Chamamos de “indústria do sexo” todo o complexo mercadológico que lucra com a venda de sexo enquanto um entretenimento ou necessidade. A camada mais perceptível desse conglomerado é a pornografia e a prostituição, mas há toda uma rede envolvida que vai desde a venda de produtos sexuais, eróticos e sensuais, passando por produtos culturais (filmes, livros, músicas), alimentícios (afrodisíacos), vestuário, cosmético e farmacêutica. O sexo é um comércio e nessa cadeia produtiva, mulheres são o objeto utilizado para obtenção do prazer. São o produto mais rentável.

Certa vez, estava conversando com um camarada anarquista sobre a indústria do sexo e ele, que também tem um posicionamento abolicionista, me disse algo como “realmente, é uma indústria muito grande, não sei como não têm mais influência”. Aquela frase foi um balde de água fria. Repentinamente percebi que mesmo os camaradas que eram críticos ao sistema prostituinte, e que eu julgava terem entendido a problemática (a “figura maior”), não tinham uma noção clara do que a indústria do sexo representava na sociedade.

Quando falamos de indústria do sexo e influência social-política-econômica, o que significa reconhecer a existência do sistema Capitalista, um modelo político-econômico-social baseado na exploração de quem produz para que aqueles que não produzem acumulem capital? O que significa reconhecer a Globalização, que provoca as crises humanitárias de refugiados e as guerras, como um produto neoliberal para avanço do projeto desenvolvimentista capitalista? E o que significa entender este panorama e, ainda assim, não entender que uma indústria multibilionária como a do sexo obviamente desempenha um papel-chave no sistema político e na manutenção desta ordem?

No momento, não consegui responder tudo que se passou pela minha cabeça. Não numa conversa tão informal.

Oscar Maroni deu uma festa para comemorar a prisão de Lula antes das eleições. Acima do palco onde o proxeneta exibe uma mulher nua de maneira agressiva, vê-se o quadro do Juiz Sérgio Moro.

Mas lembrei de Oscar Maroni, no Brasil, proxeneta milionário, que candidatou-se a deputado (e mirando a presidência) com apoio de magnatas. Lembrei que durante a Ditadura Militar brasileira foi criada uma propaganda oficial e material oficial apelando ao turismo sexual e vendendo a mulher aos gringos. Lembrei das cadeias de bordeis de luxo na Holanda e do percentual que a indústria do sexo representa no PIB da Nova Zelândia, um país que pouco exporta para o mercado internacional, porque em ambos esses Estados, a prostituição movimenta o turismo e a economia dos lugares.

Como uma indústria multibilionária que é extremamente massificada nos meios de comunicação e não só nos sites de pornografia, que gera acumulação de capital em cima de uma estrutura que cria hierarquias dentro da classe trabalhadora (de homens sobre mulheres e crianças), que movimenta um tráfico sexual globalizado (que só é possível com a globalização, as guerras e a colonização promovida em países considerados subdesenvolvidos para alimentar os “desenvolvidos”, que pouco produzem e muito consomem), não teria influência polítca nesse sistema?

A pornografia e a prostituição não são só os atos que acontecem nas beiras de estradas brasileiras ou em bordeis de luxo alemãos. A pornografia e a prostituição estão extremamente entranhados na produção audiovisual — cinema, TV, nos jornais e nas revistas que toda a classe trabalhadora consome. Movimenta o turismo, do mais sórdido que há, o mercado de hotelaria e imobiliário, de bebidas e drogas.

Mega Bordel “Pascha”, na Alemanha, tem 9000 m2 e 12 andares.

Ela subjaz nosso sistema político e econômico, e atacar um gigante desse tamanho seria como atacar o cartel de narcotráfico — a gente sabe o que isso movimenta em termos de segurança privada, indústria bélica, sistema prisional, mercado privado de modo generalizado, etc.

Pornografia e prostituição sublinham a desigualdade salarial entre os sexos, sublinham os níveis de pobreza e a linha de fundo da hierarquia na classe trabalhadora. Pornografia e prostituição reorganizam aquilo do que o Capital DEPENDE, que ele ALIMENTA e que não tem condições de RESOLVER: a falta de emprego para todos, algo que cria um contingente de pessoas “improdutivas” que nem têm meios de produção nem têm como vender sua força de trabalho para sobreviver.

Pornografia e prostituição legitimam a mercantilização da vida, algo central, vital, crucial para o sistema capitalista.

Foto AVN — Adult Entertainment Expo. Feira internacional que acontece anualmente e reune pornógrafos e outros exploradores da indústria pornográfica (como fabricantes de bonecas sexuais em temanho real). Em 2007, teve mais de 30000 participantes e mais de 355 empresas envolvidas.

Não é “só” sobre ser uma indústria multibilionária. É sobre o que ser uma indústria multibilionária que controla meios de comunicação e movimenta o mercado financeiro representa neste sistema político. É sobre ser uma bomba que mina por dentro a classe, a relação entre as pessoas, um entrave à conscientização das pessoas sobre a sua condição no mundo.

Não é “só” sobre as mulheres.
Não é “só” sobre níveis de estupro.
Não é “só” sobre exploração sexual.

Tudo isso deveria ser suficiente.
Mas isso é só a ponta do iceberg.

O movimento de trabalhadores precisa MUITO aprender a analisar e compreender a estrutura patriarcal sob o risco de não se emancipar nunca. Tanto a direita quanto a esquerda consomem e regozijam-se dos produtos e do discurso narrativo que a indústria do sexo produz, desumanizando mulheres em seu grau máximo, comodificando o corpo das mulheres, alimentando-se e integrando o ciclo da pobreza e exploração de mulheres.

A indústria do sexo é o retrato mais bem acabado da junção do patriarcado com o capitalismo. Olhar para as imagens que a indústria do sexo produz sobre mulheres é entender qual o lugar que a sociedade nos reserva desde sempre. É a máquina de moer a carne das mulheres funcionando a pleno vapor e sob os olhos atentos e cúmplices de todos os homens (de direita e de esquerda), que são os principais consumidores.

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