A queima das bruxas e o incêndio feminista

Em 1659, o filósofo Walter Charleton descreveu as mulheres como “as traidoras da sabedoria, o impedimento da indústria […], os impedimentos da virtude e os aguilhões que instigam a todos os vícios, à impiedade e à ruína. O paraíso dos néscios, a praga do sábio e o grande erro da natureza”.

Por mais assustadoras que essas palavras sejam, a opinião do filósofo inglês acerca das fêmeas era compartilhada por inúmeros intelectuais que hoje são considerados os pais da modernidade. Todavia, ao longo da nossa formação, somos constantemente bombardeadas com informações falaciosas de que a Idade Moderna teria sido o marco do progresso das sociedades. Ela pode até ter motivado o desenvolvimento de diversas áreas, mas é necessário, antes de tudo, perguntar:a interesse de quem e para quem? 

Essa reflexão precisa ser feita porque, ao contrário do que muitos pensam, o genocídio de mulheres conhecido como “caça às bruxas” não foi uma consequência do sistema feudal e do contexto medieval. Em suas obras, a historiadora Silvia Federeci constantemente desmistifica a chamada “Idade das Trevas” e enfatiza que esse período, na verdade, foi marcado por determinada autonomia e união das mulheres, que estavam frequentemente juntas — fosse no trabalho no campo ou no ambiente em que eram feitos os partos.

Constata-se que a caça às bruxas foi resultante da transição do feudalismo, em que a acumulação de terras determinava a riqueza, para o capitalismo. Este último, por sua vez, assume que o homem pode se tornar rico a partir da aquisição de capital, o qual é fruto do trabalho humano. Sendo assim, a lógica capitalista nasceu idealizando o aumento do lucro a partir do crescimento da disponibilidade da mão-de-obra. O resultado dessa máxima é o que vemos até hoje: a capacidade reprodutiva da mulher passou a ter um valor econômico — o que significa que, no sistema capitalista, é imprescindível que haja o controle do corpo e da sexualidade feminina.

A partir dessas constatações, pode-se perceber o óbvio: a caça às bruxas não é, nem de longe, uma questão de pouco significado ou apenas folclórica como costumavam afirmar os primeiros estudiosos do assunto. Ao longo dos anos, a relevância desse fenômeno foi subestimada e escondida por um motivo que já nos é corriqueiro: pouco importa se mulheres têm seus corpos e seus comportamentos controlados pela ordem patriarcal, tampouco se são mortas por homens (especialmente se elas forem pobres camponesas, como a maioria das bruxas eram). 

As mulheres acusadas de bruxaria eram as parteiras, as que evitavam a maternidade, as mendigas que ganhavam a vida roubando um pouco de lenha de seus vizinhos e as promíscuas libertinas que ousavam praticar sua sexualidade fora dos vínculos do casamento e da procriação. Em suma, aquelas que ameaçavam a racionalização do processo de trabalho e a reprodução dentro dos moldes patriarcais, conforme explicitado por Federici em seu livro “Calibã e a bruxa”

Também é importante ressaltar que a caça às bruxas foi a primeira perseguição europeia que usou propaganda multimídia com o objetivo de gerar uma psicose em massa: a imprensa divulgou panfletos que alertavam a população sobre os perigos trazidos pela bruxaria e contou com artistas para criar imagens aterrorizantes daquelas que seriam as bruxas. Uma das imagens mais famosas dessa época, por exemplo, é “Sabá das bruxas”, de Hans Baldung.

Sabá das Bruxas, por Hans Baldung

Desse modo, a caça às bruxas constituiu uma ferramenta de construção de uma nova ordem patriarcal que se preocupou ferozmente em controlar os corpos das mulheres, seu trabalho e suas atividades sexuais, transformando-os em recursos econômicos e, praticamente, propriedades do Estado. Para mostrar o que ser dona do próprio nariz poderia causar, as torturas das mulheres acusadas de bruxaria eram aterrorizantes e podiam ser assistidas por todos em praças públicas: elas eram despidas, depiladas, perfuradas com agulhas em todo o corpo e muitas vezes estupradas. As filhas das bruxas sempre estavam presentes em suas execuções, afinal, era importante dizer para outras mulheres como elas não deveriam se portar.

A queima de corpos femininos significou a tentativa de fazer com que a autonomia das mulheres ardesse em chamas. No entanto, a caça às bruxas se tornou símbolo de um outro grande incêndio: o feminismo. Agora, porém, somos nós que atearemos fogo. Em todos os padrões aos quais ainda tentam nos submeter.

Gabrielle Polary

minha luta é a luta das mulheres; sou feminista radical por necessidade.

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