Tráfico de mulheres para fins de exploração sexual e a produção de pornografia

As mulheres usadas na produção de pornografia comercial nos Estados Unidos são frequentemente submetidas à violência e à coerção durante as filmagens. Com frequência, elas reclamam e tentam parar a filmagem ou desistir antes da filmagem começar. Suas reclamações são ignoradas e elas são pressionadas por seus agentes ou pelos diretores a continuar. As experiências que elas têm com coerção e com as armadilhas em que caem muitas vezes enquadram-se na definição de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual.

No Brasil, o tráfico de pessoas é crime e definido¹ como agenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher pessoa, mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com a finalidade de remover-lhe órgãos, tecidos ou partes do corpo; submetê-la a trabalho em condições análogas à de escravo; submetê-la a qualquer tipo de servidão; adoção ilegal; ou exploração sexual. Muitas leis internacionais seguem a mesma definição, inclusive a dos EUA, país que produz grande parte da pornografia consumida no Brasil.

Praticamente não há estudos nacionais ou internacionais sobre o uso de mulheres traficadas para a indústria pornográfica, sendo que a maioria dos estudos sobre tráfico para fins de exploração sexual concentra-se na exploração da prostituição. Porém, são assuntos muito intrínsecos, e não raramente andam junto. É preciso que ativistas e legisladores prestem mais atenção aos abusos que acontecem na indústria da pornografia. No caso de crianças traficadas para a pornografia, há mais atenção nacional e internacional.

A seguir, alguns depoimentos de atrizes pornográficas dos Estados Unidos pretendem demonstrar que a indústria pornográfica está intrinsecamente ligada ao tráfico de pessoas.

Força ou Coerção

A maioria das mulheres entra na indústria pornográfica sem saber a que elas terão que se submeter. Como a maioria das vítimas de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, elas precisam de dinheiro e estão procurando oportunidades. Os agentes, diretores e produtores tiram vantagem dessas mulheres, quase sempre bem jovens. Suas primeiras experiências com pornografia comercial é frequentemente brutal e traumática.

Madelyne não sabia nada do negócio para o qual ela foi chamada, mas estava ansiosa para ganhar dinheiro, porque estava endividada. Ela disse ao seu agente que ela não tinha limites e que faria qualquer coisa. Ela assinou um ano de contrato. Depois, ela disse que não tinha ideia do que isso significava.

Ela estava aterrorizada quando chegou ao estúdio para filmar sua primeira cena, “eu tentei desistir, queria voltar pra casa e não fazer pornografia nenhuma”. Falaram pra ela que ela tinha assinado um contrato, portanto não podia desistir, “fui ameaçada, disseram que, se eu não fizesse a cena, iam me processar e eu ia perder muito dinheiro”. “Fiz cenas de sexo violentas e apanhei de um ator, pedi para que eles parassem, mas eles não pararam até eu começar a chorar e estragar a cena”.²

A descrição da Madelyn mostra que ela foi coagida. Mesmo que a vítima inicialmente tenha consentido, ela sempre poderia retirar o consentimento e a atividade deveria parar. Se seu desejo é ignorado, há tráfico sexual.

Alexa escreveu: “em meu primeiro filme, fui tratada com muita violência por três caras. Eles me esmurraram, forçaram meu vômito com seus pênis e me jogaram pra lá e pra cá como se eu fosse uma bola! Eu estava com dor, machucada e mal podia andar. Eu sentia queimar e doer dentro de mim. Não conseguia fazer xixi e tentar evacuar estava fora de questão”.³

Sierra Sinn escreveu: “minha primeira cena foi a pior experiência da minha vida. Eu estava com muito medo. Era uma cena muito violenta. Meu agente não quis me deixar saber o que era antes da filmagem… Eu fiz e chorei, mas eles não pararam. Foi violento demais. Ele me bateu. Doeu. Isso me assustou demais. Eles não pararam. Só continuaram filmando”. ⁴

As experiências de Alexa e Sierra Sinn descrevem o uso da força na produção pornográfica, o que configura tráfico sexual.

Uso de drogas como facilitador da coerção

Nos Estados Unidos, uma nova forma de coerção foi tipificada⁵ dentre os casos de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual: forçar o uso de drogas ou criar ou incentivar o vício.

Muitos testemunhos de mulheres usadas na produção de pornografia comercial descrevem uso e vício de drogas e álcool e como os pornógrafos manipulavam isso.

Quando Madelyne quis desistir de fazer sua primeira cena pornográfica, além de ter sido ameaçada, acabou tomando várias doses de vodca para terminar a cena, “os produtores providenciaram álcool e drogas para mim”.

Madelyne continua: “conforme eu ia fazendo mais e mais cenas, eu abusava do uso de remédios, qualquer remédio que eu quisesse, os médicos me receitavam: Vicodin, Xanax, Prozac e Zoloft. Os médicos sabiam que eu fazia pornografia e mesmo assim me davam qualquer receita que eu queria. Tudo que eu tinha que fazer era falar pra eles que eu ia fazer cenas pesadas”.

Na preparação de uma cena na qual vários homens ejaculariam no rosto de Madelyne, e que ela não queria fazer, um dos membros da equipe ofereceu pra ela vodca e cerveja. “Meu agente não deixou eu dirigir, de tão bêbada que eu estava. Uns 75% das mulheres que fazem pornografia usam motorista, porque são viciadas em drogas e álcool”. Madelyne insinua que os médicos talvez recebam propinas dos produtores pornográficos.

Quando Madelyne não pôde mais interpretar cenas na pornografia, porque seu uso de drogas e álcool ficou “sem controle”, seu agente sugeriu que ela fosse para a prostituição e casas de strippers.

Segundo Alexa, “havia drogas e álcool disponíveis nos sets de filmagem… Sempre que você queria, eles te davam. Na verdade, num dos sets em que fiz dois filmes, os atores tinham seu próprio ‘médico’! Eu vi o médico dando remédios e aplicando injeções.”

Fraude

Se uma pessoa é compelida a participar de um ato sexual comercial (que inclui a filmagem de pornografia) através de fraude, ela é uma vítima do tráfico de pessoas. Fraudar significa enganar alguém para fazer algo que ela não faria se soubesse ao certo do que se trata.

Madelyne escreveu: “a pior cena que eu fiz foi durante minhas primeiras semanas no negócio. Meu agente me chamou um dia antes da cena e disse que seria similar a uma cena de masturbação sozinha. Depois, ele disse que também teria uns 10 ou 15 caras se masturbando e ejaculando em mim. Ele disse que seria dinheiro rápido e fácil. Quando eu cheguei, vi uma fila longa de homens fora do estúdio. Reconheci alguns deles, a maioria era gente que nunca vi antes”. No estúdio, Madelyne soube que a fila de homens lá fora foi recrutada através de um anúncio num jornal semanal que dizia “venha e ejacule no rosto de uma jovem atriz pornográfica”. “Meu agente me disse que eu tinha que fazer isso e, se não fizesse, ele ia me cobrar e eu ia perder todos os outros agendamentos, porque eu faria a agência dele ficar mal no negócio”.

Isso mostra que mulheres são forçadas a fazer pornografia por meio tanto de fraude como de coerção psicológica. Como ativistas contra o tráfico de pessoas, deveríamos investigar melhor a produção pornográfica.


Fontes:

1. Código Penal Brasileiro.

2. MADELYNE. The hardcore story of porn star Michelle Avanti. 2009.

3. MILANO, Alexa. Former porn Alexa Milano needs our help. 2010.

4. SINN, Sierra. Porn Stars. 2010.

5. William Wiberforce Trafficking Victims Protection Reauthorization Act of 2008


Tradução adaptada do texto de Donna M. Hughes, Co-fundadora do Citizens Against Trafficking [Cidadãos Contra o Tráfico]

Texto original:
https://www.academia.edu/4847671/Sex_Trafficking_of_Women_for_the_Production_of_Pornography

Ilustração do texto: Melina Bassoli

Melina Bassoli

Professora, Socióloga e Artista - Visitem: http://estudioartemel.tumblr.com; http://cachalotepublicacoes.tumblr.com; http://leiamulheres.tumblr.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *