Mulheres: o que nos coletiviza é mais forte do que o que nos separa

O Dia Internacional da Mulher foi uma data foi criada no contexto das lutas históricas das mulheres, do início do século XX por direitos civis, básicos. E aí quando falamos dessa luta por direitos, estou falando da luta de mulheres por serem reconhecidas como cidadãs. Porque essa é uma realidade importante a se entender: há pouquíssimo tempo somos reconhecidas como cidadãs de direitos na sociedade em que vivemos.

Há menos de 150 anos, mulheres não tinham direito de estudar, frequentar universidades, ter contas bancárias em seu próprio nome, votar. Mulheres negras eram escravas e sequer reconhecidas em sua humanidade, quanto mais cidadania. Apenas em 1945 uma Carta das Nações Unidas reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres e foi em 1950 que a Organização Internacional do Trabalho reconheceu a igualdade de salários para mesmas funções entre homens e mulheres.

Em 1962, foi criada uma coisa chamada Estatuto da Mulher Casada, para garantir direito à mulher de trabalhar fora sem autorização do marido, receber herança e requerer guarda dos próprios filhos. A primeira delegacia especializada de atendimento a mulher para coibir a violência doméstica foi criada somente em 1985 e a Lei Maria da Penha foi sancionada em 2006. Até 2005 havia um dispositivo na lei que determinava que se uma vítima de violência sexual casasse com seu estuprador ou com outro homem, o crime deixaria de existir. Feminicídio foi reconhecido como crime ano passado.

Mulheres sempre foram mantidas na posição de donas do lar e cuidadora dos filhos, a serviço de um marido. Mesmo hoje quando a duras penas conquistamos o espaço público, esse peso se mantém sobre as nossas costas e qualquer mulher que tente fugir desse destino paga um preço social altíssimo. Vivemos em uma sociedade dominada por homens e somos ensinadas a servi-los, a ser submissas a eles. E esse ensinamento, essas ideias, já começam a ser enfiadas na nossa cabeça ainda no útero materno (se é que isso é possível). Basta que o médico olhe o ultrassom e diga “é menina”, para que o tratamento que será dado a nós mude completamente, e sutilmente nós comecemos a ser preparadas para sermos belas, recatadas e do lar, a serviço do bem estar masculino. Princesinhas à espera do príncipe encantado. E do outro lado, basta que o médico diga “é menino”, para que aquele bebê comece a ser preparado para ser o dominante, aquele que vai usufruir dos privilégios. Que vai usufruir de nós, do nosso corpo, da nossa mão-de-obra.

Talvez você nunca tenha pensado nisso. Mas nós aqui temos mais semelhanças que diferenças, todas porque nascemos mulheres. Porque o médico disse “é menina”. Mulheres trabalhadoras. Mães, filhas, brancas, negras. Eu não sei nada da história individual de cada mulher mas ao mesmo tempo eu sei muito sobre todas elas. Eu sei de mulheres cansadas e sobrecarregadas. Porque chegam em casa depois de um dia inteiro de trabalho e ainda tem todo o trabalho doméstico para realizar porque nós somos ensinadas que essa é nossa função e quase nenhum homem se furta de explorar nossa mão de obra para o trabalho doméstico. Então lavamos, passamos, cozinhamos, limpamos, e organizamos a vida de pessoas adultas, homens, que poderiam perfeitamente cuidar de si mesmos, mas foram ensinados que isso “não é trabalho de homem”.

Eu sei de muitas que criam seus filhos sozinhas. A despeito até de ter presença do pai da criança ao seu lado. É sua a responsabilidade sobre tudo que diz respeito a criança. Porque você é a mãe. E muitas vezes você pensa que está criando dois filhos ao invés de um porque o seu companheiro se tornou um fardo ao invés de alguém que cumpra o papel de pai. Eu sei que muitas sequer possuem a presença do pai da criança pois foram simplesmente abandonadas. Na gestação, um pouco depois. Porque aos homens é permitido abandonar seus filhos à própria sorte na certeza de que sempre haverá uma mulher, em algum lugar para ampará-los. Porque homens não aprendem que devem ser responsabilizados pelos seus filhos. A sociedade diz que é função apenas da mulher dar conta disso.

Eu sei que poucas escolheram de fato a maternidade. Esse foi um desejo que nunca se soube se era seu ou se era de toda a pressão que sempre houve a sua volta, e que um dia simplesmente aconteceu. E eu sei que muitas também desejaram não ter tido filhos e por mais que amem loucamente suas crianças, imaginam secretamente como a vida seria mais fácil sem elas.

Eu sei que a maioria se sente feia. Se olha no espelho e chega a odiar a imagem que vê. Gasta algum ou muito dinheiro tentando se sentir melhor com si mesma, fazem dietas e tratamentos malucos, maquiagens, procedimentos, sonham em fazer plástica. Tudo porque fomos tragadas pela ideia de que só nossa aparência importa. De que homens não sentirão atração por nós se formos feias, se formos gordas, se formos velhas. E eu sei que todas aprenderam que a opinião de um homem sobre nós é muito importante. Que devemos ter a aprovação deles. Que se não agradarmos o nosso homem ele vai nos trocar por outra. E que isso é sinal de um fracasso como mulher, porque você não conseguiu manter o seu homem. Eu sei que muitas se culpam por seus relacionamento falidos, mesmo que estivessem profundamente infelizes. Se culpam por ter tido coragem de se livrar de uma união miserável. Mesmo que tivesse feito de tudo porque eu sei também que é no nosso colo de mulher que recai a responsabilidade de tentar manter um casamento.

Quantas aqui não sofreram e sofrem ainda na mão de homens medíocres, em relacionamentos terríveis? Onde são traídas, humilhadas, agredidas. Onde tem sua auto estima destruída? Tudo porque sempre foram ensinadas que a vida de uma mulher é assim? Que você deveria crescer e encontrar um bom homem que cuidasse de você. Que você deveria ter filhos. E não importa o que você tenha dito o contrário: que não queria de casar, que queria estudar, a fome dos que te cercavam só foi satisfeita quando você estava finalmente lá, domesticada, rendida. Cumprindo “seu papel de mulher”.

Eu sei que muitas cresceram em lares desestruturados pela presença de um homem violento ou abusivo. Que viram a mãe sofrer e lutar bravamente na tarefa de criá-las. Tentando defendê-las, muitas vezes sem sucesso. Passando por muitas coisas que vocês passam hoje, num ciclo sem fim. Eu sei que vocês sentem o peso dos anos, o peso das dificuldades financeiras, o peso de tantas coisas sobre suas costas, o tempo inteiro. Sempre tentando provar que é mais e melhor por ter sua capacidade sempre menosprezada e posta em xeque. Porque você é uma mulher.

Eu sei que muitas sofreram violências inimagináveis. Foram ameaçadas, espancadas. Foram abusadas. Foram coagidas a ficar em silêncio. Foram assediadas. Eu sei que muitas tiveram seus corpos violados. Por desconhecidos ou por pessoas que vocês confiavam. Que a vida de muitas mudou assim que, ainda crianças, o seu corpo começou a mudar. Que a infância de muitas foi roubada por homens que não souberam respeitar o seu tempo, exigindo que vocês se tornassem mulheres quando ainda eram apenas meninas. E que vocês temem pelas suas filhas, pelas suas sobrinhas, pelas meninas que vocês amam, porque você sabe que homens estão sempre à espreita para se aproveitar do corpo de uma mulher.

Que vocês tem medo. O tempo inteiro. Um medo que é tão interno e tão profundo que vocês nem percebem mais. Medo de andar desacompanhada. Sair à noite. Passar naquela rua escura. Pegar o táxi. Beber demais naquela festa. Que não importa o que você diga, ou faça, ou que roupa vista, ainda vão te dizer que a culpa foi sua. E você vai acreditar nisso.

Eu sei que todas as mulheres tem alguma história de horror para contar. Por ser mulher.

E eu sei também que nós fomos ensinadas a desconfiar umas das outras. Fomos ensinadas a competir e rivalizar pela atenção masculina porque somos ensinadas a colocar homens no centro das nossas vidas e não nós mesmas. Então competimos para saber quem é a mais bela, a mais sexy, a mais jovem. Acreditamos que mulheres são “fofoqueiras”, “invejosas”, “falsas”. Eu sei que ninguém te ensinou a amar mulheres. Vivemos em um mundo que odeia mulheres. Mas saibam, temos muito mais semelhanças que diferenças. E cada vez que nós olhamos para nossas semelhanças, para aquilo que nos une, nós fomos capazes de encontrar alento e conforto. E somos capazes de nos sentir mais fortes e lutar. E conquistar direitos. E aos poucos lutar pela nossa libertação. Pela nossa humanidade.

Aquilo que nos une, nossas semelhanças que nos coletivizam, é muito mais forte e transformador que as diferenças e especificidades que nos individualizam e atomizam, e separam.

Parece que conquistamos muito até aqui, mas há muito a conquistar. Mulheres estão sendo exterminadas como baratas, a todo momento, por todo o mundo. Sofrendo violências inimagináveis. Para cada conquista, surge um novo desafio. E a lição que o Dia Internacional da Mulher nos traz é que somente quando mulheres se reconhecem nas suas semelhanças, quando reconhecem a opressão que carregar este corpo perseguido traz, somente quando nos unimos como uma classe oprimida conseguimos avançar.

Reitero há menos de 150 anos, mulheres não tinham direito de estudar, frequentar universidades, ter contas bancárias em seu próprio nome, votar. E olha onde estamos. Vamos em frente, não podemos parar. Há muito ainda para construir.

Cila Santos

live and let die

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