‘Precisamos ser mais corajosas’ — mulheres que desafiam a “identidade de gênero” e o silenciamento do discurso feminista
‘Precisamos ser mais corajosas’ — mulheres que desafiam a “identidade de gênero” e o silenciamento do discurso feminista

mulheres que desafiam a “identidade de gênero” e o silenciamento do discurso feminista

Mulheres que desafiam o discurso atual sobre “identidade de gênero” têm sido largamente isoladas nas frentes de batalha na última década. Feministas liberais e progressistas já escolheram as políticas identitárias no lugar do feminismo algumas vezes e essa não é uma exceção. Aqueles não envolvidos na libertação das mulheres estão bem esclarecidos de que o poder que buscam não será encontrado apoiando o movimento independente de mulheres, e muitos nem sequer pensaram o suficiente sobre as raízes do patriarcado para entender contra o quê estamos lutando em primeiro lugar. Mas mesmo aquelas que cujas políticas se baseiam nos princípios feministas radicais já se sentiram temerosas de criticar publicamente o dogma do discurso da identidade de gênero. Nós estamos muito avisadas de que se recusar a aceitar e a repetir os mantras comumente aceitos, te posicionam do lado errado da moderna caça às bruxas.

Eu não nego que senti medo, por muitos anos, de tomar uma posição firme em relação ao discurso acerca da identidade de gênero e das políticas trans, apesar de ter a opinião de que espaços exclusivos e liberdade de organização são centrais para o movimento feminista e para apoiar mulheres que se recuperam da violência masculina.

Na verdade, por muitos anos, eu não estive certa de qual era a minha posição e temia que ao falar publicamente contra a naturalização de papéis de gênero sexistas, que se tornaram aliados do que hoje é chamado de “direitos trans”, seria uma distração ao meu trabalho contra a indústria do sexo e a violência contra a mulher. Punições por questionar as políticas trans incluem a perda de empregos, censura, lista negra e até ser pessoalmente ameaçada ou atacada por ativistas trans e ostracismo social — tudo que impede que mulheres se posicionem. (Eu já sofri muitas dessas punições por não seguir as indicações à risca e ao me alinhar com mulheres rotuladas “TERFs” ou “transfóbicas.”)

Vivemos em um tempo em que as ideias feministas mais básicas se tornaram proibidas, enquanto retóricas anti-feministas são altamente aceitas e até celebradas por aqueles que clamam ser ativistas da justiça social e progressistas.

Apesar dos riscos, eu não posso, em boa fé, apoiar uma noção neoliberal e individualista de “identidade de gênero” — não enquanto feminista que compreende como o patriarcado se construiu e como ele continua a prevalecer, ou enquanto uma pessoa de esquerda que entende como os sistemas de poder funcionam. Eu não pretendo me silenciar ao esbarrar com um discurso anti-feminista e retrógrado porque eu sei que meu silêncio não contribui para que outras mulheres falem abertamente. Eu não pretendo abandonar minhas irmãs que já sofreram imensamente por terem falado abertamente.

Em julho, uma conferência organizada por Julia Long aconteceu em Conway Hall, Londres, Reino Unido — o objetivo era questionar o inquestionável. Pensando Diferente: Feministas Questionam as Políticas de Gênero contou com palestrantes feministas como Sheila Jeffreys, Lierre Keith, Julie Bindel, Stephanie Davies-Arai, Mary Lou Singleton, Jackie Mearns, Magdalen Berns, e a própria Long. Elas discutiram o silenciamento de discursos feministas que tem acontecido dentro do Reino Unido (e em outros países), assim como o impacto do discurso trans na contínua luta pelos direitos das mulheres e em relação a libertação feminina do patriarcado. Gravações em vídeo das palestras foram liberadas semana passada.

Sheila Jeffreys argumenta em sua fala que a “transgeneridade é uma invenção que foi socialmente e politicamente construída,” e que isso, ao invés de ser inato, existe em direta conexão com as forças de poder que existem na sociedade heteropatriarcal.

Jeffreys conecta a noção de “identidade de gênero” com o neoliberalismo americano em que ambos são, claro, uma noção bastante individualista, mas também fala de como essa noção se conecta com o capitalismo e a galinha dos ovos de ouro que a transgeneridade representa para a indústria farmacêutica, para os terapeutas e clínicas de identidade de gênero, e os cirurgiões estéticos. Parece estranho discutir identidade de gênero fora do contexto capitalista, considerando como os termos “identidade” e “expressão” estão intimamente ligados na sociedade moderna ao consumismo. A feminilidade em si foi comercializada para as mulheres durante décadas de forma completamente sexista, mas ainda assim, esperam que aceitemos repentinamente produtos cosméticos como “empoderadores” porque homens os clamam como parte de sua “expressão de gênero” feminina.

De fato, Jeffreys sugere que feministas deixem de usar o termo “gênero” por completo. Ela diz que “precisamos falar sobre as classes ou castas sexuais” uma vez que “gênero” se tornou um termo sem significado e combinado com o sentido de sexo biológico.

Enquanto feministas, o que realmente estamos fazendo é trabalhar para extinguir o gênero — algo que foi inventado e imposto para se naturalizar a hierarquia das classes sexuais que põe o homem como dominante e a mulher como subordinada. Temos que nos perguntar o quão progressistas é, de uma perspectiva feminista, aceitar uma ideia de que o gênero é ao mesmo tempo real e inato — algo que pode ter nascido com a pessoa, ao mesmo tempo que essa é precisamente a tática usada historicamente por homens para defender a ideia de que mulheres não devem ter direito de voto, trabalhar fora de casa, ou possuir posições de poder na sociedade. Mulheres foram construídas como naturalmente “femininas”, o que significa que somos muito emotivas, racionais e fracas para nos envolvermos com a esfera pública como os homens o fazem. Homens, em contraste, são encarados como mais adaptados para as atividades públicas e posições de poder como se fossem naturalmente assertivos, racionais, sem emoções e duros.

Enquanto feministas (e sociedade), estamos mesmo confortáveis em andar para trás dessa maneira, aceitando os papéis de gênero (que existem para naturalizar e reforçar o sexismo) como inatos ao invés de socialmente construídos?

“Cis” é outro termo que foi adotado por aqueles que desejam se enxergar ou se apresentar como progressistas, mas é rejeitado pelas feministas radicais. “Cis”, nos disseram, significa “uma pessoa cuja identidade de gênero está em conformidade com o gênero que corresponde ao sexo biológico.” Portanto, uma mulher “cis” seria uma mulher que se identifica com feminilidade, algo que eu definitivamente não me identifico, nem muitas outras mulheres. Eu rejeito a noção de feminilidade e portanto rejeito a noção de que mulheres que tiveram a feminilidade imposta a elas possuem algum tipo de privilégio ou são naturalmente inclinadas ao status de subordinação. “Cis” é um termo retrógrado, porque ele finge que mulheres de alguma forma se identificam com a própria opressão. Não obstante, mulheres que rejeitam o termo são rotuladas de “transfóbicas” — outra forma de silenciar e desautorizar o discurso feminista e o questionamento geral das políticas de gênero.

Assim como Jeffreys, Lierre Keith faz a ligação entre o conceito de identidade de gênero com o liberalismo, apontando em sua fala que radicais entendem que “a sociedade é organizada por sistemas de poder concretos, não por pensamentos ou ideias.” Portanto, ela continua, “a solução para as opressões é acabar com esses sistemas.” Ela aponta que o racismo foi reforçado por meio de propaganda que dizia que pessoas negras eram naturalmente inferiores, da mesma forma que mulheres e trabalhadores são tratados como tendo simplesmente cérebros inferiores, naturalizando efetivamente a desigualdade. Gênero, assim como classe e raça, não é um binário, mas uma hierarquia.

Keith sabe melhor do que ninguém como é aterrorizante falar abertamente. “Minha carreira acabou,” ela diz. “Eu nunca posso falar em universidades — mesmo quando sou convidada, dentro de duas semanas eles retiram o convite.” Ela compara essa onda com o McCarthyismo, dizendo, “Existe essa censura no debate público — você tem que seguir uma certa linha.”

Julie Bindel, uma reconhecida jornalista feminista, foi oficialmente silenciada pela União Nacional dos Estudantes (NUS). Ela explica, em sua fala, que uma petição contra ela, sabatinada em uma conferência da NUS, dizia apenas “Julie Bindel é vil.” Seus crimes incluem um artigo escrito por ela, que apoiava o abrigo à vítimas de estupro de Vancouver a definir seus próprios membros, depois que Kimberly Nixon, um homem que se identifica como transgênero, ameaçou processar o antigo abrigo para vítimas de estupro depois de recusarem a oferecer treinamento para que ele se tornasse um conselheiro para vítimas, o abrigo argumentou contra os estereótipos sexistas pelos quais transgeneridade parece ser definida. O vilipêndio em cima de Bindel também é baseado, ela explica, em um artigo de 2007 em que ela escreveu sobre pessoas trans que foram pressionadas e depois se arrependeram de fazer a cirurgia de “redesignação sexual”.

Muitas mulheres se recusaram a apoiar Bindel na época por conta do medo, e muitas feministas ainda, ela diz, não podem convidar Bindel para suas conferências com medo dos programas serem interrompidos. “Não é dessa forma que deveríamos estar discutindo feminismo,” ela diz. “Estamos deixando para trás jovens mulheres nas universidades que estão desesperadas para se tornarem feministas radicais assumidas e orgulhosas e não podem.” Apesar do que muitos acreditam, esse silenciamento do discurso não significa apoio a grupos marginalizados — é sobre destruir o feminismo.

Na essência, a crítica política está sendo reclassificada como “fobia”, e em consequência disso, a análise feminista sobre a dominação masculina e poder sistêmico está sendo empurrada para a categoria de “preconceito”, o que serve para justificar a censura. E isso está acontecendo especificamente com feministas radicais que, como diz Bindel, se recusam a “capitular com as políticas identitárias que guiam o feminismo liberal ou feminismo “legal”. Enquanto isso, misóginos e pornógrafos são convidados nos campus universitários sem nenhum protesto.

Ironicamente, são os estudantes universitários que estão dando prosseguimento às denúncias — praticando bullying contra estudantes feministas radicais, banindo mulheres de falarem nos campus quando elas desafiam a doutrina liberal (Magdalen Berns fala sobre isso em sua palestra, sobre sua experiência de ter sido banida de quase todo coletivo de mulheres ou grupos LGBT da Universidade de Edinburgh em seu último ano — uma instituição que aparentemente colocou o rótulo de “aviso de gatilho” na própria teoria feminista radical). Eu digo “ironicamente” porque é na universidade, dentre todos os lugares, onde estas discussões deveriam ser encorajadas, uma vez que uma educação superior significa aprender a pensar criticamente sobre as ideias apresentadas.

Está na hora de deixar o medo de lado. Aqui está o que eu aprendi com o feminismo (o verdadeiro feminismo — não o liberalismo, nem as políticas queer, nem uma retórica pró-capitalista centrada nos sentimentos pessoais de “empoderamento”): Não importa o que fizermos ou dissermos, enquanto feministas radicais, seremos perseguidas, mal faladas e silenciadas. Isso acontece porque nós defendemos as mulheres, nós responsabilizamos os homens, e criticamos o patriarcado sem nos desculpar. Somos chamadas de “SWERF,” “TERF,”“putofóbicas,” “feminifóbicas,” “transfóbicas,” “anti-sexo,” “frígidas moralistas,” e por aí vai, não porque nós temos medo de pessoas trans, mulheres prostituídas ou da sexualidade, ou porque nossas políticas são centradas em “excluir” indivíduos em particular (a não ser, claro, que se trate de indivíduos anti-feministas — nesse caso, sim, você vai se sentir excluído pelo feminismo), mas porque esses termos e xingamentos são efetivos em nos silenciar e excluir. Nós perdemos plataformas ou somos colocadas em listas negras, desacreditadas a cada oportunidade, ao ponto de outros não quererem se associar a nós, nos apoiar ou compartilhar nenhum de nossos trabalhos (independente do conteúdo do trabalho), para não serem contaminados ou considerados um de nós.

É uma estratégia usada para manter mulheres com medo e em silêncio, e está funcionando.

Estamos perdendo o direito de falar sobre nossos corpos, como Berns aponta. Mulheres possuem direitos que estão diretamente conectados com o entendimento de que fomos oprimidas historicamente por termos nascido fêmeas. O patriarcado existe apenas porque há 6000 mil anos atrás, os homens acharam uma maneira de controlar a capacidade reprodutiva das mulheres. “Gênero” foi solidificado para que os homens possam clamar a posse dos corpos das mulheres, para naturalizar sua dominação. Feministas tiveram que lutar pelos direitos das mulheres baseadas no fato de que mulheres não são inferiores e que elas precisam de proteções especiais — não por conta de sentimentos pessoais ou por conta da “identidade de gênero”, mas por conta de nossa biologia e a discriminação agregada a ela. “Você pode ter medo de perder seu emprego ou seus amigos, mas seus direitos mais importantes do que tudo isso,” diz Berns.

Eu cheguei a conclusão de que não há porque viver com medo de ser taxada dessa forma — com os vários acrônimos ou uma nova versão de “fóbica”. Não é nada mais que a estratégia de dividir para conquistar. Não há como evitar essa caça às bruxas, a não ser que estejamos preparadas para mentir ou ficar em silêncio — algo que, na minha opinião, é uma sentença bem pior do que ser taxada, rotulada ou chamada de coisas sem sentido por anti-feministas.

Eu não quero nunca mais investir nenhum tipo de energia em fugir desses ataques, porque ao fazer isso, o objetivo deles é alcançado. Eu estou do lado de minhas irmãs que se posicionam e que continuam a se posicionar, apesar de perderem espaço e serem atacadas.

Você pode nos chamar do que quiser, porque sabemos exatamente o que o você quer dizer: Feministas. Não do tipo legal.

Anti-feministas estão ganhando e continuarão a ganhar enquanto continuarmos caladas. Eles continuarão a clamar pela identidade de “feminista” enquanto rechaçam e vilipendiam o movimento de mulheres. Homens de esquerda vão continuar a nos chamar orgulhosos de nomes anti-feministas e censurar nosso trabalho, confortáveis pelo apoio e silêncio desses “ativistas queer”, “ativistas pelo trabalho sexual” e as feministas liberais — pessoas que já demonstraram traição ao movimento de mulheres e cujas políticas consistem em inventar novas palavras para disfarçar a supremacia masculina e a violência contra as mulheres. Está nas nossas mãos falar e nos posicionar ao lado de nossas irmãs, apesar das repercussões.

Bindel conclui sua fala dizendo:

“Precisamos ser mais corajosas… Nós que somos um pouco mais velhas e estamos no feminismo há mais tempo devemos isso às novas e jovens feministas. Porque como vamos esperar que elas se envolvam em um movimento coeso e vibrante se elas estão aterrorizadas de serem excluídas de seus grupos de amigos e comunidades?

… Vamos por favor parar de nos render. Eu entendo o quanto isso pode ser amedrontador.

Ainda existem feministas que dizem, ‘Eu não posso te chamar para nossa conferência, não posso te pedir para falar sobre esse assunto, não posso incluir seu nome porque eles virão atrás de nós.

Então deixe que eles venham atrás de nós — estamos esperando por eles.”

Estou contigo, irmã.


Tradução do texto de Meghan Murphy para o Feminist Current

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