Vivemos em um tempo que reforçar os esteriótipos de gênero passou a ser considerado revolucionário ao invés do que de fato é, uma prática decadente, limitadora e patriarcal, tanto que popularizou-se nas redes sociais uma bandeira dita lésbica em vários tons de rosa, algumas trazendo a marca de um beijo na lateral, o nome dela “Lipstick Lesbian”, que tem como intenção a representatividade das lésbicas femininas.

Lipstick Lesbian

Muitas lésbicas e feministas não reconhecem essa bandeira, primeiro porque feminilidade é algo que deve ser combatido e não celebrado, segundo que não há nenhum sentido em separar mulheres lésbicas entre femininas e não femininas (afinal, o que seria isso além da mais pura e odiosa lesbofobia?) e terceiro por ser uma bandeira que é composta por cores que nada significam no universo das pautas lésbicas.

A bandeira roxa, com triângulo preto invertido e uma lábris no centro tem sido utilizada e reivindicada como sendo a oficial por diversas razões, mas antes que quem chegou até aqui diga que o triângulo preto invertido é um simbolo nazista, é necessário pontuar que o uso dos triângulos invertidos foi realmente uma forma de identificar os prisioneiros e prisioneiras nos campos de concentração em razão da religião (roxo), dos ideais políticos (vermelho), da orientação sexual (rosa para os gays e preto para as lésbicas) e demais cores que, junto com a tatuagem com números, serviram para marcar essas pessoas. O triângulo preto também era usado nas mulheres ditas rebeldes como as feministas e as grevistas.

Exatamente por isso que as que defendem a força e a legitimidade dessa bandeira se pautam no entendimento de que resgatar o triângulo preto invertido foi, provavelmente, uma forma de honrar a memória dessas mulheres, foi uma maneira de dizer “nós não esqueceremos vocês”, então não enxergamos que haja qualquer referência ao ódio, sim, ao respeito imenso pelas mulheres que foram presas, torturadas e mortas por amarem e lutarem por outras mulheres.

A bandeira lésbica. A lábris/labrys | by aniram | Medium
Bandeira Labrys

É muito complicado contar a nossa história com registros históricos confiáveis, com fontes seguras, tanto que muito do que falamos sobre a história lésbica e seus símbolos é baseado em discussões e debates feitos em anos de militância lésbica, tendo em vista que a homossexualidade só deixou de ser doença em 1990 e em alguns lugares ainda é considerada crime, então nossas reuniões, encontros, manifestações e grupos não possuem muitas fotos, atas e listas de presença, nossa memória, em muitos aspectos, são os relatos das sobreviventes.

Contudo é possível afirmar, sem margem para erros, que os símbolos encontrados na bandeira lábris são usados pelos movimentos das lésbicas desde a década de 70, que no Brasil temos grande importância no universo LGB, considerando que lutamos pela democracia durante a Ditadura Militar, sendo nossas antecessoras a colocarem nas ruas as primeiras Paradas do Orgulho GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), a se unirem enquanto resistência contra a invisibilidade (SENALE e Caminhadas Lésbicas) e arriscarem sua liberdade em prol da liberdade das demais (o Levante em 19 de agosto de 1983, organizado pelo Grupo Ação Lésbica Feminista, no Ferro’s Bar).

O nosso rompimento com o que é adotado por essa sociedade misógina, que tem como signo a heterossexualidade compulsória e as relações centradas no falo, é relatado desde a antiguidade com os poemas de Safo e chega ao momento atual quando, em uma espécie de retrocesso, estamos tendo de reforçar o óbvio, de que sexo e gênero não são a mesma coisa e por isso temos o direito de ter a nossa sexualidade, de mulheres que se relacionam exclusivamente afetivo/sexualmente com outras mulheres, respeitada.

Há muito se tenta apagar as lésbicas, seja pela culpa, pelas chantagens, manipulações ou por atribuírem a nós privilégios que nunca nos pertenceram, assim sendo, uma bandeira focada na feminilidade, que usa tons de rosa e celebra um dos maiores símbolos cosméticos da nossa opressão enquanto mulheres, o batom, não pode ser aceita, esse código não pode ser imposto a nós, já que a história de luta que nos trouxe até aqui sempre foi talhada pelo desejo de sermos livres desses ditames.

É importante destacar que a minha fala é sobre as lésbicas enquanto movimento de luta, não estou fazendo apontamentos sobre preferências individuais, ao afirmar que uma bandeira em tons de rosa não nos serve, não estou discutindo se lésbicas gostam ou não de rosa, se usam ou não usam batom.

Por isso, pelo que nos une, nós que somos mulheres que romperam com as relações centradas no falo, que temos no que é ser lésbica mais do que a nossa sexualidade, mas também nossos sujeitos políticos, temos que com urgência reivindicar a história das que se sacrificaram para que chegássemos até aqui. As que se organizaram em coletivas, que romperam com o preconceito, que publicaram a revista ChanacomChana, que invadiram o Ferro’s Bar, que construíram as Caminhas Lésbicas, que organizaram as Paradas do Orgulho Homossexual, que se reuniram nos primeiros seminários, que estiveram ativamente em Stonewall, que publicaram os primeiros livros sobre nossas vivências, que não aceitaram ter nossas pautas silenciadas e que não se calaram diante da misoginia que sempre tentou nos colocar como incompletas.

Honrem a nossa história, não permitam que usurpem nossos símbolos e que apaguem a nossa trajetória de luta, não podemos aceitar que sejamos fragmentadas para validar identidades alheias.

As lésbicas sempre foram sinônimo de resistência.

Nossa bandeira não é em tons de rosa.

Não aceitaremos ser separadas entre femininas e não femininas.

Não aceitaremos que nossa história seja reescrita e que dela sejamos apagadas.

mulheres trocando sangue

nos quartos mais íntimos do momento

temos de provar da nossa fruta

pelo menos uma vez

(Audre Lorde)

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