Shane Turner Art

I.

meu amor é uma mulher
& quando a abraço
sinto o calor dela
sinto-me bem
sinto segura

então — eu nunca penso nas
vozes dos meus familiares
nunca ouço minhas irmãs dizerem
sapatonas, esquisitas, estranhas
 venha nos ver, mas não
 traz as suas amigas
 tudo bem pra gente
 mas não conte à mamãe
 ela ficaria arrasada
nunca senti meu pai
revirar no túmulo
nunca ouvi minha mãe chorar
Senhor, que filha é essa?

II.

o cabelo da minha amada é loiro
& quando enrola no meu rosto
sinto-o macio
sinto como um milhão de dedos
tocando minha pele & acariciando
e eu me sinto bem.

então — nunca penso no garotinho
que me cuspiu e chamou de preta
nunca penso no policial
que chutou meu corpo & disse rasteja
nunca penso nos corpos negros
pendurados em árvores ou cheios
de buracos de bala
nunca escuto minhas irmãs dizerem
 cabelo de branco fede
 
não confie em nenhum deles
nunca senti meu pai
revirar no túmulo
nunca ouvi minha mãe falar
das suas dores nas costas depois de esfregar chão
nunca a ouvi chorar
Senhor, que filha é essa?

III.

os olhos do meu amor são azuis
& quando ela olha para mim
flutuo num morno lago
sinto meus músculos fraquejarem de desejo
sinto bem
sinto segura

então — eu nunca penso no azul
dos olhos que me encararam
afastaram três bancos de distância
em um bar
nunca ouço minhas irmãs esbravejarem
sobre os homens negros sifilíticos
cobaias
raiva das crianças esterilizadas
 veja eles parar
 num cruzamento para assustar
 a velha branquela
nunca senti meu pai revirar
no seu túmulo
nunca lembro da minha mãe
me ensinando o
“sim, senhor”
“sim, senhora”
para me manter viva
nunca ouvi minha mãe chorar
Senhor, que filha é essa?

IV.

& quando eu vou para um bar gay
& meu povo me evita porque ultrapassei
a linha
& o povo dela olha para ver
o que ela tem
qual o defeito
a levou até mim

& quando andamos nas ruas
dessa cidade
nos esquecemos e tocamos
ou damos as mãos
& as pessoas
encaram, olham, franzem & provocam
essas sapatonas

eu lembro
cada palavra que me foi ensinada
cada palavra que me foi dita
cada ato que me foi feito
& então eu odeio
eu olho para minha amada
& por um instante
duvido

então — eu seguro a mão dela mais forte
& consigo ouvir minha mãe chorar.
Senhor, que filha é essa?


Texto original

Patrícia Cooks, mais conhecida como Pat Parker, (20 de janeiro de 1944 a 19 de junho de 1989) foi uma poeta e ativista feminista radical lésbica afro-americana, nascida no Texas (EUA). Pat Parker tem cinco coletâneas de poesia publicadas: “Child of Myself” (1972), “Pit Stop” (1975), “Movement in Black” (1978), “Woman Slaughter” (1978) e “Jonestown and Other Madness” (1985).

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