Corpos: sobre automutilação compulsória
Corpos: sobre automutilação compulsória

“Adele posta sua primeira foto de 2020.”  Saiu essa “notícia” nos jornais logo pela manhã dessa quarta-feira de quarentena. Me espantei quando a vi, por incrível que pareça ainda me espanto com as modificações que algumas mulheres se submetem e são submetidas para entrar em um padrão inatingível.

Para mim Adele sempre foi maravilhosa, além de ter uma linda voz, mas parece que os seguidores ávidos do pop não concordam comigo. Diante de alguns comentários vi o quão o mundo é cruel com mulheres; de um lado pessoas rasgando elogios pela modificação de Adele e do outro lado pessoas que ficaram como eu: “tô muito em choque com essa foto da Adele porque, tipo, NÃO PARECE NEM a Adele. Mas não parou por aí, esses comentários nos levou a outras discussões no twitter como:

Mas nenhuma dessas pessoas tocou em um ponto importante que é: porque mulheres que são lindas precisam passar por experiências [dolorosas] para que continuem lindas? Poderia começar essa discussão de maneira filosófico, bem, até onde sabemos o surgimento de uma Filosofia do Belo se deu na Grécia. Platão, através da metafísica, diz que vivemos em um mundo em ruínas e existe um mundo para além do sensível onde tudo é organizado, perfeito, belo. Temos com ele a fórmula: Verdade = Bem = Belo. Vemos aqui umas das figuras mais importantes do pensamento ocidental dando um status de poder ao conceito de beleza, a qual em si seria boa e verdadeira. Algo é mais ou menos belo de acordo com a proximidade que essa coisa tiver da Beleza em si, a Beleza do mundo das ideias. Platão diz que a Beleza absoluta é o brilho ou esplendor da verdade. Mas de uma ótica feminista sabemos que isso não explica tudo, portanto, temos outra explicação do porquê mulheres precisam tanto ficar sua vida inteira tentando alcançar um modelo que é impossível de sê-lo.

Para isso Naomi Wolf em seu fabuloso livro “O mito da beleza” (1991) descreve que pode ser aplicado no caso da cantora Adele:

“Uma cultura fixada na magreza feminina não tem uma obsessão pela beleza, mas uma obsessão pela obediência feminina. “

Adele ficou magra. Adele obedeceu uma lógica de beleza imposta. Logo, Adele obedeceu a ordem imposta mesmo que isso seja automutilação [compulsória]. E é por isso que a escritora Naomi Wolf em dado momento conclui: “O mito da beleza está sempre prescrevendo comportamentos, não aparência”.

Partindo desse ponto, temos uma coisa chamada Capitalismo, se formos analisar de um ponto de vista marxista, os comportamentos femininos são a base para muita coisa, logo fazem parte da infraestrutura. Os elementos, tais como culturais, fazem parte da superestrutura, que é onde o Capitalismo cria elementos para que a base se mantenha.

Por exemplo, as diversas produções e distribuição de zilhões de maquiagens. Queimar as maquiagens seria uma ação muito mais eficaz atualmente que queimar sutiãs, nesse caso. Segundo Julie Bindel, escritora e feminista radical inglesa e co-fundadora do grupo de reforma da lei Justice for Women, diz nesse artigo aqui que “mulheres que usam maquiagem passam em média nove dias inteiros a cada ano de suas vidas fazendo isso”, portanto isso não seria uma forma de controle? Ainda complementa: “ Eu escolhi usar esse tempo em campanha contra estereótipos sexistas, tais como a noção de que as mulheres ficam mais bonitas usando maquiagem. Quando me tornei feminista, no fim dos anos 70, considerava-se que exibir a aparência natural era um ato radical. Então, ao fim dos anos 90, as feministas liberais alegaram que usar maquiagem era agora uma escolha radical e nós não éramos mais pressionadas a fazer isso por termos nos emancipado do patriarcado.”.

Mas a pergunta que nunca se cala: quantas empresas lucram com toda a insegurança provocada nas mulheres que as levam a serem obedientes?

Claro que há recompensas limitadoras para quem se conforma no ideal de beleza, mas há muito mais represálias para quem não se conforma e desobedece, as comparam até com “homens”, mesmo sendo uma sociedade falocentrada, uma mulher que não obedece os esteriótipos de gênero relacionado ao sexo feminino sofre ataques sérios, então entendo mulheres acabarem cedendo na maior parte do tempo, pois o mundo nessa lógica nunca vai nos deixar ser quem somos, por isso é preciso radicalizar nosso comportamento diante desse monte de merda.

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