somos todas pornográficas
somos todas pornográficas

Sobre como a pornografia tem modelado o conceito de feminilidade e colocado um alvo em nossas testas

13h00 de uma sexta-feira

Estou na copa do trabalho almoçando com colegas. Uma amiga prepara a própria refeição e parece um pouco encabulada enquanto pega talheres e tudo o que precisa. Ela está com uma bermuda branca que é um tanto transparente. Podia perceber, por isso, que ela usava uma espécie de calcinha fio dental.

Lembrei que sempre que eu via mulheres na rua com calças mais transparentes, elas estavam de fio dental. Ou seja: elas sabiam que eram transparentes e, por isso, se preocupavam em escolher até a roupa de baixo. A que combinava, a que ficava bem, que calhou ser apenas calcinha fio dental sempre. Nós temos noção que estamos sendo observadas o tempo todo. E incorporamos o padrão que esperam que nós usemos nas ruas. E o padrão é o padrão de uma cultura pornificada.

23h00 da mesma sexta-feira

Estou no trem voltando para casa de um dia longo de trabalho e reunião com o coletivo feminista. Como é sexta-feira, metade do trem está ocupada por pessoas com ar cansado, como o meu, e a outra metade por jovens que iam para a noitada. Paramos numa estação, entram dois homens de meia idade e um senta-se à minha frente. Entra também um grupo de jovens africanas super arranjadas e feminilizadas.

Os homens perto de mim conversam entre si, mas estão constantemente a olhar para elas. Para os seios e as bundas, especificamente. O tempo todo. O-tempo-todo. Algumas estações depois, duas delas se levantam para sair. O homem à minha frente olha fixamente para a bunda de uma delas com um sorriso malicioso no rosto. O outro reforça. Eles fazem comentários inaudíveis, mas fáceis de presumir pela expressão. Eu os encaro fixamente de cara fechada. As mulheres descem, o homem à minha frente passa o resto da viagem desviando o olhar de mim, mas sempre volta a olhar a bunda de outras mulheres que descem nas demais estações.

Uma tarde qualquer há 7 anos atrás

Estava na sala da casa que eu dividia com mais 9 amigos. Estávamos conversando, eu era a única mulher presente. Sempre conversamos de tudo uns com os outros e nos considerávamos muito mente aberta, todos com idades entre os 20 a 24 anos, mas não tão politizados como gostaríamos ou imaginávamos ser. Surge uma conversa sobre a última aula de educação que tivéramos juntos na faculdade. Um deles comenta sobre a aluna nova.

– Com todo respeito, Mica, não me leve a mal — começou se dirigindo a mim e depois de volta aos outros — mas… que bunda é aquela? Meu Deus do céu, velho! — comentou meu amigo, fazendo um sinal com as mãos e uma expressão de deleite sonhadora.

Os outros riam, faltavam babar. A conversa segue:

– Mica, tampe os ouvidos pro que eu vou falar agora, mas é a verdade. Eu só imagino aquela bunda de quatro na minha frente, velho. Não posso, é mulher demais pra mim. Acho que eu nem aguentava. Que bunda é aquela? Porque sinceramente é isso que a gente pensa quando olha pra bunda de mulher na rua.

Os outros concordam sem nunca deixarem de rir, endossando o que meu amigo dizia sem qualquer pudor ou reflexão sobre estar ali uma mulher presente. Eu. Outro amigo assinou embaixo:

– É, vocês achavam que era o quê? Claro que é isso que a gente pensa. Todo homem pensa isso.

Lembrei de uma aula no último ano do ensino médio em que meu professor de biologia tinha falado exatamente a mesma coisa para uma sala cheia de jovens de 16 a 18 anos. Devia ser verdade.

Da estação para casa, novamente 2018

Além de vir emanando ódio do homem à minha frente que tinha olhado fixamente para cada bunda de cada mulher no trem, aquele olhar que hiperssexualiza, que objetifica, que olha para cada mulher, que está ali simplesmente a transitar na sua vida cotidiana, como se fosse ela própria uma cena de filme pornô, aquilo me fez recordar de todas as vezes, desde muito criança, que andei na rua com medo e certeza de estar sendo observada.

Eu evitava comer banana, picolé ou qualquer coisa fálica na rua para evitar olhares maliciosos e comentários de assédio sexual — desde os 10 anos de idade. Eu evitava até mesmo abaixar para amarrar o cadarços. Até para isso havia um cuidado, para não deixar a bunda levantada, para que não me olhassem.Ou seja: a certeza de que você é o tempo todo observada e sexualizada, pornificada, coloca a mulher desde criança em uma situação de vigilância constante. Nós estamos nos corrigindo o tempo todo, quando não é algo que possamos corrigir — afinal, a objetificação e sexualização não parte de nós, mas do outro.

Naquele turbilhão de pensamentos, entre recordações de momentos em que eu própria tinha sido sexualizada — ainda que muito criança — e leituras feministas que voltavam à memória e pareciam encaixar como peças perfeitas de um puzzle, desci do trem para fazer o caminho até minha casa. Para ir embora, tinha de fazer quase toda a avenida principal, onde existem muitas lojas de roupas. Fui olhando as manequins em suas formas femininas, suas curvas exageradas e suas poses super feminilizadas evidenciando bundas e seios. Via suas roupas, geralmente transparentes ou feitas para acentuar alguma característica, como as curvas da cintura ou da bunda. Muitas vezes com frases sobre ser sexy ou linda.

Olhava as propagandas nos outdoors, os pôsteres de festas ilegalmente colados às paredes e os banners nas calçadas. Era como folhear uma revista Caras ou Playboy. Todas mulheres hiperssexualizadas. Mas nenhuma dessas propagandas eram sobre novos filmes pornôs ou revistas pornográficas. Eram propagandas de empresas e produtos comuns do dia a dia. Essa era a nossa referência padrão de mulher, é claro. Não havia mulheres comuns, como eu, de jeans e tênis. Ou como minhas amigas lésbicas, de camisetão e bermuda.

Lembrei de um texto onde a autora Gail Dines dizia:

“A realidade é que as mulheres não precisam assistir pornografia para serem profundamente afetadas por ela, porque imagens, representações e mensagens de pornografia agora são entregues às mulheres via cultura pop.As mulheres de hoje ainda não são grandes consumidoras de pornografia hardcore; elas estão, no entanto, quer saibam quer não, internalizando a ideologia pornográfica, uma ideologia que muitas vezes se disfarça de conselho sobre como ser gostosa, rebelde e legal para atrair e segurar um homem. (…) Mas o que é diferente hoje não é apenas a hipersexualização da imagem, mas também o grau em que essas imagens se sobrepuseram e excluíram quaisquer imagens alternativas de ser mulher.”

Isso me enchia de raiva. Pensar que nós consumíamos e consumimos sim essas referências por N meios e as imitamos quer queiramos quer não, saibamos ou não, e como isso se volta contra nós, uma vez que essas referências todas vêm de um mercado cujo público-alvo é o homem. A pornografia é a educação sexual da maioria dos homens e a indústria pornográfica é um mercado de, por e para homens.

“…a pornografia institucionaliza a sexualidade da supremacia masculina, que funde a erotização da dominação e submissão com a construção social do macho e da fêmea. O gênero é sexual. A pornografia constitui o significado dessa sexualidade. Homens tratam as mulheres como quem eles vêem que as mulheres são. A pornografia constrói esse “quem”. O poder dos homens sobre as mulheres significa que o modo que o homem vê as mulheres define quem elas podem ser. A pornografia é esse modo.”
(Catharine MacKinnon)

Sim, a pornografia ensina aos homens como olhar para as mulheres, o que olhar nas mulheres e, principalmente, a sexualizarem aquilo que veem. Aquilo, não aquela. Se ele não olha da mesma forma para outros homens, isso evidencia um padrão duplo: há pessoas que são vistas como pessoas, como sujeitos, como seres humanos funcionais com subjetividade. E há as demais. As outras. Aquelas que são vistas como bundas, peitos, curvas, bocas. Aquelas que não são vistas como alguém com subjetividade, mas como um objeto que provoca excitação e prazer. Um objeto sexual. As mulheres reduzidas a fetiches masculinos.

As câmaras na pornografia são direcionadas para focar lugares muito específicos, de modo que toda a mulher nela é reduzida a uma bunda, uma vagina, seios. Muitas vezes, o direcionamento da câmera é reforçado por cores: os lábios assinalados com gloss e batons de cores vibrantes, os seios com algum enfeite chamativo, a vagina e ânus com alguma cor diferente que destaca — tudo artificial e tudo de modo que eles não tirem os olhos, que eles saibam para onde olhar, que eles saibam onde fixar e o que pensar quando olham para aquilo. Sempre que ele vê esta cena, ele a relaciona com excitação sexual. Com prazer. Com orgasmo. Por que ele olharia para as mulheres na “vida real” de forma diferente, tendo o olhar treinado por anos de consumo?

E é aqui que as linhas ficam borradas. Certa vez, vi uma reportagem no jornal sobre um homem que foi preso se masturbando em público para mulheres que apenas transitavam. O jornalista perguntou a uma convidada o que ela achava disso e a mulher, especialista em alguma coisa que já não me lembro, respondeu: “São homens que consomem tanta pornografia que não sabem dissociar a fantasia da realidade”.

Eu concordo na parte de serem homens que consomem uma quantidade absurda de pornografia. Afinal, em algum lugar ele precisa ter aprendido aquilo, a tratar mulheres assim, a ligar mulheres com masturbação. Mas discordo sobre dissociar fantasia de realidade. A pornografia não é fantasia. São mulheres reais sendo usadas e abusadas naqueles vídeos. Como ele poderia dissociar uma mulher real de outra? A pornografia não confunde esses limites: esses limites é que não existem.

Na pornografia, há todo tipo de mulher: brancas, negras, indígenas, árabes, chinesas, magras, gordas, velhas, crianças, mães. Não há uma de nós que escape à sexualização e objetificação da indústria pornográfica. Por que esperam que eles dissociem aquelas mulheres de todas as outras? Somos o mesmo grupo a quem se faz as mesmas coisas. As mesmas posições, as mesmas roupas, os mesmos sinais, as mesmas mensagens: me foda, me machuque, me use, se esfregue em mim, eu quero ser usada, eu quero ser humilhada, eu quero ser machucada, eu gosto de ser maltratada e sinto prazer quando você me rebaixa a um nível muito abaixo de humanidade.

Quando homens consomem isso, chamam de “vida privada” porque é feito entre quatro paredes. Mas uma pessoa não é alguém completamente diferente só porque está com a porta fechada.

Esta divisão público-privada normalmente significa quão vulnerável as mulheres estão: atos de violência feitos na “vida privada” são considerados sexo, mas se fossem feitos lá fora com qualquer outra pessoa provavelmente seriam atos repugnantes dignos de indignação pública. Muita coisa chamada de “sexo” nesse espaço que homens chamam de “vida privada” seriam chamados de “tortura” no espaço da vida pública. Atos de humilhação, espancamento, racismo e misoginia que seriam intoleráveis em qualquer situação — mas são completamente protegidos se uma câmera de vídeo filmar. Porque aí é “vida privada”.

A divisão de “vida privada” e “vida pública”, para as mulheres, nunca significou mais do que o grau de vulnerabilidade sexual a que ela estava exposta.

Dentro de casa, onde vivemos os mais altos níveis de assédio e feminicídio — ou fora dela, onde podemos ser vendidas, compradas, abusadas. E segue o baile.

Então esses meninos, esses jovens, esses homens adultos — essas pessoas do sexo masculino de diferentes idades — crescem consumindo esse tipo de “educação sexual”, esse tipo de imagem sobre as mulheres todos os dias, sequencialmente, rotineiramente, e aprendem a relacionar isso com poder, com orgasmo, com prazer, com domínio e com virilidade. Com algo que atesta e reforça o seu poder social entre o grupo de amigos e entre a sociedade de modo geral. E ele aprende como deve olhar as mulheres. Ele sabe o que é esperado que ele faça com mulheres e como deve fazer. E os sites de pornografia passam essa mensagem muito claramente.

Na pornografia, as mulheres ficam excitadas quando eles assediam no transporte público, na rua, em casa. Elas querem que o assédio progrida. Elas querem ser alvos de assédio. Elas querem ser amarradas e abusadas. Elas querem. Na pornografia, mulheres sentem prazer em ser violentamente usadas e abusadas. Até chorar, até engasgar, até sangrar, até literalmente uma parte de seu corpo sair do lugar. Eu não estou inventando nada aqui, estou meramente citando categorias comuns, totalmente mainstream de pornografia acessada aos milhões na internet todos os minutos: chocking, gagging, anal rosebud. Veja por si, não precisa confiar na minha palavra.

Quando entramos num site porno, o que vemos são bundas e peitos e vaginas. Sendo invadidos por um pênis. Os homens são pênis eretos, nunca vemos o seu rosto. As mulheres são sempre bundas e vaginas e peitos — seu rosto só aparece quando envolve chupar alguém ou algo ou para mostrar como ela gosta ou como está sentindo dor — e isso é suposto ser muito excitante. E é suposto ela gostar. E os homens veem isso numa base diária. E eles acreditam. E eles consomem. E gostam. E se masturbam para essas mensagens. Depois saem da sua “vida privada” e convivem com todas as outras mulheres, exatamente como aquela, mas da “vida real”.

Isso cria uma linha divisória: as mulheres a quem se pode fazer isso e “as outras” A velha classificação da “puta” e “santa”, a “mulher de bem” e a “promíscua”. Aquela que merece e que pediu e aquela a quem é imoral fazer isso. Normalmente, as mulheres a quem não se pode fazer isso são aquelas que orbitam em torno do homem, no seu círculo social: sua mãe, suas irmãs, sobrinhas, amigas.O problema é que somos sempre “as outras” de outros homens.

E o problema ainda maior é que na pornografia mães, irmãs, sobrinhas, amigas, primas, enteadas, vizinhas — todas nós — também somos alvos. Comuns. E depois justificam com as roupas e o comportamento, a forma que ela andava, que ela falava, que ela se movia — afinal, mulheres que vestem assim, usam isso ou aquilo e fazem assim ou assado querem. Como eles sabem? De onde vem essa premissa? Você sabe. Eu também.

E então você me diz “mas isso é culpabilizar a mulher, roupas não estupram”. Não, roupas não estupram. Tanto que países islâmicos tem os maiores índices de estupros do mundo — e a culpa é do rímel embaixo da burca, é claro.

Não é culpa da mulher que as roupas que ela tenha escolhido sejam exatamente as roupas sexualizadas na pornografia que dizem aos homens que ela quer. Eu não estou interessada em encontrar a culpa. A questão aqui é que, como disse Gail Dines, a imagem pornográfica sobre a mulher está de tal forma disseminada que ela excluiu qualquer alternativa de “ser mulher”. Qualquer roupa “destinada” às mulheres, em qualquer cultura, é a roupa que é sexualizada. O gênero é sexualizado. É indiferente a roupa ser curta ou longa, basta ser identificada como “feminina”.

Um domingo na praia

Tarde de domingo, calor de rachar. Fui à praia com meu filho de quatro anos e alguns amigos. Enquanto estava sentada na areia distraída, um amigo comenta baixinho “mas quem escolheu o calção desse menino?”. À sua esquerda, um menino de +- 8 anos segurava uma bola. A sunga dele estava bastante puxada para cima, dos dois lados, fazendo parecer um detalhe franzido e como se a peça de banho fosse cavada para não cobrir a bunda toda. Além disso, estava um pouco “pra dentro”. Isso tudo dava um aspecto um pouco sexualizado, mas isso não sexualizava o menino, apenas parecia ridículo.

Meu amigo riu disfarçadamente. Eu esbocei um sorriso, mas fui tomada por um pensamento: parecia uma calcinha de biquini completamente normal para uma mulher ou uma menina. E muitas na praia realmente tinham peças parecidas em tamanho adulto ou até menores, de outras cores ou não. E não parecia ridículo nelas. Parecia… sexy. É inevitável admitir que as roupas moldam o olhar para a percepção do que é sexy e o que não é. Mas as roupas têm esse poder de sexualizar apenas por serem roupas? Ou são as nossas referências do que é sexual e sexy e excitante que tornam isso em realidade?

Um crush, um assédio

Uma tarde qualquer nos meus 12 anos. Apaixonada pelo “menino novo” da rua. Ele tinha 15. Eu me “arrumava” para estar na rua quando sabia que ele estaria lá pra me ver. Ele não me dava muita atenção, só tinha olhos para as meninas um pouco mais velhas da rua de cima — que estavam sempre “gostosas”, usavam piercings, falavam de sexo e dançavam funk sensualizando como a cartilha dizia. Eu vinha de uma educação conservadora. Uma das vezes que saí “arrumada”, saí com um vestido completamente infantil. Não funcionou.

Um dia, sabendo que ele estaria na rua, saí com o que eu considerei, na altura, a minha roupa mais bonita. A que me deixava mais bonita. Era uma blusa colorida que deixava a barriga à mostra e uma minissaia jeans. Eu não assistia pornô, nunca tinha visto uma revista pornográfica, eu nunca tinha sequer beijado na boca. Mas lembro de ele passar reto por mim na rua e eu me perguntar, desolada: “por que ele não me olhou? eu estou com a roupa certa”.

Levou muitos anos para eu me perguntar o que me fez pensar que aquela era a “roupa certa” para um menino me notar e como esse input foi parar na minha cabeça aos 12 anos.

2 anos depois, aos 14 — depois de já ter ultrapassado minha paixonite infantil que obviamente nunca evoluiu para nada — eu era agora a “moleca”. Calças largas, allstar, blusa comprida. Sem maquiagem, sem brincos, sem nada do tipo — coisa que as meninas das minhas salas de aula usavam e abusavam, altura da puberdade e todas queriam ser lindas. Eu era “menino”.

Eu chamava aquilo de estilo na altura, mas já sabia que era algo mais. Hoje consigo admitir e analisar para mim mesma que era uma saída desesperada depois de quase 10 anos de assédio sexual, com um homem adulto que me acariciava sempre que podia, passava a mão nas minhas pernas sempre que tinha a oportunidade, tentava por a mão por baixo das minhas blusas (mesmo eu não tendo peitos à altura) e tentando pegar minha bunda. Hoje eu tenho plena consciência que as roupas compridas eram uma tentativa de esconder o corpo, me esconder do assédio. Não que eu achasse que a roupa provocava, mas não queria que eles tivessem acesso apenas — como quando eu estava de shorts e passavam a mão na minha perna.

Eu não me culpava nem culpava as roupas. Mas como eu já sabia, aos 12, que roupas curtas chamavam a atenção dos homens e faziam eles nos olharem; e, aos 14, que roupas largas talvez me ajudassem a passar sem o interesse deles? Onde aprendi isso? Por que cheguei a essa conclusão nesse contexto?

Eu passei a olhar para as amigas lésbicas masculinizadas, as meninas hétero entrando na puberdade em sua feminilidade exagerada, as mulheres e jovens adultas heterossexuais que se preocupavam em depilar, vestir assim ou assado quando iam para a noite com intenção de encontrar alguém (mas obviamente não faziam o mesmo quando estavam à vontade em casa) e comecei a achar que aquilo era um consenso geral. Todos sabiam, ninguém falava. Era inconveniente falar. Era errado falar. Era culpar as mulheres.

Não é sobre culpa, é sobre submissão.

Corta para 2018

Nas lojas de roupas, é praticamente impossível encontrar peças minimamente transparentes na seção masculina. Na seção feminina é o que mais tem.

E reforço: não é que as roupas vão provocar algum tipo de reação. Como se fossem tão sexy que os homens não pudessem se controlar (ah, aquela velha desculpa do instinto animal!). Mas é que nessa cultura são essas as roupas sexualizadas. E essas peças são exclusivamente para mulheres. Olhe para a prostituição de rua e observe quais são as peças escolhidas, propositadamente, para “chamar clientes” e atrair a atenção. Não só por mulheres, mas principalmente homens travestis que encarnam a sua própria visão e a visão social de como é uma mulher — eis a sua resposta.

As roupas femininas são apenas parte do conjunto da feminilidade, mas essenciais para rotular o lugar que ocupamos socialmente, nos categoriza e define o que pode ser feito à nós, enquanto categoria.

Não estou inventando a roda aqui: as roupas foram usadas para hierarquizar desde sempre. As roupas distinguiam pobres de ricos na antiguidade, na Idade Média. As prostitutas, por exemplo, mulheres considerada “humiliores” (de classe baixa ou imorais) na Antiguidade, usavam lenços que eram usados para identificar mulheres em situação de prostituição. Também durante o período em que se forja a imagem de infância que temos hoje, as roupas também faziam a divisão de classe econômica e de sexo (ver: A Dialética do Sexo, Shulamith Firestone). Hoje, ainda mais que nunca, de forma extremamente sexista. Basta ver quantos estupros são justificados com a roupa da vítima. Ou o outro oposto: os estupros corretivos às lésbicas que recusam a feminilidade para “aprenderem a ser mulheres” ou espancadas porque “se querem se parecer como um homem, vão apanhar como um”. Ou de homens gays afeminados, violados porque “querem ser mulherzinhas” ou espancados “para deixar de ser mulherzinha”.

E se sabemos de tudo isso, por que não recusamos esse padrão? Por que continuamos a reproduzi-lo? Por que insistimos em endossar a feminilidade?

Nós precisamos combater a indústria pornográfica, não tem outro jeito. Mas também precisamos rejeitar os lugares que nos confinaram e isso necessariamente, inevitavelmente — sob o risco de sermos hipócritas e prejudicarmos nossa própria pauta — implica rejeitar a feminilidade.

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