livro mulheres empilhadas

Feminicídio: uma pilha de mulheres que não para de crescer.

O livro Mulheres Empilhadas (2019) da escritora Patrícia Melo expõeuma realidade palpável a qual todas conhecemos: o feminicídio. Realidade esta que não nos poupa, que afeta a todas e independe de qualquer coisa: ” não importa onde você esteja. Não importa sua classe social. Não importa sua profissão. É perigoso ser mulher.”

O livro se divide em três partes, as quais se misturam numa intricada teia de narrativas.

Primeiramente, doze relatos de feminicídios não ficcionais, o que por si só já nos desconcerta, com todos os ingredientes presentes na sociedade machista na qual vivemos: o sentimento de propriedade em relação à mulher, os motivos fúteis, a negligência do Estado, a misoginia.

Segundamente, a narrativa da protagonista não nomeada que parte para o Acre (estado com maior índice de feminicídio), na cidade de Cruzeiro do Sul, para acompanhar mutirões de julgamentos de feminicídios e ao mesmo tempo para fugir do namorado do qual sofreu violência física. Nesses mutirões a sua história se funde a outras de mulheres vítimas de violência como a da índia Tuxupira que foi torturada, estuprada e morta por três cidadãos de bem de Cruzeiro do Sul. Ao acompanhar o julgamento do crime, todas as feridas são escancaradas: a impunidade, o elo de poder e dinheiro que permeia as relações, a anuência da cidade, a invisibilidade dos povos indígenas, o horror do crime, a pilha de mulheres que não para de crescer.

Por fim, há os rituais das mulheres indígenas, por meio deles há o resgate de sua identidade, o qual passa pela ressignificação da violência sofrida pela mãe.

No livro de Patrícia Melo são abordadasvárias violências às quais mulheres são submetidas todos os dias, a saber: o revenge porn, o silenciamento, os índices mais altos em relação às mulheres negras, as agressões, o fato de que na grande maioria todas conhecem seu agressor, “morta pelo ex, pelo namorado, pelo marido”, o que torna mais difícil reconhecer essa violência, pois as relações estão permeadas de laços afetivos e sentimentos de culpa, denominador comum a todas as mulheres. Os homens nascem desprovidos de todo e qualquer sentimento de culpa, já as mulheres parecem tê-la na sua gênese. Séculos de patriarcado fazem isso dizendo o que vestir, como se comportar, até aonde podemos ir: ” Vocês homens nos matam e, no tribunal, todos dizem que a culpa é nossa. Nós que provocamos. Afinal o que estávamos ali? Naquela festa? Àquela hora? Com aquela roupa? E bem que fomos avisadas: não saia de casa. Muito menos à noite. Não fique bêbada. Não seja independente. Não passe daqui. Nem dali. Não trabalhe. Não vista essa saia. Nem esse decote.”  A culpabilização da vítima é uma entre tantas armadilhas arquitetadas pela sociedade patriarcal, juntamente com ela há a misoginia. 

Como a história nos mostra, os homens sempre odiaram as mulheres. O ódio é constitutivo da nossa sociedade e como diz uma das personagens não faltam professores para ensinar a odiar mulheres:” o pai ensina, o Estado, o sistema legal, o mercado, a cultura, a propaganda, a pornografia.” Sociedade falocêntrica estruturada em cima de opressões, relações desiguais, hierárquicas e de impunidade. Um sistema que funciona muito bem e se retroalimenta. Eles nos matam, eles nos julgam, em um eterno exercício de poder.

A narrativa nos toca, nos tira do lugar, nos deixa indignadas, feridas, nos lembraque essa realidade tão perto de nós precisa ser falada, mostrada e mudada. O patriarcado já nos silenciou demais. Que sejamos vivas e livres, não empilhadas. 


Referências

MELO, Patrícia. Mulheres Empilhadas. São Paulo: Leya, 2019.

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