Pornografia, cultura do estupro e a violência nas relações
Pornografia, cultura do estupro e a violência nas relações

“Choke me, Daddy” (em inglês, “me enforque, papai”). Palavras escritas sobre uma imagem mesclada em tons escuros e cor de rosa, com o rosto e busto de uma menina jovem e uma mão masculina em volta do seu pescoço. Sutiã de renda, algemas de couro. A dualidade entre um amor terno e a violência pulsam e, aos poucos, trazem a fantasia de como seria ser amada e violentada por um homem mais velho. A menina de 14 anos compartilha a imagem em uma rede social anônima que criou para publicar poesias e fotografias do céu. Ela memorizou as palavras, “choke me, daddy”, para uma pesquisa imediata.

Os nossos gostos pessoais sempre nascem de algum lugar.

O fetiche do enforcamento durante o sexo parece ter crescido há alguns anos entre as meninas jovens, bem como a aspiração de estar com um homem experiente e dominador que a ame ao som de Lana del Rey. Isso porque a pornografia normalmente chega para as meninas de uma forma diferente de como chega para os meninos.

Eles são socializados para reafirmar masculinidade desesperadamente, a todo custo, para o resto da vida, e o que seria mais másculo que sexo e violência? Enquanto isso, as meninas seguem sendo socializadas para os mesmos desejos de aprovação masculina, os de sempre. Assim, enquanto os adolescentes do sexo masculino fazem pesquisas cada vez mais violentas no PornHub buscando satisfazer um narcisismo, meninas pensam, muito antes de descobrir a masturbação, em como podem se tornar atraentes para os homens, e acreditam que é ai que reside seu prazer.

Assim, elas descobrem o BDSM, a sexualidade passiva, e outros termos eufemizados que levam mulheres a práticas de autodestruição durante o sexo, estejam elas performando o sadismo ou o masoquismo, não importa, são os desejos masculinos que são levados em consideração.

Andrea Dworkin diz que “o sadismo sexual efetiva a identidade masculina. Mulheres são torturadas, chicoteadas, e acorrentadas; mulheres são amarradas e amordaçadas, marcadas e queimadas, cortadas com facas e fios; mulheres são urinadas e defecadas”, dentre outras descrições que não vou reproduzir aqui pois pode ferir muitas vítimas de violência, — e tudo isto para estabelecer no macho um sentido viável de seu valor próprio”. É tudo sobre eles.

“Me espanque”

A série Amizade Dolorida, disponível na Netflix, conta a história de uma moça que trabalha como dominatrix para se sustentar enquanto faz faculdade. Apesar do roteiro não deixar explicito um posicionamento mais delimitado em relação a essa prática, ao longo da trama acabamos vendo o quão invasivos e até violentos podem se tornar os seus “clientes” supostamente masoquistas quando não recebem o que querem.

Seja nesse tipo de caso ou no mais comum, onde o homem quem performa o sadismo, movimentos e posições pioneirizados pela pornografia são imitados. Segundo Naomi Wolf, em O Mito da Beleza, quando fala sobre a influencia da midia pornificada nos ideais de feminilidade, a pornografia foi ficando cada vez mais violenta porque, aos poucos, imagens que mostravam o sexo da forma que ele é foram ficando desinteressantes para os espectadores. Assim, com o crescimento dessa indústria, as fantasias masculinas mais agressivas passaram a ser reproduzidas.

Fantasias como o famoso e absurdo “rape play”, bondage, spank. Fetiches envolvendo incesto, menininhas inocentes saindo do colégio ou donas de casa desesperadas. Pessoas reais supostamente encenando estupro e até pedofilia.

Falei primeiro do fetiche de ser enforcada por ser um dos que mais tem me espantado há alguns anos. Não por ser o mais visualmente chocante de todos, mas por ser tão descaradamente disceminado e ter chamado atenção justo do público feminino adolescente. Me espanta pois essa é uma das formas mais comuns, eu diria, com que estupradores executam suas vítimas: enforcando-as enquanto as abusam.

Se você procurar casos criminais que envolvem estupro, geralmente a descrição é a seguinte: “O corpo foi encontrado dias depois, nu e em estado de decomposição. Na cena do crime havia sinais de luta. Exames comprovaram que houve abuso sexual e marcas no pescoço da vítima apontam que a causa da morte foi enforcamento”. Se precisar de exemplos, esse era o modus operandi de Joel Rifkin, o assassino em série responsável pela morte de 9 a 17 mulheres entre 1989 e 1993, sendo considerado o “jack, o estripador” mais recente na história. Ele procurava mulheres em situação vulnerável, como prostituição ou uso de drogas, e sentia prazer sexual ao enforcá-las.

Me pergunto como o modus operandi de não só um, mas vários estupradores assassinos, pode ser considerado uma preferência sexual inofensivo e livre de influencias patriarcais. Me pergunto também como a indústria pornográfica, que fez e faz incontáveis vítimas (pesquisem relatos de sobreviventes, tem vários no Feminismo Com Classe ), pode ser considerada uma fonte de entretenimento saudável.

Acredito que seja desonesto considerar enquanto puro moralismo a denuncia de práticas violentas e problemáticas. Por isso, meu apelo é que nós, mulheres, sempre possamos contestar aquilo que nos machuca, mesmo que se trate de uma atividade revestida com o disfarce quase impenetrável de gosto pessoal.

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