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agarrar a linguagem pelas mãos

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“I’m a second class citizen” — “Sou uma cidadã de segunda classe” (1960 — Women’s Liberation Movement March)

noutro dia li um texto de Carol Hanisch, falando sobre a importância da linguagem, mais especificamente para o movimento feminista. essa talvez tenha sido a principal luta de outra filósofa e feminista lésbica radical, Mary Daly, que gastou algum tempo de sua vida falando sobre como o patriarcado (visto por ela como uma religião) nos conduz a todas a uma história dos homens, não nossa. ou ainda, da feminista radical da diferença, Andrea Franulic, que propõe em seu trabalho uma análise feminista do discurso, e, junto a outras feministas desta mesma corrente, propõe um novo marco civilizatório a partir do olhar das próprias mulheres, que devem se esforçar para se descolar do pensamento masculinista.

segundo Franulic, a rebeldia, essencial para a libertação feminina, se enfraquece quando entra no ambiente acadêmico. ela aparece travestida de insolência, mas suas bases são masculinistas, ou seja, não deixam de perpetuar o pensamento dos homens. para recuperar a história das mulheres e a nossa própria genealogia será necessário, para ela, abandonar a obediência, ou seja, a Ciência legítima e a história que nos contaram sobre nós mesmas.

as mulheres deixaram o diálogo com as outras mulheres para buscar a legitimidade do macho acadêmico, pseudolivrepensador. esta é uma das ações mais autodestrutivas. nesse gesto, renasce a obsequiosidade, a fala baixinha, o pedido de permissão para dizer. a palavra desapaixonada procura o politicamente correto e não se incomoda, não se abala ou arranha. a palavra sem corpo encontra-se no argumento cool, no raciocínio respaldado, na tese autorizada. a palavra neutra tece uma intertextualidade de séculos: a trama ideológica das mentiras e dos segredos do patriarcado para excluir a nós, mulheres, do contexto do humano e nos aprisionar na feminilidade. (Franulic, 2013)

a história do Movimento pela Libertação das Mulheres é datada a partir de 1960, com esse nome. a partir daí, em várias tentativas de apropriação, foi se tornando outros: Movimento de Mulheres, Movimento Feminista, Feminismo. essas transformações não são inofensivas, ou uma tentativa de economizar letras. Hanisch nos ensina: são uma tentativa de apagamento, de esvaziamento político. “estupro” vira “sexo sem consentimento”; “feminicídio” vira “crime passional”; “feministas liberais” viram “libfem” (ou lib); “feministas radicais” viram “radfem” (ou rad); “feministas interseccionais” passam a ser chamadas de “intersec”. ou seja, quaisquer tentativas de apropriação de mulheres sobre sua própria linguagem, ou ainda, sobre sua própria luta, é apropriada pelo neoliberalismo, que tenta de diversas formas nos apagar.

neste mesmo sentido, “atrizes de filmes adultos” são chamadas de “atrizes pornô”, e “violência masculina” passa a se chamar “violência de gênero”, em ambos os casos, retirando a responsabilidade de quem consome violência — homens adultos, e de quem as pratica: os mesmos homens adultos. essas mudanças podem parecer sutis, mas, na realidade, são escolhas que trabalham em nome de uma ordem social onde nossas histórias, nossas experiências, são constantemente desacreditadas, vistas como exagero, superficiais. por exemplo, enquanto eles cometem “crime passional”, nossas tentativas de autodefesa são vistas (e veiculadas, taí a responsabilidade das mídias na perpetuação dessa linguagem) como “histeria”, ou “perda de controle”.

Janice Raymond vai dizer que “a realidade se suspende no esguio fio da linguagem”. ela alerta para os perigos das expressões “garotas trabalhadoras”, “trabalhadoras do sexo”, “moças da noite” e “acompanhantes”, termos usados para amenizar a violência de cafetões e de uma indústria cruel, como a indústria do sexo. até exploração sexual de crianças vira “prostituição infantil”. ela se nega a usar quaisquer desses nomes que servem, grosso modo, para transmitir a responsabilidade da exploração do corpo da mulher para elas mesmas, creditando a própria indústria, humanizando-a. por outro lado, os defensores desses termos alegam que defendem a dignificação da mulher.

“No discurso pró-prostituição, a prostituição é trabalho sexual, e não exploração sexual. Proxenetas são agentes de negócios de terceiros que as mulheres escolhem para proteger a si mesmas e seus interesses, e não exploradores de primeira classe. Em Victoria, Austrália, os proxenetas que são proprietários de bordéis são designados como licenciados de serviço de trabalho sexual. Usuários e compradores de prostituição são fregueses ou clientes que proporcionam às mulheres renda, e não abusadores. Bordéis são espaços seguros para as mulheres para trabalhar no seu comércio, não alojamentos onde as mulheres são controladas e mantidas sob controle. Mulheres na prostituição são trabalhadoras do sexo, não vítimas de exploração sexual. E vítimas de tráfico são trabalhadoras do sexo migrantes de quem a passagem de um país a outro é migração facilitada por prestativos deslocadores de pessoas. Mesmo as palavras “acompanhante” e “agências de acompanhantes” fazem o sistema da prostituição soar mais chique e seguro.”

nos apropriar da linguagem, transformá-la ao nosso favor, é uma forma de resistir, de não sermos atropeladas por um mundo explicado através dos olhos dos homens. as mulheres, lésbicas e feministas lutam contra o próprio apagamento há anos e seguirão lutando, a não ser que desapareçam todas as mulheres. não seremos apagadas.