Você não é ‘demissexual’, você é um ser humano normal.

Você se sente desinteressada em se jogar em homens aleatórios na cafeteria local? Você já se interessou por uma pessoa depois de conhecê-la? Você gosta de conversar com uma pessoa antes de arrancar todas as suas roupas e mostrar as partes mais íntimas do seu corpo? Talvez até várias conversas? A ideia de ter o pau de um estranho na boca te enoja? Parabéns — você é completamente normal. O que, aparentemente, é a pior coisa para se ser hoje em dia. Tanto é que a noção de que alguém formaria conexões românticas depois, não antes, de conhecer uma pessoa recebeu sua própria categoria especial no espectro LGBTQI &% $!. É isso mesmo, seu comportamento completamente saudável faz de você ‘demissexual’.

Segundo o Guardian, demissexual “fica na metade do caminho no espectro do assexual para o sexual”. A repórter Nosheen Iqbal conversou com uma jovem chamada Lidia Buonaiuto, que disse: “Eu não tenho uma atração sexual primária por ninguém da maneira que a maioria das pessoas têm. Eu me identifico como hetero e não sou de forma alguma uma puritana, mas preciso ter uma profunda conexão emocional com alguém antes que qualquer sentimento sexual apareça.” Isso a faz sentir que ela não é ‘normal’.

Embora seja fácil zombar da multiplicidade de identidades que as pessoas têm hoje em dia para confirmar seu status de não-normie*, a moda de se rotular de ‘demissexual’ é realmente um tanto triste e certamente mostra a onipresença e normalização de algumas tendências bem preocupantes.

Bandeiras ‘panromântica’ e ‘demissexual’ unidas com mensagem “Eu amo todos, mas preciso saber mais do que apenas seus nomes”

Buonaiuto explica que ela não consegue ter ‘escapadas sexuais’ com pessoas aleatórias, dizendo: “Eu não tenho esse desejo, meu cérebro não funciona dessa maneira e eu me forcei a situações que acabaram me dando uma muita angústia emocional.”

Em que planeta uma mulher se sentindo ansiosa com a ideia de fazer sexo com uma pessoa aleatória a marca como uma exceção, e não como a norma? Bem, aquele em que a cultura pornô e os aplicativos de encontros como o Tinder ensinaram a uma geração que eles não deveriam estar apenas afim de sexo a qualquer momento, mas que deveriam ser capazes de determinar quem poderia ser um bom candidato a um relacionamento íntimo baseado em pouco mais do que uma imagem, anexada a informações que geralmente não se estendem além da idade e do local.

Boné bordado “eu sempre deslizo para a direita”

Se fôssemos assistir pornografia pelo sentido literal, aprenderíamos que o sexo acontece em um instante: um homem que você nunca viu antes aparece à sua porta e no minuto seguinte o pênis dele está na sua garganta. O sexo, é claro, raramente acontece dessa maneira, fora da indústria do sexo e de situações de estupro ou similares. Na verdade, a maioria das pessoas desenvolve sentimentos de atração depois de conversar, se envolver e conhecer uma pessoa, pelo menos um pouquinho…

A atração é uma coisa complexa e, embora eu possa considerar alguém objetivamente atraente, isso nem sempre ou nem com freqüência se traduz em um desejo genuíno de se meter na cama com eles. São necessários vários tipos de outros fatores, incluindo elementos subconscientes, como feromônios e o som da voz de uma pessoa, além de outras variáveis mais pessoais, como bom gosto em sapatos, uma capacidade de entender que estou sendo sarcástica 100% do tempo, e belos ombros.

Máquina que utiliza um pedaço de carne para deslizar para a direita no Tinder

Embora aplicativos como o Tinder não necessariamente a joguem na cama com estranhos, eles dão a (confusa) impressão de que deveríamos ser capazes de determinar com quem queremos ter relações íntimas em um mero instante, sem nunca ter visto o rosto da tela na vida real. E embora os aplicativos de encontros baseados em deslizar imagens tenham se tornado o novo normal, eles não têm como principal objetivo ajudar as pessoas a conhecer parceiros em potencial. Certamente, muitas pessoas se conheceram através do Tinder, mas seu verdadeiro objetivo é manter você deslizando pela tela, como quem usa uma máquina caça-niqueis. Ele incentiva um tipo de comportamento viciante que libera dopamina no cérebro, mantendo os usuários o usando. Embora possa parecer que esses tipos de aplicativos expandem as possibilidades de encontrar um par, na verdade estamos perdendo informações essenciais, que necessitamos para determinar se estamos interessadas em uma pessoa e se essa poderia ser uma boa parceira — informações que recebemos quando nos envolvemos com pessoas na vida real. Quero dizer, quem de nós não teve a experiência de seguir ou interagir com alguém online, apenas para descobrir que eles eram completamente diferentes (e infelizmente, muito piores) pessoalmente?

Para as mulheres em particular, a ideia de que elas deveriam se sentir completamente confortáveis fazendo sexo com estranhos é ainda mais esquisita. Claramente, existem grandes riscos ao fazê-lo. Você simplesmente não pode determinar se um homem é seguro e confiável em uma tela ou em questão de minutos. Existem boas razões para conhecer uma pessoa e conectar-se emocionalmente com ela, antes de dormir com ela, e a normalização do oposto me parece algo que coloca em risco as mulheres, empurrando-as para situações que algo lhes diz para tomarem cuidado.

“Em uma geração onde é fácil achar um parceiro romântico ou sexual deslizando em um aplicativo, eu notei que eu tenho dificuldade de encontrar parceiros comparada à amigas.”
“Decidi aceitar que eu não vou encontrar um parceiro deslizando para a direita.”
“Eu estou completamente ok com isso e não tenho questões com ser solteira, com vinte e poucos anos, em Nova Iorque.” — quadrinho de ‘Confissões de uma Demissexual

Para que eu não pareça uma velha puritana, não acredito que não seja natural desejar pessoas que não conhecemos muito bem. Eu vivo neste mundo há vários anos e, durante esse tempo, fiquei com pessoas que não divulgaram seu histórico familiar ou o fato de ouvirem o Coldplay deliberadamente (certamente uma forma de abuso). Ao mesmo tempo, fico confusa e incomodada com a normalização de conceitos como “demissexualidade”, que postulam que a “norma” é algo que não é necessariamente normal ou saudável. Estou ainda mais preocupado que jovens como Buonaiuto sintam vergonha e constrangimento porque querem ou precisam de uma conexão genuína com um homem antes de entrar em um relacionamento sexual com ele. Quem já esteve em um relacionamento antes sabe que, geralmente, o sexo fica melhor à medida que você conhece uma pessoa. De fato, faz todo o sentido que, ao conhecer uma pessoa e se sentir mais confortável com ela, você também se conecte mais profundamente, no nível sexual.

Comparando uma pessoa que não experimenta desejo sexual separado da conexão humana genuína com um ‘assexual’ (ou seja, uma pessoa que não sente atração sexual), como a revista Seventeen** fez no ano passado, explicando que “a demissexualidade está dentro do espectro da assexualidade”, me indica que fomos muito fundo na toca do coelho da cultura pornô. Se posso oferecer algum conselho como a sábia anciã que sou, é desligar o telefone e interagir com pessoas do mundo real. No mínimo você aprenderá muito sobre você e os outros e, pelo menos, será capaz de evitar desperdiçar seu tempo mandando mensagens para alguém que você não conseguiria conversar pessoalmente, menos ainda dar uns amassos. Eu posso ser chamada de radical por dizer isso, mas vamos normalizar a humanidade, não a objetificação.


Meghan Murphy é escritora em Vancouver, no Canadá. O site dela é o Feminist Current.


*normie é uma gíria para o adjetivo ‘normal’, no sentido de básico, comum, ordinário, aplicado à pessoas ou coisas.

**Seventeen é uma revista adolescente estadunidense, mas aqui no Brasil a revista Capricho também fez uma matéria parecida sobre demissexualidade.


Tradução do texto de Megan Murphy do Spectator

https://spectator.us/demisexual-normal-human-being/

Glitch

depressive orc nightmare female

2 thoughts on “Você não é ‘demissexual’, você é um ser humano normal.

  • 07/04/2020 at 12:03
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    Muito obrigado por esse texto maravilhoso!

    Me sentia um estranho a adolescência e início da vida adulta até me falarem que eu era demissexual, à essa altura eu já não me importava mais, podia me chamar do que fosse, já tinha aceitado minha sexualidade do jeito que ela é depois de várias tentativas merdas de ser “normal”

    (Desde beijar com a sensação “Caralho, o que eu to fazendo aqui?”, até chegar a hora do sexo e, ou não ter ereção, ou perder a ereção no meio do ato, ou não gozar, ou raramente chegar a sair o sêmen depois de MUITO TEMPO, mas eu não ter a sensação gostosa do gozo)

    Mas sempre tive essa impressão de que o “normal” era repulsivo, e quando me falaram o que era demissexual eu pensei “porra, sou isso aí mano, mas ao meu ver isso que é o normal de verdade”.

    Muito obrigado, vocês são fodas <3

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  • 30/04/2020 at 20:53
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    Acho q houve uma confusão no (não) entendimento do conceito… Confundiram não ter atração sexual (sem maiores laços afetivos) com não estar disposto a transar com qlqr estranho “na cafeteria”…

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