Um relato de quando fui diagnosticada com Transtorno de Estresse pós Traumático

Era 2019 e eu sentia que meu corpo queimava, eu estava constantemente ansiosa, irritada, ausente, desconcentrada, me sentindo culpada e dolorosamente vazia.

Muito das minhas ações eram apenas reações, eu não pensava antes de responder a nada, como eu também, não registrava as respostas que dava.

Pessoas próximas diziam que eu estava muito eufórica, falando alto, sendo inconveniente e insistente em momentos que normalmente eu jamais seria.

Pareço ser uma mulher intensa, mas na intimidade, quem me conhece sabe que gosto de silêncio, leituras, música baixa e diálogos tranquilos.

Na faculdade eu estava totalmente apática.

No trabalho minha produtividade estava seriamente comprometida.

Já não dormia mais.

Entretanto, apesar de tudo isso, eu permanecia funcional, ou seja, eu parecia normal, já que ainda fazia as provas da faculdade, trabalhava, tomava banho, me alimentava, escovava os dentes, cuidava da casa, conversava, beijava as paqueras, dançava no techno e seguia a vida, o que era rotineiro eu era capaz de fazer, de forma automática e alucinada, mas fazia.

Era minha relação com o mundo e com os meus sentimentos que estava febril e inconsequente.

Até que vivenciei um surto: ao entrar pelo portão da minha casa tive certeza que havia pisado em um morcego, essa sensação de pisar nele foi tão real que senti que quebrava seus ossos com meus pés, comecei a gritar porque eu havia me assustado demais, aos berros pedia que me tirassem dali. Entretanto, não havia morcego, não havia nada! Corrijo, havia sim, um profundo desespero nascido das minhas emoções adoecidas. Os vizinhos chamaram uma ambulância, fui sedada e internada com uma febre de quase 40 graus.

Quando consegui conversar de maneira coerente na avaliação psiquiátrica o médico disse que eu tinha sintomas parecidos aos de Transtorno de Estresse pós Traumático (TEPT) e pediu que eu retornasse para mais algumas consultas na presença de uma psicóloga.

Também fui encaminhada para fazer toda espécie de exames laboratoriais existentes, porque para que o diagnóstico de um transtorno psíquico potencialmente crônico fosse dado, deveriam primeiro descartar outras doenças.

Assim, após toda uma saga, recebi o diagnóstico definitivo de TEPT e comecei o tratamento com medicação controlada e terapia semanal.

Sei que contando assim parece ter sido uma jornada rápida, mas para que eu chegasse a um diagnóstico foram quase 5 meses agindo de forma irresponsável, magoando pessoas, tendo atitudes impulsivas e que não correspondiam com a minha personalidade, me esquecendo de absolutamente tudo que eu vivia e tendo delírios constantes.

Ninguém acreditava quando eu dizia que alguma coisa dentro de mim havia se quebrado, que eu não estava bem, que eu sabia que estava agindo de forma deslocada, que eu não conseguia dormir, que estava obsessiva, que tudo parecia estar acontecendo ao meu redor e eu não conseguia ter controle sobre nada.

Fui chamada de dramática, de fresca, de preguiçosa, cogitaram menopausa precoce, um tumor no cérebro e falta de religião, mas a minha saúde emocional nunca foi considerada como sendo a razão para aquele sofrimento.

Para ilustrar algo absurdo que vivi nesse adoecimento, eu delirei de paixão, uma paixão nascida do nada, sem qualquer razão, por uma ex-namorada de mais de 10 anos de término, como se meus sentimentos por ela fossem atuais e tão vivos que me senti obcecada por ela, tanto que escrevi uma carta manuscrita de diversas páginas e chorei por dias de saudade e tristeza, de uma necessidade física de que ela voltasse para mim. Não era algo real e saudável, óbvio que não era, não tínhamos nenhum contato, não havia qualquer razão para o renascimento desse sentimento, mas a doença fez ser muito real tudo que eu sentia, essa fuga que me levou ao ano que namoramos, quase 10 anos atrás, revisitando de forma dramática um sentimento que já havia sido superado e esquecido, foi a doença me fazendo perder a racionalidade, ela foi a fuga que o estresse tentou encontrar para o trauma.

Entretanto, foi preciso um surto visível, palpável, com testemunhas oculares, precisei ter a febre conferida, anotada em um prontuário, que diversos exames fossem feitos e que desse negativo para doenças causadas por parasitas e que tumores fossem descartados para que, enfim, eu iniciasse um tratamento.

Se não fosse aquele surto e a “sorte” de ter sido tratada em um hospital com plantão psiquiátrico eu não sei sinceramente o que seria de mim.

Hoje tomo medicação, ainda tenho pesadelos, crises de ansiedade, atitudes impulsivas, momentos graves de depressão e resquícios da obsessão pela ex namorada…

Não estou curada ainda, estou no caminho e muito melhor do que já estive.

Mas eu nunca mais serei a mesma, nunca mais a história que perdi para a doença voltará para mim…foi como me fragmentar inteira e estar agora tentando remontar uma nova pessoa.

E é muito difícil lidar com uma doença que as pessoas nunca levam a sério o suficiente para dar credibilidade para sua dor, por essa razão estou me expondo tanto ao contar sobre algo tão pessoal, porque todos os dias vejo campanhas sobre responsabilidade emocional, empatia e solidariedade, quando na realidade não conseguimos respeitar, reconhecer e dar a devida atenção para o tanto que o psicológico é fundamental para nossa saúde, de nada adiantam tantos discursos se no concreto da existência ainda acreditamos que sentimentos não passam de frescura e que setembro amarelo é apenas uma fita.

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