo, o funcionamento dos receptores de androgênio. Apesar de existirem múltiplos processos e desenvolvimentos das diferenças sexuais, existem apenas dois resultados finais: macho ou fêmea. Se você tem o gene SRY e, tem os receptores de androgênio funcionais, você quase sempre vai se desenvolver como um homem. Mas se você não possui esses dois mecanismos trabalhando juntos, pela ausência do gene SRY ou de receptores de androgênio, você quase sempre vai se desenvolver como mulher. Portanto, o sexo biológico é determinado por uma sequência coordenada de mecanismos mutualmente excludentes que ativam os primeiros passos do desenvolvimento sexual e bloqueiam o desenvolvimento do caminho do sexo oposto. Ou seja, o sexo é binário. Definido pelos dois gametas, espermatozoides ou óvulos. Não existe uma terceira opção. Para compreender isso, vamos observar como esse processo acontece no útero.

No início do desenvolvimento, todos nós temos duas estruturas reprodutivas internas que vão se desenvolver de maneira diferente dependendo do gene SRY e dos androgênios. Por volta da oitava semana de gestação, a presença ou ausência do gene SRY diferencia as potenciais gônadas de se tornarem tecido masculino ou feminino. Se o gene SRY estiver presente, as potenciais gônadas vão formar testículos. Quando os testículos se desenvolvem, eles liberam hormônios que desenvolvem as estruturas reprodutivas internas do corpo masculino (wolfinias). Quando as estruturas masculinas se desenvolvem e os testículos liberam hormônios, as estruturas femininas (müllerianas) se desintegram. Por outro lado, se o gene SRY está ausente, as potenciais gônadas se transformam em ovários. Quando os ovários se desenvolvem, o hormônio anti-mulleriano não está presente para bloquear o desenvolvimento feminino. Então, com o avanço do desenvolvimento da estrutura mülleriana, a estrutura masculina (wolfiana) se desintegra. Portanto, o gene SRY é o botão liga/desliga que determina a diferença entre as gônadas, definindo, portanto, seu sexo biológico.

Mas e os intersexuais? Aqui as coisas ficam mais complicadas, mas o resultado final, seja homem ou mulher, permanece o mesmo. Intersexo é um tema guarda-chuva que representa mais de 40 condições médicas. Cada uma com um tipo diferente de desenvolvimento. Vamos falar dessas complexidades mais tarde, mas por enquanto o que você precisa saber é que a maioria dos indivíduos classificados como intersexo tem diferenciação gonadal comum, sejam testículos ou ovários e têm estruturas wolfianas e müllerianas comuns. Portanto, eles também são machos ou fêmeas. Mas se pessoas intersexo são homens ou mulheres assim como todo mundo, porque são considerados “entre uma coisa e outra”, “ambíguos” ou o “terceiro sexo”? A resposta é a falta de conhecimento sobre os intersexo.

Por exemplo, mulheres intersexo têm diferenças gonadais comuns, mas com diferenças no desenvolvimento de suas genitálias, como lábios grudados e clitóris aumentados: uma condição conhecida como hiperplastia adrenal congênita. Elas continuam sendo fêmeas porque possuem ovários, estruturas müllerianas e não possuem o gene SRY. Vamos considerar outro caso: quando as diferenças gonadais e de desenvolvimento são atípicas. Mulheres intersexo que possuem o gene SRY, mas não têm receptores de androgênio funcionais, têm morfologia feminina. Essa condição é conhecida como síndrome da insensibilidade androgênica completa. Mesmo que essas pessoas possuam o gene SRY, elas não têm os receptores funcionais de androgênio. Portanto um desenvolvimento masculino não acontece. Então, essas pessoas são mulheres.

Por outro lado, homens intersexo que têm diferenças gonadais comuns, mas diferenças em seu desenvolvimento reprodutivo, podem, às vezes, desenvolver seios e ter testículos pequenos (uma condição conhecida como Síndrome de Klinefelter). O que resulta em cromossomos XXY. Mas eles continuam sendo homens, pois possuem testículos, estruturas wolfianas, o gene SRY e receptores de androgênio funcionais. Para condições intersexo mais complexas, uma análise específica de seu desenvolvimento é necessária. Mesmo nessas condições mais complexas, o sexo desses indivíduos ainda pode ser determinado pela combinação de marcadores genéticos, hormonais e morfológicos. Ou seja, o verdadeiro sexo das pessoas intersexo não é determinado por critérios subjetivos da sociedade ou por um sentimento interno. O sexo é determinado pela presença ou ausência do gene SRY e de receptores funcionais de androgênio.

Dizer que pessoas intersexo não são homens ou mulheres, na verdade, os exclui. Isso os reduz apenas à aparência dos seus genitais. Imagine dizer para uma menina intersexo que ela não é uma mulher porque ela tem um clitóris grande? Ou dizer para um menino intersexo que ele não é um homem por ter testículos pequenos? Esses comentários não seriam apenas errados, mas também cruéis. Essas ofensas acontecem todos os dias e indivíduos intersexo podem atestar isso. Continuando, dizer que pessoas intersexo são “algo entre duas coisas” confunde seus problemas sérios de desenvolvimento com suas identidades e expressões. Essas coisas não estão relacionadas. Médicos do passado frequentemente mutilavam crianças intersexo, exatamente porque viam essas crianças como “algo entre duas coisas” e assim acabavam os definindo com o sexo errado.

“Cirurgias desnecessárias em bebês com diferenças no desenvolvimento sexual não aconteciam porque os médicos não sabiam o sexo do bebê. Aconteciam porque eles acreditavam que a sociedade nunca aceitaria seus corpos serem diferentes do sexo que eles são.” — Claire, mulher intersexo.

Hoje em dia, a biologia genética molecular nos mostra a verdade: crianças intersexo são macho ou fêmea. Não são “os dois” e nem “nenhum dos dois”.

Indivíduos intersexo com diferenças reais em seu desenvolvimento sexual são prejudicados, e não ajudados, quando confundimos suas realidades com identidades ou expressões. Por exemplo, algumas condições intersexo podem ser fatais se não forem tratadas por profissionais de saúde. Como, por exemplo, a variação “salt-wasting” da hiperplasia adrenal congênita, que aflige somente as mulheres. Isso não significa que crianças intersexo precisam de cirurgias genitais desnecessárias. Isso significa que suas condições não devem ser confundidas com suas identidades pessoais. Ou como nas palavras de Ray, outra mulher intersexo:

“A desinformação de que não somos nem homens nem mulheres é o que sustenta a cultura da mutilação genital dos intersexo. Isso acontece porque não somos vistos como normais, quando na verdade somos simplesmente variações esperadas dentro de um sistema dismórfico de desenvolvimento sexual.”

Pessoas intersexo são homens ou mulheres, assim como todo mundo. E eles estão cansados de serem usados como peões para defender o tal “sexo como espectro”. Sexo não é um espectro. É um binário. É um sistema dismórfico de desenvolvimento definido por genes, aquele que primeiramente nos permite reproduzir. Variações nas características sexuais são diversas e multidimensionais. Identidades e expressões são diversas e multidimensionais. Mas a categoria “sexo biológico” sempre foi e sempre será binária.

Então, sabendo que o sexo é determinado pela presença ou ausência do gene SRY e receptores funcionais de androgênio, vou deixar algo para vocês pensarem:

Pessoas intersexo possuem uma terceira estrutura reprodutiva?
Elas possuem um terceiro gameta?
Pessoas intersexo são um “terceiro sexo”?
Não são homens ou mulheres?


Tradução feita pelo Canal No Corpo Certo da transcrição do vídeo do Paradox Institute


Fontes:
[1] Witchel, S. (2017). Disorders of sex development. Best Practice and Research in Clinical Obstetrics and Gynaecology, 48, 90–102.
[2] Gamble, T., Zarkower, D. (2012). Sex determination. Current Biology, 22(8).
[3] Sekido, R., Lovell-Badge, R. (2009). Sex determination and SRY: Down to a wink and a nudge? Trends in Genetics, 25(1), 19–29.
[4] Dewing, P., Shi, T., et al. (2003). Sexually dimorphic gene expression in mouse brain precedes gonadal differentiation. Molecular Brain Research, 118, 82.
[5] Williams, T., Carroll, S. (2009). Genetic and molecular insights into the development and evolution of sexual dimorphism.
[6] Matson, C., et al. (2011). DMRT1 prevents female reprogramming in the postnatal mammalian testis. Nature, 476, 101–107.
[7] Yang, C., Shah, N. (2014). Representing Sex in the Brain, One Module at a Time. Neuron, 82, 263.

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