A Coletiva QG Feminista

A QG Feminista é um projeto que existe desde agosto/2017, como uma revista digital. Hoje já somos muito mais que isso. Firmes na missão de difundir conteúdo feminista, já ocupamos diferentes espaços e tipos de mídias e produzimos vídeos, podcast, zines, conteúdo para mídias digitais. Não somos mais uma Revista, mas uma coletiva feminista com diferentes projetos. E a partir de agora é assim que nos apresentamos, e essa é nossa carta de princípios. 


Nós somos

Uma coletiva de mulheres brasileiras que cometem a transgressão indesculpável de se declararem feministas e radicais.

De diversas partes do Brasil e do mundo; de diferentes histórias, trajetórias, idades, raças, classes, formações profissionais e orientações sexuais.

Múltiplas, e nosso olhar traz essa carga, porque é complexa a realidade da mulher atravessada pelas tensões de sexo, raça e classe; e a  libertação de cada uma depende da libertação de todas.

As mulheres sobre as quais nós fomos avisadas e intimidadas para que não nos tornássemos.

Nós acreditamos

Que o feminismo é a luta pela libertação de todas as mulheres.

Que mulheres e meninas, os seres humanos do sexo feminino, compõem uma classe de pessoas que é explorada sexual, doméstica, reprodutiva, intelectual, emocional, laboral e mentalmente pela classe masculina.

Que a supremacia masculina está na base e na origem de todas as formas de opressão: de sexo, raça e classe.

Que a supremacia masculina está na raiz de toda exploração entre povos, ambiental, animal e da vida como um todo.

Que a socialização de fêmeas é um processo violento de destruição e de repressão da subjetividade e de potencialidades, que objetiva adequar meninas e mulheres aos papéis sociais a nós destinados por conta de nosso sexo, ao nos inserir em uma estrutura hierárquica de servidão e de submissão à classe masculina.

Que os papéis sociais de sexo são uma ferramenta do sistema patriarcal, composta pela masculinidade e pela feminilidade, sendo a última imposta a nós por meio do processo de socialização.

Que a feminilidade deve, então, ser abandonada, abolida e jamais celebrada, nem exaltada.

Que a realidade material de meninas, mães, lésbicas e mulheres racializadas deve estar no centro de qualquer análise que se propõe feminista.

Que o processo de colonização e de exploração da América Latina é manchado, acima de tudo, pelas violências física e sexual cometidas contra mulheres indígenas e, mais tarde, contra mulheres negras, porque o patriarcado é parte da própria essência do colonialismo.

Que a heterossexualidade foi construída como um regime sociopolítico de controle de fêmeas, às quais é imposta, desde a tenra infância, a obrigação de construir suas vidas e suas relações — especialmente as afetivo-sexuais — em torno de homens.

Que o lesbianismo se coloca, portanto, não só como uma orientação, mas como um ato revolucionário de desobediência civil-político-sexual, por meio do qual mulheres negam a homens acesso a seus corpos e, consequentemente, a suas capacidades sexuais e reprodutivas.

Que o compartilhamento de experiências, de dores, de cura e de luta gera identificação de mulheres com outras mulheres, quebrando o ciclo de rivalidade e de misoginia internalizadas no qual somos colocadas no processo de nossa socialização.

Que a irmandade e a organização política de mulheres é a ferramenta mais eficaz de mudança e de revolução, por isso mesmo tendo sido temida, reprimida e punida por homens — quando não por eles apagada — ao longo da história.

Que nenhuma instituição e interesse masculinistas devem nos pautar ou nos servir de referência, tendo em vista que foram forjados e são mantidos a fim de legitimar e perpetuar o poder dos homens.

Que a utopia de um mundo feminista é possível; mas, para isso, deve ser calcada na educação feminista para o despertar crítico de meninas e de mulheres e numa educação emancipatória para nossas crianças, vítimas primeiras da supremacia masculina branca, para o abandono da feminilidade (e da masculinidade) como linguagens e formas de agir no mundo, estimulando a criatividade como o caminho da luta coletiva.

Que o objetivo último do feminismo, por meio da abolição de todas as instituições patriarcais, é a criação de novos paradigmas civilizatórios, firmados em ideais emancipatórios, revolucionários, contra-hegemônicos, de autonomia e autogestão, incompatíveis com as estruturas, símbolos e instituições de poder criados por homens e carregados, portanto, de ideologias masculinistas.

Nós fazemos

A produção, a disponibilização e a popularização de material e ideais feministas, para auxiliar tanto em processos coletivos de formação e de organização quanto em processos individuais e subjetivos de emancipação e de conscientização política.

A crítica da violência masculinista exercida através das instituições patriarcais e dos discursos pretensamente progressistas, mas visivelmente misóginos propagados pela falácia liberal.

A divulgação e o fortalecimento dos pressupostos teóricos, das autoras e das obras feministas radicais no Brasil.

A formação e a capacitação de militantes, professoras e pesquisadoras.


Esta Manifesta não pretende esgotar nossas possibilidades e potencialidades de atuação na luta feminista. Como Coletiva, estamos em constante processo de conhecimento, formação e  transformação, e isso, naturalmente, reverbera nas nossas ações.

Assim, consideramos que, hoje, o que trazemos é o primeiro passo para o que muitas chamam de utopia: um novo mundo livre para mulheres e crianças.