O que o Movimento de Mulheres Curdas ensina ao feminismo ocidental?

Hoje em dia, a busca moderna pela liberdade é baseada em símbolos capitalistas de sucesso. Em vez de realmente desafiar as hierarquias que criaram as divisões, as “mulheres modernas” conquistam poder individual formando pequenas conexões dentro dessas hierarquias. A ideia de que uma revolução feminista consiste em poucos privilégios materiais a mais ou estar em posições de autoridade choca-se com o propósito do feminismo enquanto beneficia seu oponente. Os símbolos capitalistas da liberdade – tais como dinheiro, status e autoridade – não têm valor real fora da exploração. Eles contribuem para as estruturas que desafiam a luta das mulheres por equidade. As mulheres que se conformam a essas ilusões de sucesso apenas performam a liberdade baseando-se em sua definição patriarcal em vez de praticá-la em sua essência. A separação entre mulheres continuará crescendo até que a ocidentalização da liberação feminina seja radicalmente desafiada e a imagem da “mulher moderna” não exclua mais as mulheres originárias e negras dos exemplos de emancipação feminina.

Por que as mulheres reproduzem ideais capitalistas como se fossem atos de liberdade moderna?

O feminismo dominante geralmente usa a experiência do macho como modelo para a liberdade feminina – seu status social, sua renda e mobilidade são dados como padrões. De qualquer modo, a imitação da autonomia do macho é também uma imitação dos mecanismos que contribuem para a desigualdade de gênero. Ainda assim, a mulher compete pela experiência masculina mesmo que ela esteja centrada na subjugação feminina. Enquanto as mulheres que competem podem ganhar certos títulos, tentar se beneficiar do Patriarcado ou “ganhar dos homens no jogo deles”, isso não promove uma solução significativa a longo prazo como quebrar as regras promove. A mulher moderna se apropriou e se adaptou à masculinidade como um método de sobrevivência na sociedade patriarcal. Comportamentos como desconexão emocional, egocentrismo e objetificação são encontrados até mesmo em mulheres e geralmente são expressados de maneira ressentida. As mulheres que estabelecem modelos de autoridade e dominação em suas relações em casa ou no trabalho são motivadas pelo desejo por poder. Essa abordagem foi inventada por homens que mascaram o poder como se fosse amor. Eles fizeram desse poder mascarado de amor uma força motivadora a manutenção de laços econômicos e sociais. Além disso, as mulheres oprimidas que buscam por poder querem estar o mais próximas possível daquilo que se percebe como autonomia em uma sociedade capitalista: e isso continua opressivo. Se continuarmos nesse caminho de autodecepção e exploração mútua sem nos definirmos fora do paradigma atual, a separação entre os seres humanos irá aumentar. Se, em vez de atacarmos umas às outras, atacarmos o capitalismo e o sexismo, não serviremos mais às necessidades do grande senhor de engenho que é o sistema enquanto nos cremos livres.

A transformação começa na educação

As mulheres que se conectam através de experiências compartilhadas de fortalecimento tornam possível a transformação. Apesar disso, o complexo de vítima é popular, principalmente entre mulheres brancas que são privilegiadas o suficiente para chamar de seus o sofrimento pessoal de outras mulheres. Pensando criticamente e entendendo as diferenças de opressão baseadas em classe, raça e bagagens geográficas, ajudaremos a reconhecer as lutas de mulheres não-ocidentais. O complexo narcisista de vitimização impede as mulheres de se responsabilizarem por acessarem suas poderosas fontes de conhecimento para superar a dominação masculina. Em vez disso, tal complexo mantém a passividade e necessidade de salvação que o feminismo deveria desafiar.

O feminismo ocidental tem sido excludente e tem restringido o entendimento e o empoderamento das mulheres ao redor do globo. Portanto, um dos aspectos mais revolucionários do Movimento de Mulheres Curdas é a Jineologia, a “ciência das mulheres” (“Jin” é uma palavra curda para “mulher”, derivada da palavra “jîn”, que significa “vida”). O pedaço que faltava sempre foi esse: uma plataforma educacional com um impacto transformador capaz de reorganizar as mulheres no movimento. A Jineologia traz uma consciência crítica para temas como ética, estética, economia, demografia, ecologia, história/história das mulheres, saúde, conhecimento e política – tudo a ser moldado a partir das necessidades específicas e circunstâncias da realidade onde os estudos acontecerão. O objetivo é criar a base científica que faltava à revolução das mulheres. Hoje, as mulheres de diferentes partes da sociedades são encorajadas a tecer suas experiências, emoções e sabedorias em um único tapete, que é a Jineologia. Uma ciência das mulheres proverá ferramentas educacionais que ajudam a emancipar mulheres e homens das estruturas de subjugação e dominação. Ela também criará uma irmandade entre mulheres que, coletivamente, desmantela o padrão mental patriarcal da sociedade, desafiando a noção capitalista da liberdade da mulher e abraçando as forças e recursos femininos.

A liberdade não é sexual, é erótica

“O erótico é um recurso interno localizado em uma profunda e fêmea espiritualidade, firmemente enraizado no poder dos nossos sentimentos não reconhecidos e não expressados.”¹ Suprimindo os signos femininos, o Patriarcado nega a mulheres e homens a habilidade de conexão com a consciência das emoções, moldando assim as estruturas dessensibilizadas do capitalismo. A objetificação masculina reduz o erótico ao pornográfico ou a qualquer outra “sensação sem sentimento”, quando, na verdade, “erótico” significa a personificação do amor em todos os seus aspectos. A palavra “erótico” vem da palavra grega “eros” e representa a força feminina da vida e seus poderes criativos. Assim como os homens reduzem o erotismo à pornografia, as feministas liberais reduzem liberdade a sexo. As mulheres modernas do Ocidente são celebradas por sua atividade sexual, e aquelas que decidem não seguir por esse caminho têm sua luta feminista deslegitimizada. Isso transforma a “liberação sexual”, que é a liberdade de moldar sua própria vida sexual, em “obsessão sexual”, que pressiona as mulheres a se submeterem aos padrões ocidentais². De qualquer modo, até que as mulheres estejam emocionalmente e mentalmente emancipadas, a liberdade sexual não é possível.

Ao abraçar o erótico, as mulheres tendem a se comprometer de modo mais efetivo e profundo, refletindo isso na sociedade. O reconhecimento do erótico é o começo da relação das mulheres com a vida baseada em um senso de self mais real, a partir do qual elas podem tomar decisões que as fazem sentir melhores consigo mesmas e a encontrar alegrias mais duradouras a partir dessas decisões. É começar a fazer amor fora da cama e a experimentar prazer em mais do que no aspecto sexual. Ser erótica significa abandonar a esterilidade do capitalismo moderno, dando à luz nova vida por meio de poesias, pinturas, amizades e projetos políticos. Os homens que deixarem de temer os conhecimentos profundos das mulheres acerca das emoções humanas poderão entrar em contato com essa energia erótica dentro deles mesmos, e finalmente saberão que a vida é repleta de desejos recheados de propósito e compaixão. O erótico é a liberdade de ser. Uma liberdade verdadeira porque não é sexual e nem política. É física e sentida.


Notas

1 Lorde, Audre. Sister Outsider (Chapter: Power of the erotic)
2 Hooks, Bell. Feminist Theory


Artigo de autoria da Lave Hadji traduzido da newsletter XWEBUN.
Material produzido por mãos femininas da juventude curda. 
Livre tradução: Natacha Orestes aka #ProjetoHisteria (@brasilcontrasap no Instagram).

Lave Hadji (@lavehadji no instagram) é uma ativista do Movimento de Mulheres Curdas. Ela é membra do comitê de Jineologia na Europa e recém graduada no departamento de Antropologia Social da Universidade de Estocolmo.

Natasha Orestes

Natacha Orestes aka #ProjetoHisteria (@brasilcontrasap no Instagram).

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