Visível ou Invisível: crescer fêmea numa cultura pornificada

A moda também está pegando mais pistas estéticas do pornô, incluindo a crescente popularidade do piercing genital e da depilação, que foi popularizada por atores de filmes adultos. Artigo no Los Angeles Times

Numa palestra que eu estava ministrando em uma grande universidade da Costa Oeste na primavera de 2008, as alunas falavam extensivamente sobre o quanto elas preferiam ter uma área púbica completamente depilada, uma vez que elas se sentiam “limpas”, “gostosas” e “bem cuidadas”. Como elas animadamente insistiram que elas mesmas escolheram faz uma depilação brasileira[1], uma estudante deixou escapar que o namorado dela reclamou quando ela decidiu desistir da depilação.

Então houve silêncio.

Pedi que a estudante dissesse mais sobre as preferências do namorado e como ela se sentia sobre as críticas dele. Quando ela começou a falar, outras alunas se juntaram, só que agora a conversa tomara um rumo muito diferente. A empolgação na sala deu lugar a uma discussão moderada sobre como alguns namorados se recusaram a fazer sexo com namoradas sem depilar porque “pareciam nojentas”. Uma aluna contou ao grupo como o namorado dela comprou um kit de cera para o Dia dos Namorados, enquanto outro enviava um e-mail para seus amigos fazendo piada sobre o “castor peludo” de sua namorada. Não, ela não terminou com ele, em vez disso ela se depilou.

Duas semanas após a discussão, eu estava em uma escola da Costa Leste da Ivy League, onde algumas alunas ficaram cada vez mais irritadas. Elas me acusaram de negar a liberdade de escolha delas em adotar nossa cultura pornográfica hipersexualizada. Como mulheres da elite da próxima geração, essa ideia era especialmente repugnante porque elas não viam limites ou restrições nisso enquanto mulheres.

Literalmente dois minutos depois, uma das alunas fez uma piada sobre o “truque” que muitas delas usavam como uma forma de evitar sexo. Que truque é esse? Essas mulheres não se depilam ou engordam de propósito quando estão se preparando para sair naquela noite, então elas se sentirão envergonhadas demais para fazer sexo. Enquanto ela falava, vi como as outras acenavam a cabeça em concordância. Quando perguntei por que elas não podiam simplesmente dizer não ao sexo, elas me informaram que, depois que você toma algumas bebidas e está em uma festa ou num bar, é muito difícil dizer não.

Eu fiquei sem palavras, não apenas porque elas tinham acabado de argumentar que eu havia lhes negado agência na minha discussão sobre cultura pornográfica, e ainda assim elas não viram nenhuma contradição em me dizer que elas não tinham a agência para dizer não ao sexo. No dia seguinte, voei para Utah para dar uma palestra em uma pequena faculdade, que, embora não fosse uma faculdade religiosa, tinha uma boa porcentagem de mórmons e católicas. Contei sobre a palestra da noite anterior e perguntei se elas sabiam qual era o truque. Acontece que o truque está em toda parte, incluindo Utah.

Eu conto essa história porque, em muitos níveis, capta nitidamente como a cultura pornográfica está afetando a vida das mulheres jovens.

A realidade é que as mulheres não precisam assistir pornografia para serem profundamente afetadas por ela, porque imagens, representações e mensagens de pornografia agora são entregues às mulheres via cultura pop.

As mulheres de hoje ainda não são grandes consumidoras de pornografia hard-core; elas estão, no entanto, quer saibam quer não, internalizando a ideologia pornográfica, uma ideologia que muitas vezes se disfarça de conselho sobre como ser gostosa, rebelde e legal para atrair e segurar um homem.

Um excelente exemplo é a depilação genital, que se tornou popular na pornografia (principalmente porque faz as mulheres parecerem pré-púberes) e depois foi filtrada para os media femininos como a Cosmopolitan, uma revista que regularmente apresenta histórias e dicas e tutoriais com métodos que as mulheres devem adotar para atrair um homem. Sex and the City, aquela série de enorme sucesso, com seguidoras quase cultuadas, também usava depilação como um enredo. Por exemplo, no filme, Miranda é repreendida por Samantha por “se deixar” ter pêlos pubianos.

The Stepford Wife, que levou gerações anteriores de mulheres à loucura com seus pisos cintilantes e refeições perfeitamente orquestradas praticamente desapareceu, e em seu lugar agora temos a Stepford Slut; uma mulher hipersexualizada, jovem, magra, definida, sem pêlos, tecnologicamente e, em muitos casos, cirurgicamente aprimorada, com um olhar calmo no rosto.

Todas nós reconhecemos a aparência: lábios ligeiramente abertos, cabeça inclinada para o lado, olhos convidativos e um corpo contorcido para dar ao espectador (presumidamente homem) o máximo de direitos ao seu corpo. Harriet Nelson e June Cleaver se transformaram em Britney, Rhianna, Beyonce, Paris, Lindsay e assim por diante. Elas representam imagens de feminilidade idealizada contemporânea — em uma palavra, gostosa — que são apresentadas para as mulheres, especialmente mulheres jovens, para emular.

As mulheres de hoje ainda são cativas das imagens que acabam por contar mentiras sobre as mulheres. A maior mentira é que estar em conformidade com essa imagem hipersexualizada dará às mulheres poder real no mundo, já que em uma cultura pornográfica, nosso poder está, dizem, não em nossa capacidade de moldar as instituições que determinam nossas chances de vida, mas em ter um corpo “gostoso” que os homens desejam e as mulheres invejam.

Na atual cultura baseada em imagens, não há como escapar da imagem e não há trégua de seu poder quando ela é implacável em sua visibilidade. Se você acha que estou exagerando, folheie uma revista no caixa do supermercado, faça uma pesquisa nos canais, faça um passeio de carro para ver outdoors ou assista os anúncios na TV.

Muitas dessas imagens são celebridades — mulheres que rapidamente se tornaram as modelos de hoje. Enquanto enfeitam as páginas da People, da Caras, da Cosmopolitan e da Vogue, elas parecem conjugar toda a aparência gostosa sem esforço nenhum enquanto caminham pelo tapete vermelho, passeiam pelos corredores do supermercado ou vão às boates de Nova York e Cannes. Com sua riqueza, roupas de grife, casas caras e estilos de vida chamativos, essas mulheres parecem invejáveis para meninas e mulheres jovens, pois parecem incorporar um tipo de poder que demanda atenção e visibilidade.

…As pessoas que não estão imersas na cultura pop tendem a assumir que o que vemos hoje é apenas mais do mesmo material em que as gerações anteriores cresceram. Afinal, cada geração teve suas estrelas gostosas e sexies que levaram vidas caras e selvagens em comparação com o resto de nós.

Mas o que é diferente hoje não é apenas a hipersexualização da imagem, mas também o grau em que essas imagens se sobrepuseram e excluíram quaisquer imagens alternativas de ser mulher.

A onda atual de imagens pornográficas soft-core normalizou o visual da pornografia na cultura cotidiana a tal ponto que qualquer coisa menos parece desleixada, primitiva e completamente chata. Hoje, uma menina ou jovem procurando uma alternativa para a aparência de Britney, Paris, Lindsay logo chegará à triste conclusão de que a única alternativa a parecer “fodível” é ser invisível.


[1] Fora do Brasil, a remoção completa dos pêlos pubianos é conhecida como “depilação brasileira”, justamente por não ser uma prática tão comum em outras culturas que não a nossa. Como isso foi disseminado com uma identificação de nacionalidade? Muito possivelmente pela pornografia.


Fonte da imagem: https://www.glamour.com


Texto original de Gail Dines

http://www.butterfliesandwheels.org/2010/visible-or-invisible-growing-up-female-in-a-porn-culture/
GAIL DINES é professora de Sociologia e Estudos da Mulher no Wheelock College em Boston. Seu ultimo livro é “Pornland: How Porn Has Hijacked our Sexuality” (Beacon Press). Ela é membro fundadora da organização Stop Porn Culture (stoppornculture.org).

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