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Disparidades de gênero e saúde mental: fatos

Transtornos afetivos[1] estão associados a uma carga significativa de adoecimentos e incapacitações.

As taxas de prevalência ao longo da vida para qualquer tipo de transtorno psicológico são maiores do que se pensou anteriormente; estão aumentando nos estudos epidemiológicos mais recentes; e afetam quase metade da população.

Apesar de serem comuns, transtornos afetivos são subdiagnosticados por profissionais de saúde. Menos da metade das pessoas que preenchem critérios diagnósticos de transtornos afetivos são identificadas por profissionais de saúde.

Pacientes também parecem relutantes em buscar ajuda profissional. Somente duas em cada cinco pessoas vivenciando um transtorno de humor, de ansiedade, ou de uso de substâncias buscam ajuda no ano do surgimento do transtorno.

As taxas gerais de transtornos psiquiátricos são quase idênticas para homens e mulheres, mas diferenças de gênero gritantes são encontradas nos padrões de transtornos afetivos.

Por que gênero?

Gênero é uma determinante crítico de saúde mental e transtornos afetivos. O adoecimento associado com transtornos afetivos tem recebido substancialmente mais atenção do que as determinantes e os mecanismos específicos de gênero que promovem e protegem a saúde mental e nutrem resiliência ao estresse e à adversidade.

Gênero determina o poder e o controle diferencial que homens e mulheres têm sobre as determinantes socieconômicas de suas saúde mental, vidas, posição social, tratamento e status na sociedade, e sua suscetibilidade e exposição a riscos de saúde mental específicos.

Diferenças de gênero ocorrem particularmente nas taxas de transtornos mentais comuns — depressão, ansiedade e queixas somáticas. Esses transtornos, nos quais mulheres predominam, afetam aproximadamente uma em cada três pessoas na comunidade e constituem um sério problema de saúde pública.

Depressão unipolar, que se prevê que será a segunda maior causa de incapacitação de pessoas no mundo até o final de 2020, é duas vezes mais comum em mulheres.

Depressão não somente é o problema de saúde mental mais comum de mulheres, mas talvez seja mais persistente em mulheres do que em homens. Mais pesquisa é necessária nesse sentido.

Reduzir a super-representação de mulheres que são deprimidas contribuiria significativamente para diminuir a carga global de incapacitação causada por transtornos psicológicos.

Homens também têm três vezes mais chance de serem diagnosticados com personalidade antissocial do que mulheres.

Não há diferenças de gênero significativas nas taxas de transtornos mentais severos como esquizofrenia e transtorno do espectro bipolar, que afetam menos de 2% da população.

Diferenças de gênero têm sido reportadas quanto à idade do surgimento dos sintomas, à frequência de sintomas psicóticos, ao curso desses transtornos, ao ajustamento social, e aos resultados de longo prazo.

As disfuncionalidades associadas a transtornos afetivos recaem mais fortemente naquelas pessoas que vivenciam três ou mais transtornos em comorbidade. De novo, mulheres predominam.

Fatores de risco específicos de gênero

Depressão, ansiedade, sintomas somáticos e altas taxas de comorbidades estão significativamente relacionadas a fatores de risco interconectados e co-ocorrentes tais como papéis de gênero, estressores, e experiências e acontecimentos negativos na vida.

Fatores de risco específicos de gênero para transtornos mentais comuns que afetam desproporcionalmente mulheres incluem violência de gênero, desvantagem socioeconômica, baixa renda e desigualdade de renda, hierarquia e status social subordinado ou baixo, e responsabilidade incessante pelo cuidado de terceiros.

A alta prevalência de violência sexual a que mulheres são expostas e a correspondente alta taxa de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) que se segue a tal violência faz com que mulheres sejam o maior grupo único de pessoas afetadas por esse transtorno.

O impacto em termos de saúde mental de adversidades psicossociais cumulativas e de longo termo ainda não foi investigado adequadamente.

Reestruturações [econômico-sociais] têm efeitos específicos de gênero na saúde mental: políticas econômicas e sociais que causam mudanças severas, disruptivas e repentinas à renda, à empregabilidade e ao capital social que não podem ser controladas ou evitadas aumentam significativamente a desigualdade de gênero e a taxa de transtornos mentais comuns.

Viés de gênero

O viés de gênero ocorre no tratamento de transtornos psicológicos. Profissionais de saúde têm maior propensão a diagnosticar depressão em mulheres em comparação a homens, mesmo quando possuem pontuações semelhantes em medidas padronizadas de depressão ou quando apresentam sintomas idênticos.

O gênero feminino é um preditor significativo de se receber a prescrição de drogas psicotrópicas que alteram o humor.

Diferenças de gênero existem nos padrões de busca de ajuda para transtornos psicológicos. Mulheres são mais propensas a buscar ajuda de e de revelar problemas de saúde mental ao médico de família, enquanto homens são mais propensos a buscar cuidado especializado de saúde mental e são os usuários principais de serviços de internação.

Homens são mais propensos do que mulheres a revelar problemas com abuso de álcool a seu provedor de saúde.

Estereótipos de gênero relativos à propensão a problemas emocionais em mulheres e problemas com álcool em homens parecem reforçar estigmas sociais e limitar a busca por ajuda dentro de formas estereotipadas. Eles são uma barreira à identificação precisa e ao tratamento de um transtorno psicológico.

Apesar dessas diferenças, a maioria das mulheres e dos homens vivenciando angústias e/ou transtornos psicológicos não são nem identificadas/os nem tratadas/os por seus profissionais de saúde.

Problemas de saúde mental relacionados a violência também são pouco identificados. Mulheres relutam em revelar um histórico de vitimização violenta a não ser que profissionais de saúde perguntem sobre isso diretamente.

A complexidade das consequências de saúde relacionadas a violência aumenta quando a vitimização não é detectada e resulta em taxas altas e custosas de utilização dos sistemas de saúde e de saúde mental.

Saúde mental das mulheres: fatos

  • Transtornos depressivos são responsáveis por quase 41,9% das incapacitações resultantes de transtornos neuropsiquiátricos entre mulheres, comparados a 29,3% entre homens.
  • Os principais problemas de saúde mental de pessoas adultas mais velhas são depressão, síndromes orgânicas do cérebro e demências. A maioria são mulheres.
  • Em torno de 80% das 50 milhões de pessoas afetadas por conflitos violentos, guerras civis, desastres e migrações forçadas são mulheres e crianças.
  • A taxa de prevalência de violência contra mulheres ao longo da vida varia de 16 a 50%.
  • Pelo menos uma em cada cinco mulheres são vítimas de estupro ou de tentativa de estupro ao longo de suas vidas.

Depressão, ansiedade, perturbações psicológicas, violência sexual, violência doméstica e taxas crescentes de uso de substâncias afetam mulheres em maior escala do que homens por diferentes países e em diferentes cenários sociais. As pressões criadas por seus diferentes papéis, pela discriminação de gênero e pelos fatores associados de pobreza, fome, desnutrição, sobrecarga de trabalho, violência doméstica e violência sexual se combinam para serem responsáveis pela saúde mental miserável das mulheres. Há uma relação positiva entre a frequência e a severidade de tais fatores sociais e a frequência e a severidade de problemas de saúde mental em mulheres. Acontecimentos de vida severos que causam um senso de perda, inferioridade, humilhação ou aprisionamento podem predispor à depressão.

Quase 20% das pessoas em contato com o cuidado de saúde primário [medicina de família, no Brasil] em países em desenvolvimento sofrem de ansiedade e/ou transtornos depressivos. Na maioria dos centros, esses pacientes não são reconhecidos, portanto não são cuidados. A comunicação entre profissionais de saúde e pacientes mulheres é extremamente autoritária e muitos países, fazendo com que a revelação, por parte da mulher, de perturbações emocionais ou psicológicas seja difícil e frequentemente estigmatizada. Quando as mulheres ousam revelar seus problemas, muitos profissionais de saúde tendem a possuir um olhar tendencioso (de gênero) que os leva a ou tratar demais ou a sub-tratar mulheres.


[1] Estou usando aqui “transtorno afetivo” porque apesar de o original ser mental illness (literalmente doença/enfermidade de natureza mental), os transtornos trazidos no texto são de natureza afetiva mesmo.


Tradução da página informativa sobre Gender and women’s mental health da Organização Mundial da Saúde.

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