O casamento deve ser abolido.
O casamento deve ser abolido.
O casamento é uma instituição antiquada construída sobre a desigualdade patriarcal que não tem lugar na sociedade moderna. O debate sobre a parceria civil comprova isso.

É certo e devido que Rebecca Steinfeld e seu parceiro Charles Keidan tenham finalmente ganhado o direito de escolher uma parceria civil* (*aqui chamada de união estável) ao invés do casamento, com a Corte tendo previamente permitido que essa opção fosse somente para os casais do mesmo sexo. Quem adivinharia isso? Heterossexuais querendo algo que nós temos; tendo inveja disso até. Isto é algo raro de acontecer, e nós devemos aproveitar o momento.

Mas o que eu amo realmente sobre este caso é como se lutou tendo como base que a instituição do matrimônio é datada, patriarcal, e construída na desigualdade. Como um lésbica e feminista que por muito tempo defendeu a abolição do matrimônio, eu aprecio esses sentimentos. Eu temia que o caso estivesse sendo lutado com base no “não é justo, eu quero o que eles têm”, o que seria insultante. Mas eu tenho que admitir, eu não quero o que eles tiveram por séculos: o matrimônio.

“Mas você já o tem”, eu te ouço gritar, “lésbicas e gays lutaram para ter os mesmos direitos de se casarem como heterossexuais!”. Eu não. Eu, junto com algumas outras feministas, tenho protestado por muito tempo para abolir essa instituição, não para estendê-la ainda mais.

Mas isto me fez um tanto impopular entre alguns da comunidade lésbica e gay. É como se eu estivesse indo contra a igualdade, do que contra o matrimônio em si.

Casais homossexuais só foram convidados para a bobeira do matrimônio porque era uma instituição falindo, enquanto as taxas de divórcio aumentavam entre os heterossexuais. O marketing do casamento para os casais do mesmo sexo era também uma maneira de assegurar de que nós estivéssemos domesticados e longe de nossa existência semi-feral de concubinato, tendo muito divertimento e liberdade. As lésbicas e os gays costumavam se opor violentamente ao matrimônio, ao contrário de hoje. Em 1971, Jill Tweedie escreveu neste jornal: “O Gay Lib não pede pelo direito dos homossexuais de se casarem. O Gay Lib questiona o matrimônio.”

Talvez a batalha lutada por Steinfeld e por Keidan poderia incitar um protesto maior para se livrar do matrimônio de uma vez por todas? Poderia certamente haver esse revival. Quando Diana Spencer estava se preparando para casar com o príncipe Charles, em 1981, eu orgulhosamente usava meu broche “Não faça isso, Di”. Eu estava envolvida neste movimento vibrante, assim como um certo número de heterossexuais progressistas.

Broche “Don’t do it, Di!” (Não faça isso, Di)

Eu fui perguntada algumas vezes se eu apoio uniões estáveis para todos, como melhores amigos ou irmãos e irmãs. Esta pode ser uma ideia popular para os donos de propriedade que desejam evitar de pagar o imposto de herança quando um deles morrer. Certamente esta não é a resposta? Nós temos que pensar em outro arranjo, de modo que as pessoas que não são ricas e têm esquemas de moradia compartilhada com uma irmã/irmão ou amiga/o não percam seus lares quando um deles morrer. Eu nunca entendi porque ser um casal sancionado pelo Estado significa que você merece menos imposto — não é mais caro viver sozinho? O sistema inteiro tem que ser revisado, de modo que nós não estejamos privilegiando pares e não estejamos discriminando aqueles que não desejam o Estado envolvido de nenhuma maneira em seu relacionamento, romântico ou de outra natureza.

Um fator chave sobre o casamento remanesce, independente das reformas e modernizações. O casamento é de longe melhor para homens do que é para mulheres. Ele reforça a noção das mulheres como propriedade. Não é nenhuma surpresa que homens são mais felizes, têm melhor saúde mental e física, e têm melhora financeira dentro do matrimônio do que mulheres. Como a escritora feminista Bea Campbell mostra em seu livro, “O Fim da Igualdade” (End of Equality), que mulheres casadas ainda fazem a maior parte do trabalho doméstico, enquanto os homens cuidam das crianças tão pouco quanto nos anos 30.

End of Equality (O Fim da Igualdade) — Beatrix Campbell

A instituição deu forma ao pano de fundo da opressão das mulheres por séculos, e continua a fazer isso. O casamento forçado, crianças feitas de noivas e a poligamia, todos mostram como as violações dos direitos humanos das mulheres e das meninas vêm muitas vezes de mãos dadas com o matrimônio. Só foi em 1991 que o estupro no casamento se tornou crime na Inglaterra e em Gales. Hoje, é ainda perfeitamente legal que um homem estupre sua esposa em mais de 40 países mundo afora.

As conquistas do feminismo significavam que as mulheres podiam optar por não se casar sem ser vistas como solteironas ou aberrações, mas nos últimos anos a popularidade do casamento rastejou de volta, com algumas mulheres até defendendo que era um ato “feminista”. O casamento homossexual fez pouco para alterar a instituição, mas definitivamente aumentou sua popularidade. Eu sinto frequentemente que sou mais julgada por não ser casada e com filhos do que por ser lésbica.

Os heterossexuais progressistas iriam se beneficiar se juntando aos protestos feministas para abolir o matrimônio. Como é dito frequentemente, a união envolve três anéis: anel de noivado, anel de casamento, sofrimento (em inglês é uma rima: engagement ring, wedding ring, suffering). O fim da união é a única maneira de assegurar a verdadeira igualdade para todos.

Por Julie Bindel — traduzido do Guardian 

Julie Bindel é uma jornalista freelancer e ativista política, autora do livro “Cafetinagem da Prostituição: Abolindo o mito do trabalho sexual” (‘ Pimping of Prostitution: Abolishing the Sex Work Myth’ — Palgrave McMillan, 2017)

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