No patriarcado ninguém pode te ouvir gritar
No patriarcado ninguém pode te ouvir gritar

“A verdade é o que os poderosos querem que seja.”

Um dos meus livros favoritos, quando eu era jovem, foi O Único e Eterno Rei, de TH White, e um de seus temas centrais é a tentativa do Rei Arthur de substituir um ethos de a “força está certa” por algo mais próximo da justiça. Justiça significa que todos são iguais perante a lei — e igualdade significa que todos têm igual valor perante a lei e que todos estão sujeitos à lei. Esse tem sido um conceito fundamental para os Estados Unidos, mas a força estar certa nunca deixou de ser como as coisas realmente funcionam pelo menos em parte do tempo. No romance de White, a força significa em parte a capacidade de violência física por parte de guerreiros, exércitos, tribos e reinos, mas a capacidade de indivíduos (e corporações e nações) de cometer essa violência com impunidade é outro tipo de força que importa agora.

O grande trabalho dos jornalistas investigativos nos últimos anos nos permitiu ver a força, despida e corrupta, fazendo o melhor para esmagar, silenciar, descreditar os menos poderosos e seus direitos e, com isso, a ideia do direito como uma ética independente do poder. Que esses homens efetivamente administram a mídia, o governo, o sistema financeiro diz tudo sobre que tipo de sistemas são esses. Esses sistemas têm trabalhado para protegê-los, repetidamente. De fato, o poder não está investido neles, mas nos indivíduos e instituições ao redor deles. Isto torna essencial olhar os perpetradores individuais para os sistemas que lhes permitem cometer crimes com impunidade.

Talvez uma das razões pelas quais o estupro tenha sido tantas vezes retratado como “um estranho que pula de uma moita” é que imaginamos estupradores agindo sozinhos. Mas em muitos casos os estupradores têm ajuda no momento e continuamente depois, e a ajuda é muitas vezes tão poderosa, ampla e profunda — bem, é por isso que chamamos de cultura do estupro, e é por isso que mudar significa mudar toda a cultura. Às vezes é a família, a comunidade, a igreja, o campus olhando para o outro lado; às vezes é o sistema de justiça criminal. Se Jeffrey Epstein for preso pela nova rodada de acusações — que só aconteceu porque uma jornalista investigativa, Julie K. Brown, do Miami Herald, fez um trabalho extraordinário de desenterrar o que havia sido enterrado no caso dele — uma multidão de pessoas que sabiam, riram, fizeram vista grossa, supostamente o ajudaram a abusar sexualmente de crianças por anos ainda estão livres, e as circunstâncias que permitem que outros Epsteins ataquem outras crianças ainda existem.

Epstein apostou no diferencial entre seu poder e sua voz no mundo e na delas e, pela maior parte, ganhou, porque o jogo foi manipulado por dezenas de pessoas ao seu redor, até mesmo pelo sistema legal que lacrou os registros, manteve as vítimas e seus advogados sem saber qual era o seu acordo de barganha (plea deal), e deu-lhe uma sentença obscenamente inconsequente. Qual foi a punição pelo estupro das crianças do softball? Bem, Alex Acosta, que era o procurador dos EUA responsável pelo caso do softball da Flórida contra Epstein, é agora Secretário do Trabalho dos Estados Unidos. O Procurador Geral dos EUA, William Barr, trabalhou para o escritório de advocacia que defendia Epstein.

E um dos amigos de Epstein, que foi acusado de estuprar uma criança sob o controle de Epstein e depois ameaçá-la se ela contasse, é o presidente dos Estados Unidos. A autora da ação civil sobre a alegada agressão desistiu da ação pouco antes da eleição de 2016, supostamente por causa de ameaças; 60 milhões de americanos escolheram votar em um homem acusado de estuprar uma criança em um caso que ainda não foi completamente investigado. Tanto Trump quanto Epstein foram furiosamente defendidos pelo ex-professor de Direito de Harvard, Alan Dershowitz, que também foi acusado de abusar de garotas sob o controle de Epstein. No início deste ano, Julie K. Brown do Miami Herald relatou: “Um advogado de Alan Dershowitz escreveu uma carta ao Tribunal de Apelações dos Estados Unidos para o Segundo Circuito na terça-feira, perguntando se a mídia deveria ser excluída do processo porque seus argumentos orais em nome de seu cliente poderiam conter informações confidenciais que estão sob segredo de justiça”. O dinheiro compra o silêncio.

Dershowitz, junto com o advogado independente de Clinton, Kenneth Starr (que fez de Monica Lewinsky um nome familiar), defenderam Epstein no caso da Flórida. Starr mais tarde foi demitido de um trabalho bom e tranquilo como presidente da Baylor University, onde houve um processo em que uma vítima alegou que durante seu reinado pouco foi feito acerca de cinquenta e dois estupros, incluindo cinco estupros coletivos, por trinta e um dos jogadores de futebol da universidade. O Chicago Tribune reportou mais tarde: “O ex-presidente da Universidade de Baylor, Ken Starr, disse na terça-feira que angariou fundos em nome de um ex-jogador de futebol da Baylor que foi recentemente absolvido de agressão sexual”. É isso que queremos dizer com cultura do estupro; quando a liderança do campus se reúne em torno dos homens de status acusados de estupro, ao invés de deixar o sistema legal buscar algo parecido com justiça, ou defender as vítimas.

Em 2011, quando uma trabalhadora refugiada de um hotel de luxo de Nova York acusou o diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, de agredi-la sexualmente, parecia novo e significativo conectar o abuso privado de poder ao abuso público de poder, ou para mostrar como o ethos implícito da força estar certa no segundo era explícito no primeiro. Agora parece exaustivamente óbvio que o que está acontecendo aos refugiados, ao clima e à biosfera, aos pobres sob o hipercapitalismo, é um desrespeito cruel por seus direitos e humanidade, e que alguns dos homens que praticam a brutalidade pública são monstruosos no particular é um dado.

Monstros nos governam, em nome de monstros.

Agora, quando penso no que aconteceu com Strauss-Kahn, que foi em seguida acusado de agressão sexual por várias outras mulheres, e com casos como o dele, são os personagens secundários que parecem importar mais. Esses homens não podiam fazer o que fizeram sem uma cultura — advogados, jornalistas, juízes, amigos — que os protegessem, os valorizassem, desvalorizassem suas vítimas e sobreviventes. Eles não agem sozinhos, e sua força nada mais é do que o modo como um sistema os recompensa e protege, o que é outra definição de cultura do estupro. Ou seja, a impunidade deles não é inerente; é algo que a sociedade lhes concede e pode tirar.

A audiência de Brett Kavanaugh no Senado foi um referendo sobre este aspecto da cultura do estupro. Christine Blasey Ford nos contou como foi agredida e que Kavanaugh não estava sozinho na sala enquanto a atacava, e então nós conseguimos ver senadores embromarem, negarem, desculparem e ignorarem, e aprendemos sobre o machismo maligno da cultura das escolas preparatórias e como a grande fraternidade da elite do poder do nordeste dos Estados Unidos opera primeira e ultimamente para proteger os seus. A lei da terra agora nos é transmitida por um homem cuja raivosa falta de autocontrole, de cara vermelha e cheia de auto-piedade, foi exibida a um mundo que o assistiu e que conseguiu o emprego mesmo assim. E como disse a American Bar Association (a associação do exame de ordem, uma espécie de OAB nesse sentido), “Um ano depois de Amy Chua, professora de Direito de Yale, ter escrito um artigo de opinião elogiando Brett M. Kavanaugh, da Suprema Corte dos EUA, como mentor de mulheres, sua filha está iniciando um trabalho com ele”. Enquanto isso, Christine Blasey Ford recebeu ameaças de morte e teve que se esconder. Inúmeras mulheres em outros casos — incluindo dezenas que entraram com ações civis contra Epstein — assinaram acordos de confidencialidade que as deixaram em silêncio por toda a vida, protegendo ainda mais os perpetradores.

Para muitos predadores em série, uma infraestrutura elaborada permite que continuem cometendo crimes com impunidade. A Weinstein Company era um dispositivo para atrair as vítimas para a teia de aranha de Harvey Weinstein, depois para pagar as vítimas para serem silenciadas ou enviarem advogados atrás delas, ou no caso de Rose McGowan, ex-espiões do Mossad, para que ninguém a ouvisse dizendo o que ele fez. Como Ronan Farrow relatou em 2017, “Weinstein monitorou o progresso das investigações pessoalmente. Ele também recrutou antigos funcionários de seus empreendimentos cinematográficos para participar do trabalho… Em alguns casos, o esforço investigativo foi conduzido pelos advogados de Weinstein, incluindo David Boies, um célebre advogado que representou Al Gore na disputa pela eleição presidencial de 2000 e defendeu o casamento igualitário perante o Supremo Tribunal dos EUA. Boies assinou pessoalmente o contrato direcionando a Black Cube (agência de inteligência privada) a tentar descobrir informações que impediriam a publicação de uma matéria do Times sobre os abusos de Weinstein, enquanto sua firma também representava o Times, inclusive em um caso de difamação”. É preciso uma aldeia para silenciar uma vítima e há muitos aldeões dispostos.

Em 2011, Cyrus Vance, procurador-geral de Nova York, desistiu das acusações contra Strauss-Kahn alegando que a vítima — que havia sido amplamente atacada pelos advogados de Strauss-Kahn e por jornalistas ansiosos para desacreditar uma mulher refugiada africana — não tinha credibilidade, embora mais tarde ela tenha ganhado um acordo em uma ação civil com, é claro, um acordo de confidencialidade que a silenciou. O Daily News noticiou em 2018, “agentes do FBI estão sondando o escritório do promotor distrital de Manhattan por causa do tratamento de casos de grande repercussão que foram abandonados assim que advogados dos sujeitos bem relacionados fizeram doações”, o Daily News descobriu.

O principal promotor de Manhattan foi criticado no ano passado depois que surgiram dúvidas sobre a decisão de seu gabinete em 2015 de não ir atrás do ex-magnata de Hollywood Harvey Weinstein, depois que a modelo Ambra Battilana o acusou de agarrar seus seios em seu escritório em Tribeca. Um advogado contratado por Weinstein na época dera US $ 24 mil a Vance e outro advogado lhe enviou US$10 mil após a decisão de poupar o poderoso produtor de uma prisão.” Nós lemos na época que uma mulher tentou denunciar os crimes sexuais de Weinstein no New York Times em 2004, apenas para que seu editor homem rejeitasse a história; aprendemos desta vez que outra jornalista mulher tentou fazer uma reportagem em 2003 sobre o abuso sexual de uma adolescente de 16 anos por Epstein, apenas para ter seu editor da Vanity Fair, sob a direção de Graydon Carter, apagar essa parte de sua história. No patriarcado ninguém pode te ouvir gritar.

Essas histórias sobre os famosos ricos e poderosos são ilustrativas de como isso funciona, mas o sistema do patriarcado não funciona apenas para eles. Um espécime perfeito de como costumava funcionar e muitas vezes ainda funciona para qualquer homem privilegiado surgiu este mês em reportagens sobre um caso de estupro em Nova Jersey, no qual uma garota deficiente de 16 anos foi supostamente agredida por um menino que se filmou a estuprando e compartilhou o vídeo com o texto “quando sua primeira vez fazendo sexo é um estupro”. O New York Times reportou sobre o juiz no caso: “Mas um juiz do tribunal de família disse que não era estupro. Em vez disso, ele se perguntou em voz alta se era uma agressão sexual, definindo estupro como algo reservado a um ataque à mão armada por estranhos. Ele também disse que o jovem veio de uma boa família, frequentou uma excelente escola, teve ótimas notas e era escoteiro. Os promotores, disse o juiz, deveriam ter explicado à menina e a sua família que processar destruiria a vida do menino.”

O juiz James Troiano disse: “Ele é claramente um candidato não apenas para a faculdade, mas provavelmente para uma boa faculdade”. Em outras palavras, porque ele era um menino privilegiado no caminho de ser um homem privilegiado, ele importava tanto que a vítima não importava de maneira alguma, e o fato de ele ter cometido um crime também não importava, o que forma a base para que ele e outros como ele continuem cometendo crimes e ser dito às vítimas desses crimes que seus direitos não importam.

A verdade é tudo o que os poderosos querem que seja, o que é um dos fundamentos do autoritarismo. A força é o certo.

A força é o certo. Você vê tudo de novo nas acusações de estupro que a colunista E. Jean Carroll fez contra Trump no mês passado: O senador Lindsay Graham disse, “Ele negou isso. É tudo que preciso ouvir.” No começo do ano, o Washington Post observou: “O tamborilar do Presidente Trump, com seus números exagerados, vaidade injustificada e falsidades explícitas, continuou em um ritmo notável. Desde de 7 de junho, seu 869º dia no cargo, o presidente fez 10.796 alegações falsas ou enganosas”, e Lindsay Graham sabe disso, mas como com sua furiosa defesa de Kavanaugh, ele escolheu uma ética em que tudo que um homem poderoso diz é real e nada que uma mulher diga importa. A verdade é tudo o que os poderosos querem que seja, o que é um dos fundamentos do autoritarismo. A força é o certo.

O erro subjacente em O Único e Eterno Rei, quando eu olho para trás, foi a suposição de que você poderia ter poder desigual na terra — cavaleiros de armadura armados e com treinamento de armas, contra mulheres desarmadas, servas e aias — e de alguma forma o usar para instituir a igualdade. O cavalheirismo está morto; sempre esteve podre. O romance arturiano nunca seria sobre a redistribuição de poder e riqueza, mas a democracia supostamente é, e agora entendemos em nossa nova era de plutocratas (e velhice do patriarcado) como é improvável que as pessoas sejam iguais sob a lei enquanto eles são tão desiguais em poder.

Parte desse poder pode ser monetário, parte está nas estruturas corruptas de poder nos setores financeiro, político e de entretenimento que nos deram Roger Ailes, da Fox, e Eric Schneiderman, da New York Times, e o time de futebol de Baylor, muitos monstros que pareciam ver o abuso de mulheres como parte de sua força. Parte disso — grande parte disso — é o gênero. Há muitas boas razões para os tribunais processarem casos individuais, mas a justiça não será feita até que a força não seja mais o certo, e o poder que inclui o poder de ser ouvido e valorizado seja distribuído igualmente.


Rebecca Solnit, escritora, historiadora e ativista de São Francisco, é autora de livros de vinte e poucos anos sobre geografia, comunidade, arte, política, esperança e feminismo e o autor, mais recentemente de Call Them By Their True Names: Crises americanas (e ensaios) e Drowned River: A morte e o renascimento de Glen Canyon no Colorado.


Tradução do texto de Rebecca Solnit

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