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Você, feminista, precisa parar de gastar seu tempo com homens

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Que 2022 seja um ano que mulheres passem o mínimo de tempo possível pensando em homens

Faz tempo que venho pensando na quantidade de tempo que mulheres investem para agradar, cuidar, alegrar e entreter homens, e no tanto que nossas vidas são pautadas por essa atividade. Horas de vida de bilhões de mulheres, que no mundo inteiro (e de todas as idades, classes sociais e etnias) gastam seu tempo cuidando de homens, ou pensando em cuidar dos homens, desejando cuidar de homens ou se culpando por não ter um homem para cuidar. Mesmo mulheres que se consideram feministas (e que na teoria entendem que os regimes de maternidade e heterossexualidade compulsórias moldam nossa socialização, deixando nossa noção de amor, de cuidado e de preservação a serviço dos sentimentos masculinos) não estamos ilesas de basear nossas vidas nas relações que temos com eles. Muito frequentemente mulheres feministas vivem esse embate interno em que batalham os dados concretos das ações misóginas dos homens no mundo contra o amor por um homem específico. E nesse embate raramente a qualidade de vida da mulher em questão sai ganhando.

Mulheres perdem seu tempo com homens por diversos motivos, mas a quantidade de vezes que perdemos tempo tentando decifrar o que homens dizem, ou justificar seu comportamento ou relativizar sua violência é o que me preocupa e o que quero tratar com você, leitora. E mais, quero com esse texto fazer com que você perceba que a quantidade de chances, perdões, que a compreensão, carinho e cuidado que ofertamos para os homens é imensamente superior à como tratamos outras mulheres e a nós mesmas. Em ações diretas ou indiretas (quando você gasta seu dinheiro com roupas desconfortáveis que te sexualizam jurando por tudo no mundo que você quer se sentir atraente “para si mesma” e não para eles), mulheres são encorajadas a gastar seu tempo para agradar (nem que seja visualmente) homens e normalizar a ideia de que é assim que nós nos sentimos bem com nós mesmas. Nossa própria noção de bem-estar está atrelada a como homens (e todo mundo em geral) nos veem, o aval social do desejo dos homens nos seduz porque só assim seremos vistas. Mulheres sofrem pelo desejo de visibilidade porque nossa própria história é invisível, não temos sequer referências suficientes de mulheres felizes sem um casamento ou sem filhos ou referências suficientes de mulheres que contaram sua própria história. Não existem heroínas que não são lindas e que não chamam a atenção sexual dos homens. E também existem pouquíssimas heroínas cuja a trajetória e jornada não seja em busca de um amor. Na negação de viver em um mundo em que os homens ativamente subjugam mulheres, a gente gasta nosso tempo com romance, com tentativas frustradas de nos relacionarmos com eles e de compreendê-los, de realizar nosso desejo de sermos vistas e adoradas por eles, mesmo que isso custe nossa saúde. Só o fato de eu estar escrevendo esse texto sobre isso já é um triste indicativo da nossa condição. 
Se perdoe como você perdoou seu ex tantas vezes” 

Talvez você não goste do que eu vou dizer, e eu entendo que isso vá trazer a tona sentimentos profundos, em que várias emoções se misturam e pegam justamente nas feridas mais doloridas da nossa autoimagem, do senso de valor, e da nossa capacidade de nos reconhecermos como um ser inteiro, completo. Quando o assunto é o nosso relacionamento com os homens, o pessoal e o político se desconectam e a noção de valor entra em xeque. Em uma análise prática, levando em conta os índices de feminicídio, estupro parental, pedofilia, casamento infantil, procura pela prostituição, vício em pornografia e uma série de outras violências contra as mulheres que homens de todas as classes, etnias e localidades praticam ao redor do mundo, fica evidente que o relacionamento das mulheres com homens é um relacionamento abusivo por padrão, não por exceção. Algumas mulheres percebem isso e outras não, mas ambas sofrem com as consequências desse fato. E mesmo assim, continuamos gastando nosso tempo, carinho, atenção e trabalho com eles, por “amor”. Acho bastante capaz que a leitora que enfrenta esse texto neste momento conheça, em seu círculo íntimo, mulheres que perdem sua qualidade de vida em busca do “amor”. Pode ser que esse seja seu próprio caso agora, e se não, já foi o caso em algum momento de sua vida. Mulheres de todas as classes, idades, localidades perdem a vida (literalmente) por conta do “amor”. E aqui coloco o amor entre aspas porque estou me referindo ao amor romântico: a ideia de amor criada pelo patriarcado para convencer mulheres de que objetivo final de suas vidas é encontrar o homem ideal. Um amor burguês e racista, mas principalmente misógino, propagado incessantemente pela religião e instituições do estado, mas também pela literatura, cinema, novelas, propagandas, é ensinado nas escolas, nas relações entre mães e filhas, é o “amor” que está em todo lugar. Essa ideia de amor é tão parte de nossas vidas, que além de senso comum, parece a ordem natural das coisas: nos fazem acreditar que nascemos com esse impulso, que faz parte do nosso DNA. E por conta disso, uma mulher pode passar a vida inteira sem a oportunidade de sequer se questionar sobre essas ideias, e caso se questione é bem provável que o primeiro mecanismo de defesa acionado seja a negação. 

Bom, e o que eu quero dizer com isso tudo? Na verdade é algo muito simples: existem outros tipos de amor que são mais recíprocos e verdadeiros. E um tipo de amor muito pouco incentivado na nossa sociedade (por todos os motivos acima elencados), e que eu e outras feministas suspeitam que possa ser o caminho da libertação é o amor por outras mulheres. E agora falo de amor a sério, porque é o amor completo, que pode estar presente em todas as nossas atitudes, o amor que atravessa nossa atenção, admiração, cuidado, respeito, carinho, compreensão. O amor que somos ensinadas a oferecer aos homens de forma romântica, e que nos torna submissas. Mas que se direcionado às nossas iguais pode ser libertador. Por que não praticar um amor igualitário? Por que não se doar, se preocupar, se ocupar e priorizar suas amigas, irmãs, colegas de trabalho etc? Por que somos tão duras, tão exigentes e tão dispostas a descartar as mulheres com quem nos relacionamos ao mesmo tempo que damos todas as chances do mundo para o mais mediano homem? Você provavelmente foi mais criteriosa, severa e mesquinha com suas amigas ou mulheres na sua vida do que com o homem que ama. Eu queria propor uma mudança de foco no amor e na confiança que depositamos nos homens, para que a lente virasse para nós mesmas e para as outras mulheres. Use seu tempo com mulheres. Se cerque de mulheres. Se pergunte a troco de que colocamos os relacionamentos afetivos com homens acima de tudo. 

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