O mito da “mulher menor de idade”

Na segunda-feira, o colunista do New York Times James B. Stewart publicou um artigo notável: um resumo de uma entrevista que ele havia conduzido em agosto passado com Jeffrey Epstein. Os dois estavam aparentemente falando sobre assuntos de negócios — sobre rumores de que Epstein estava fazendo trabalho de consultoria para a empresa de carros elétricos Tesla. Mas Epstein, de acordo com Stewart, continuou guiando a conversa para o segredo que não era, naquele momento, nenhum segredo: o fato de Epstein ser um criminoso sexual condenado. “Se ele estava reticente em relação à Tesla”, escreveu Stewart, “ele estava mais à vontade discutindo seu interesse por mulheres jovens”:

Ele disse que criminalizar o sexo com garotas adolescentes era uma aberração cultural e que por vezes na história isso foi perfeitamente aceitável. Ele apontou que a homossexualidade já foi considerada um crime e ainda era punível com a morte em algumas partes do mundo.

É um argumento que é reminiscente do papo-furado que Epstein falava após a sua libertação de um período de 13 meses de semi-aberto, o resultado de um acordo judicial surpreendentemente brando feito em 2008. (“Eu não sou um predador sexual; eu sou um ‘infrator’”, disse Epstein ao New York Post em 2011. “É a diferença entre um assassino e uma pessoa que rouba um pão.”) A versão 2018 do argumento, no entanto, adicionou um novo elemento:

Sugeriu que as leis de consentimento eram pouco mais do que acidentes prudentemente estreitos da história. Insistiu que o próprio Epstein era a mais trágica, e heroica, das figuras: uma pessoa nascida no lugar errado, na hora errada. E tentou, em tudo isso, uma imensa façanha de apagamento: A alegação de Epstein tentou enfraquecer os testemunhos de mais de 80 mulheres que se apresentaram para dizer que Epstein as molestou quando eram meninas.Algumas das mulheres disseram que tinham apenas 13 anos quando os ataques predatórios começaram.

“Ele queria todas as garotas que eu pudesse arrumar. Nunca era suficiente”, disse Courtney Wild, uma das vítimas que fizeram alegações sobre Epstein, à repórter do Miami Herald Julie K. Brown.

“As mulheres que foram para a mansão de Jeffrey Epstein quando meninas tendem a dividir suas vidas em duas partes: vida antes de Jeffrey e vida depois de Jeffrey”, Brown observou.

“Ele arruinou minha vida e as vidas de muitas meninas”, disse Michelle Licata, outra das vítimas que fizeram alegações contra Epstein.

Meninas. Meninas. Meninas. Este é o cerne da questão. “Ele me disse que as queria tão jovens quanto eu pudesse encontrar”, disse Wild. Quando a história de Epstein voltou a ser notícia no início de julho, no entanto — por causa de uma acusação feita pelo distrito sul de Nova York, e em grande parte ajudado muito pela reportagem de Brown — um erro comum começou a se espalhar: Muitos meios de comunicação referiram-se às vítimas de Epstein, ambas já reconhecidas e as de alegações recentes, como “mulheres menores de idade”. O New York Times usou o termo.A New York Magazine também. Jezebel contou 90 ocorrências do termo que foram ao ar nas transmissões de notícias nos dias após a prisão de Epstein.

A frase está errada em todos os sentidos: Não existe tal coisa como uma “mulher menor de idade”. Mulheres menores de idade são meninas. Mas o erro, repetido várias vezes desde Julho, tem sido, à sua maneira, revelador. Isso sugere uma cultura americana que permanece relutante em igualar os interesses de homens poderosos e os interesses de meninas vulneráveis. E, em primeiro lugar, sugere uma ambivalência contínua sobre o que significa ser uma menina.

A mulher menor de idade exerce seus erros dentro da mesma cultura comercial que encontrávamos Elizabeth Hurley, em 2012, vendendo um biquíni minúsculo e com estampa de oncinha, com o público alvo sendo “meninas [de 8–13 anos de idade] que querem parecer adultas.” Ele opera em um ambiente onde os códigos de vestimentas escolares rotineiramente punem meninas por usarem roupas que consideram distrair os estudantes do sexo masculino. Ele opera no cenário que a jornalista Peggy Orenstein documentou em seu livro de 2016, Girls & Sex (Garotas e Sexo) — um trabalho que detalha quantas meninas no momento são ensinadas, apesar dos supostos avanços do feminismo, a se verem como objetos sexuais. A mulher menor de idade, com suas insistentes contradições, opera em uma cultura na qual uma canção da década de 1950 mantém seu valor assustador: “Graças aos Céus pelas menininhas / Porque as meninas ficam maiores a cada dia / Graças aos Céus pelas menininhas / Elas crescem da maneira mais gostosa / Aqueles olhinhos / Tão indefesos e atraentes / Quando eles piscam / Te mandam pelos ares / Pelo teto…”

A canção, da trilha sonora para o filme Gigi, é adequada: Hollywood tem um longo histórico em insistir que as meninas em geral, e as adolescentes em particular, são simplesmente um tipo de mulher disfarçada. E tem também um longo histórico de endosso à ideia que Gay Talese observou em 1981, em seu livro ‘Thy Neighbor’s Wife’ (A Esposa do Próximo): “O pênis… não conhece nenhum código moral.” As duas noções às vezes colidiam. ‘Beleza Americana’, estrelado por Kevin Spacey como um homem de meia-idade que desenvolve uma paixão pela melhor amiga de sua filha adolescente, está prestes a atingir seu vigésimo aniversário. ‘Eleição’, cujo enredo gira em torno de uma relação sexual entre um professor de meia-idade e sua aluna adolescente (Reese Witherspoon), atingiu o marco de 20 anos no início deste ano. E depois há ‘Manhattan’, onde encontramos Woody Allen, como sempre, atuando como uma versão de si mesmo — neste caso, um escritor de 42 anos — namorando uma estudante do ensino médio de 17 anos de idade (Mariel Hemingway). Houve também, até que seu lançamento fosse cancelado no final de 2017, o filme de Louis C. K. ‘I Love You, Daddy’ (“Te Amo, Papaizinho”) — que era estrelado por Chloë Grace Moretz como uma garota de 17 anos que entra em um relacionamento com um diretor famoso 50 anos mais velho que ela. (C. K. interpreta seu pai.)

E há, é claro, Lolita — uma consideração complicada de abuso sexual infantil que tem sido geralmente metabolizada, ao longo das décadas, como uma simples justificativa de si. “Eu era uma menina, olhe o que você fez comigo”, a menina cujo nome próprio é Dolores, se lamentando, no livro de Vladimir Nabokov; Lolita, no entanto, como um tipo de alegoria que transcende, não está com raiva de seu abusador. Ela não é capaz, de fato, de muita emoção. Lolita, o arquétipo, em vez disso, funciona como uma embalagem para os homens (héteros) que a encontram. Ela é tentadora, sedutora, é justificável. Ela é completamente definida pelo olhar masculino (male gaze). Menina, em breve você será uma mulher. Em breve, você vai precisar de um homem.

Há uma qualidade provocadora para muitos desses tratamentos pop-culturais da mulher menor de idade, assim como havia uma qualidade provocadora para as reivindicações de Epstein sobre as contingências históricas dos tabus sexuais: Eles se refugiam num tipo sombrio de sátira. Eles insistem que as explorações de relações sexuais sancionadas por Hollywood entre homens de meia-idade e adolescentes não estão endossando essas relações, eles insistem. Eles estão apenas perguntando como as coisas seriam se as leis não tivessem sido escritas como foram, se as normas não tivessem se estabelecido em suas formas atuais e contingenciais. As obras tendem a tratar as meninas simultaneamente como disponíveis e inacessíveis — e principalmente como veículos de auto-descoberta para os homens que são as verdadeiras estrelas desses filmes. As histórias que contam pertencem aos caras que estão tristes, frustrados e incompreendidos; as meninas servem como meros acessórios para essas histórias. Chamam a atenção para o que a jornalista Vicky Ward, que tem relatado sobre Epstein há anos, disse recentemente ao Times: A maioria das pessoas na órbita de Epstein mencionou “as meninas”, disse ela, mas “como um aparte”.

A lógica de Lolita paira como um espectro sobre a história de Epstein. Seu jato particular era amplamente conhecido como o “Lolita Express”. Ele exibia as meninas como se fossem móveis — expondo, os relatórios sugerem, sua juventude e sua vulnerabilidade. Mas a infantilidade das meninas também se afirmava. Alfredo Rodriguez, que trabalhou como mordomo de Epstein em meados da década de 2000, disse a um detetive de Palm Beach investigando o caso Epstein que ele suspeitava que as meninas na órbita de Epstein eram menores de idade, em parte porque, como o detetive resumiu, “eles comiam toneladas de cereais e bebiam leite o tempo todo.” A ilustração principal do extenso relatório de Brown de 2018 sobre Epstein no Miami Herald — O que ajudou a levar à nova acusação que foi apresentada contra ele neste verão — apresenta uma imagem de Epstein, renderizada a cores, cercada por fotos em preto e branco de quatro das meninas que o acusaram de abuso. Algumas delas, nas fotos, usam aparelho.

Estas são as pessoas cujas vidas e dignidade eram zombadas por Epstein quando comparou seus crimes com o roubo de um pão. Esta é a versão dele daquela vigília familiar, o segredo revelado, parecia. Epstein refugiou-se numa cultura que gira, ainda, em torno dos caprichos dos ricos, dos heterossexuais e dos homens. Ele encontrou proteção dentro da espécie de impunidade em rede que por tanto tempo manteve os segredos de, entre tantos outros, Bill Cosby, R. Kelly e Harvey Weinstein. Epstein vive em uma cultura, ele sabia muito bem, que ainda não está acostumada a colocar meninas no centro da história. O resto da música Gigi é assim: “Obrigado aos Céus pelas menininhas / Obrigado aos Céus por todas elas / Não importa onde / Não importa quem / Sem elas / O que os menininhos fariam…”

Mais de 50 anos depois, muitas coisas mudaram. Muitas coisas não. Roy Moore, acusado de procurar sexualmente adolescentes quando tinha 30 anos, perdeu sua intenção a um lugar no Senado dos Estados Unidos em 2017. Dois anos depois, porém, Moore, aparentemente encorajado pelas condições atuais, anunciou que tentaria a candidatura novamente. Este verão, Jeffrey Epstein foi indiciado; este verão, também, Jeffrey Epstein, em circunstâncias que ainda não são claras, escapou da justiça de uma vez por todas, aparentemente tirando a sua própria vida. “Eu estou com raiva Jeffrey Epstein por não ter de enfrentar as sobreviventes de seus abusos no tribunal”, Jennifer Araoz, que acusou Epstein de estuprá-la quando ela tinha 15 anos, disse no sábado, reagindo à notícia de sua morte.” Temos de viver com as cicatrizes das suas ações pelo resto das nossas vidas, enquanto ele nunca enfrentará as consequências dos crimes que cometeu, da dor e do trauma que causou a tanta gente.”

Ontem de manhã, no entanto, Araoz apresentou um processo contra a propriedade de Epstein — bem como contra Ghislaine Maxwell, sua suposta cúmplice, e três mulheres não nomeadas do quadro de funcionários domésticos de Epstein. Araoz entrou com o processo sob os auspícios de uma nova lei do Estado de Nova York, informou a NBC News, que permite que casos da vara civil sejam interpostos contra aqueles que estão supostamente envolvidos no abuso sexual de menores, independentemente de há quanto tempo o alegado abuso ocorreu. A lei, que prevê o período de um ano para a apresentação dos processos, entrou em vigor ontem. Chama-se, apropriadamente, de a Lei das Vítimas Infantis.


Texto traduzido de Megan Garber publicado em Atlantic

https://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2019/08/jeffrey-epstein-and-the-myth-of-the-underage-woman/596140/

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