A opressão ligada ao sexo começa no nascimento, operando por meio da imposição social do gênero. Gênero é o rótulo que as feministas usam para descrever o sistema de valores que prescreve e proscreve formas de comportamento e aparência a membros das diferentes classes sexuais, e que atribui valor superior a uma classe sexual às custas da outra.

Roupinhas de bebê: “Inteligente como papai / bonita como mamãe”. O condicionamento de gênero começa ao nascer

Socialização de gênero é um processo vitalício de inculcamento no papel de gênero para o seu sexo. Isso começa no nascimento, é imposto e forçado consciente e subconscientemente por todos nós, de várias maneiras, e opera para impor certas formas de comportamento considerados desejáveis para membros das diferentes classes sexuais e para prevenir aqueles considerados indesejáveis. Isso é o que Simone de Beauvoir quis dizer quando ela fala que “não se nasce mulher, torna-se”. Ocupar a posição de mulher é ser socializada ao longo de toda a vida para ser membro da classe sexual inferior. O gênero prescreve submissãofraqueza e passividade como traços femininos desejáveis, e dominaçãopoder e agressão como traços masculinos desejáveis.

Meninas devem ser bonitas e passivas; meninos devem ser inteligentes e ativos

A forma pela qual o gênero se expressa irá variar de acordo com a cultura e o contexto, portanto tempos e lugares diferentes irão impor normas distintas de aparência e comportamento para machos e fêmeas. Mas os valores subjacentes são os mesmos: mulheres deveriam performar o gênero de maneira que sinalize sua inferioridade e submissão; homens deveriam performa gênero de maneira que sinalizem sua superioridade e dominação. A função desse sistema de opressão é fazer com que a fraqueza e dependência masculina das mulheres pareça natural e inevitável e, assim, facilitar a exploração do trabalho feminino emocional, sexual, doméstico e reprodutivo pelos homens.

É a capacidade reprodutiva percebida, não a capacidade reprodutiva real, que determina que a classe sexual à qual você será designada, e portanto a forma que a sua socialização de gênero irá tomar e a opressão que você irá vivenciar. Não importa se você é na verdade infértil, e portanto incapaz de desempenhar a função reprodutiva do seu sexo. Nem importa se você possui inclinação para desempenhar aquela função. O dimorfismo sexual como fato significa que você será lida socialmentecomo pertencente a um sexo ou ao outro, e irá daqui em diante estar sujeita à socialização de gênero, e a sanções por não descumprimento, consideradas adequadas para o seu sexo. Mulheres na casa dos vinte e dos trinta anos irão vivenciar discriminação no local de trabalho por conta da sua aparência de mães em potencial, mesmo que na realidade não pudessem ou não possuam o desejo de engravidar.

Crucialmente, a socialização de gênero e a opressão de gênero acontecem independente de como o indivíduo por acaso sinta sobre si mesmo ou sua própria identidade. As injustiças infligidas sobre meninas não acontecem porque aqueles indivíduos por acaso sabem que são meninas e pensam que são meninas. Elas acontecem porque aquelas meninas habitam corpos de fêmeas, e então foram colocadas na classe sexual inferior ao nascer. Negar esse fato não é apenas deixar de entender como opera o gênero; é também se engajar na culpabilização da vítima, onde se supõe que meninas e mulheres que sofrem violência e opressão com base em seu gênero devem ter se identificado com essa posição social subalterna, e devem reconhecer e endossar a sua própria inferioridade e submissão.

Muitos indivíduos de ambos sexos se incomodam com as restrições postas pelo gênero. Todas as mulheres que se denominam feministas estão incomodadas. A razão pela qual chegamos até o feminismo é por sentirmos que o gênero é uma hierarquia opressora que limita nosso potencial, e queremos ser libertas das demandas da feminilidade, o que é apenas a expressão da submissão feminina. De forma semelhante, muitos homens se incomodam com as normas da masculinidade, o que requer a expressão da dominação, muitas vezes na forma de agressão e violência. Homens que consideram a masculinidade dolorosa e intolerável, e que escolhem rebelar-se contra esse estrangulamento, enfrentam preconceito e discriminação, e nós deveríamos querer acabar com isso. Mas vale lembrar que o gênero pune as mulheres, estejam elas em conformidade ou não. A não-conformidade é punida e socialmente sancionada para ambos sexos, mas para as mulheres, a conformidade também é uma forma de punição, uma vez que o cumprimento da feminilidade é, por si só, submissão e subordinação.

O grau de aflição e desconforto que indivíduos vivenciam ao tentar se conformar às devidas normas de gênero irá variar de pessoa em pessoa. Há muito poucas, se alguma, pessoas que se conformam perfeitamente aos ideias de gênero prescritos para o seu sexo. Todas nós fazemos concessões para sobreviver, e viver o melhor que pudermos, sob as restrições impostas pelo gênero. Todas nós ativamente endossamos um tanto, passivamente concordamos com um tanto, e positivamente nos revoltamos contra um tanto, e o equilíbrio que acabamos estabelecendo será uma questão individual e pessoal. Enquanto devemos estar preparadas para examinar criticamente e refletir sobre nossas escolhas, e escrutinar nossa cumplicidade com a perpetuação do gênero, nenhum indivíduo deve ser culpado pelas escolhas feitas por ela a fim de sobreviver a um sistema opressor.

Querer abolir os efeitos opressores e limitadores do gênero não significa que as feministas radicais querem impedir qualquer pessoa de expressar sua personalidade da forma que quiser. Feministas não desejam proibir maquiagem ou saltos, ou impedir que meninas brinquem de bonecas e se vistam como princesas. Tudo que as feministas querem é libertar tudo isso da capacidade reprodutiva percebida, para que meninos e meninas, homens e mulheres, possam se vestir como quiserem, brincar com qualquer brinquedo de sua preferência, desempenhar qualquer trabalho que gostem. Homens e mulheres estariam livres para desenvolver suas capacidades e alcançar seu pleno potencial, sem as restrições impostas pelas poderosas normas sociais que prescrevem submissão e passividade a fêmeas e dominação e agressão a machos. Num mundo ideal, a capacidade reprodutiva percebida teria tão pouca influência quanto o grupo sanguíneo ou a lateralidade dominante teriam hoje sobre o tratamento social, realizações e resultados esperados de uma pessoa.

As escolhas comportamentais de qualquer indivíduo, seus gostos e preferências sobre vestimenta e aparência, e como eles optam por expressar sua personalidade, são independentes do sexo biológico e —bastante evidentemente — não o impactam. As pessoas podem vestir o que quiserem, se comportar como quiserem, modificar seus corpos como quiserem, contanto que estas escolhas não ferem outros que não consentem. Isso deve ser encorajado, e de fato é uma parte importante do projeto de libertar os seres humanos das restrições opressoras do gênero. Mas nada disso altera o fato biológico subjacente à hombridade ou à mulheridade. Nenhuma quantia de desafios ou modificações das normas de gênero — ou fazendo o gênero “queer” — fará de uma pessoa masculina fêmea, porque ser fêmea apenas significa ser membro da classe humana capaz de gestar uma criança. Desafiar e jogar com as normas de gênero no comportamento e apresentação de si, de modo a parecer andrógina, é uma ferramenta válida e útil para desmantelar as estruturas do gênero; mas por si só nunca libertará as mulheres da opressão que acompanha o viver em um corpo de fêmea. Não é possível escapar de uma opressão que possui base material por meio da autoidentificação.


Original: Rebecca Reilly-Cooper, https://sexandgenderintro.com/gender/

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