“Ninguém está obrigando lésbicas a se relacionar com quem tem pênis”

AVISO: Esse texto contém prints de conteúdos MUITO lesbofóbicos e que reproduzem a cultura do estupro e a heterossexualidade compulsória. Se você for lésbica, é bem possível que fique bem desconfortável lendo.

É. Dependendo da sua definição de “obrigar”, talvez não estejam. Quero dizer, dificilmente você vai se deparar com um texto ou um vídeo dizendo, você, lésbica, deve se relacionar com pessoas do sexo masculino que se reivindicam mulheres. É sua obrigação. Não; é mais sutil. E por isso é tão insidioso.

Vou contextualizar pra vocês.

A lógica do identitarismo de gênero é bem simples: lésbica é a mulher — entendendo aqui mulher como pessoa que se considera mulher — que se atrai e se relaciona por outra mulher — entendendo aqui mulher como pessoa que se considera mulher. Não se trata mais, portanto, de sexualidade, porque, como qualquer ser humano com suas plenas capacidades cognitivas é capaz de constatar, sexualidade é sobre sexo, e sexo é sobre, bem, corpo. Não; para os paladinos de gênero, se você é lésbica, você não é uma fêmea humana que se atrai, sexual e afetivamente, por outras fêmeas humanas. Você é um ser, que pode ter pênis, que se atrai por outros seres que, inclusive, também podem ter pênis.

A problemática é óbvia. A resistência lésbica é milenar. Lésbicas historicamente foram perseguidas, violentadas e mortas justamente por negarem a homens o acesso a seus corpos, que é justamente a principal forma como o patriarcado nos controla. Lésbicas se negam a serem “reprodutoras”. Lésbicas se negam a terem sua sexualidade explorada. Lésbicas, aos olhos dos homens, são não-mulheres, porque se negam a servirem de objetos sexuais, porque não giram suas vidas, seus afetos, sua sexualidade em torno dos homens. Mas, veja, a questão da sexualidade e do acesso a seus corpos é central, porque, no limite, a opressão da mulher se dá pelo acesso a nosso corpo.

E quando o identitarismo de gênero relativiza o conceito de “mulher”, desvinculando-o de sua historicidade, de sua materialidade, e possibilita a entrada de pessoas com pênis nas relações lésbicas, isso é um ato de violência.

As lésbicas, é claro, não recebem essa invasão com inércia. Sempre há rebeldia; sempre há fúria. E então vêm os gritos contrários e o uso do conhecido espantalho: suas transfóbicas!

Voltamos, então, ao início do texto.

Sim, pode ser que vocês não encontrem pessoas dizendo que lésbicas devem, enquanto obrigação ética e moral, relacionar-se com pessoas do sexo masculino. Mas vocês vão encontrar pessoas, textos, vídeos dizendo que “lésbicas que só ficam com fêmeas reproduzem transfobia”. Vocês vão encontrar o discurso de que “nós nos relacionamos com pessoas, e não com genitais” (porque essas pessoas devem transar com a alma, claro). Vocês vão encontrar a discussão de que “descartar, logo de cara, relacionamentos com uma pessoa só por causa ‘do que ela tem entre as pernas’ é genitalismo”. Vocês vão ver lésbicas serem chamadas de bucetistas. Vocês vão ver movimentos de questionamento à preferência (eu achei que já tivéssemos ultrapassado esse vocabulário de “preferência”) de lésbicas por xoxota, e de suave sugestão de que envolver um pênis numa relação sexual pode não ser tão traumático assim.

Fico pensando no meu caso. Eu sou heterossexual, e nunca precisei reafirmar minha sexualidade. Nunca fui discriminada, nunca tive angústias, nunca enfrentei nenhum tipo de preconceito internalizado de mim contra mim mesma. Assim como a maioria das mulheres heterossexuais (e realmente heterossexuais; não as bissexuais ou lésbicas que ainda estão presas pela heterossexualidade compulsórias). Então, não tenho dramas quanto à minha sexualidade. Sabe em que cenário eu aceitaria que me empurrassem o discurso de que eu tenho que rever minhas preferências pra considerar me relacionar com mulheres que se reivindicam homens? Nunca. Porque se eu me atraísse por corpos femininos, eu seria bissexual. E não teria problema nenhum nisso. Mas essa não é a minha sexualidade. E ponto. Só que eu tenho segurança suficiente pra dizer isso, porque a minha sexualidade nunca foi objeto de questionamento enquanto “instituição”, enquanto “categoria”.

Agora, penso em jovens lésbicas. Meninas de, sei lá, 14 ou 15 anos, que estão tendo suas primeiras experiências sexuais — muitas vezes com homens, e vendo que não é aquilo que elas esperavam. Daí elas ficam com uma outra menina, e, pô!, dá certo. Ela curte. E ao mesmo tempo que ela fica feliz por encontrar algo de que gosta, ela também sente culpa, e angústia, porque né?, vivemos numa sociedade extremamente lesbofóbica. E, agora, não só vivemos numa sociedade lesbofóbica, se ela entrar na internet e buscar algum apoio nas comunidades LGBT, ela ainda vai ter que engolir a ideia de que aqueles relacionamentos que ela teve com homens, e que não deram certo? Então, supera isso daí. O problema não era o pinto, não era o corpo, ela precisa “desconstruir” isso se quer ser uma aliada, se quer ser aceita na comunidade, se quer encontrar seu lugar, se não quer receber o rótulo de “transfóbica” pra sempre.

Com que tipo de conteúdo essa jovem lésbica vai se deparar?

Por exemplo, com esse vídeo.

“Preferências” (sic) genitais são transfóbicas?

Riley é uma pessoa do sexo masculino que se apresenta como mulher trans lésbica e nesse vídeo (que tem legendas em português) vai dizer, basicamente, que sim, ter “preferências genitais” é transfóbico — ou, como Riley prefere chamar, “cissexista”. Nesse vídeo, Riley busca “rebater” os principais argumentos trazidos por lésbicas para não se relacionarem com, bem, pessoas do sexo masculino. Para a surpresa de absolutamente ninguém, depois de dizer cada argumento, Riley faz questão de dizer que tal lógica é “cissexista” ou absurda. Ele diz que “todos nós temos preconceitos implícitos embutidos em nossas preferências”. Riley diz que “preferências por mulheres com vaginas em detrimento de mulheres com pênis pode ser parcialmente um reflexo de uma sociedade cissexista”. Riley fica repetindo que lésbicas não precisam se relacionar com homens — o que é óbvio, não? Porque, na lógica dele, pessoas do masculino trans-autoidentificadas são… mulheres.

RILEY diz: “Isso não é dizer, ‘Você tem que fazer sexo com uma mulher trans (sic), ou você é cissexista’. É dizer que você deveria examinar as influências sociais sobre suas preferências. Há uma enorme diferença entre focar em cenários individuais e levar em consideração atitudes e problemas sociais mais amplos.”

Adivinha só, Riley? Nós fazemos análise estrutural. A análise estrutural que nós fazemos nos levou a constatar algo chamado heterossexualidade compulsória, uma ferramenta institucional do patriarcado que usa dessas mesmas técnicas de explorar o sentimento de culpa que você está usando para mulheres lésbicas sentirem que precisam se relacionar com homens.

Continuando, Riley compara o “direito” de lésbicas a terem preferências (genitais) com o “direito” de ter preconceito contra pessoas trans. Riley diz que, sim, tecnicamente (e é essa a palavra que Riley usa), uma lésbica pode, sim, ter preferências, mas que isso não significa que ela deveria. Riley continua, de novo, reforçando sobre como suas preferências podem ter sido influenciadas pelo fato de você crescer em uma sociedade cissexista. (É muito engraçado como pessoas do sexo masculino são cegas para a própria realidade. Realmente só uma pessoa do sexo masculino socializada como homem teria a capacidade de fazer uma análise dessas, porque qualquer mulher lésbica sabe que a sociedade cria homens e mulheres para serem heterossexuais. A sociedade não é “cissexista”; ela é patriarcal, e, portanto, homofóbica e profundamente lesbofóbica).

Riley diz, “ter preferências é diferente de dizer que você nunca faria algo. Por exemplo, preferir garotas altas é ok, mas se recusar a namorar alguém com menos de 1.70m é ridículo”. E encerra a discussão sobre esse ponto dizendo que usar a cartada da “preferência” é “centrar” os sentimentos de “pessoas cis” numa discussão que é sobre pessoas trans.

No final do vídeo, Riley diz que pessoas que querem ser aliadas podem simplesmente “não falar disso”, se não querem fazer sexo com um homem que acha que é mulher. Diz para não fingirmos que isso é censura, porque não é (rs), mas pede pra, antes de falarmos qualquer coisa, “levarmos em consideração se é necessário as dizermos, quando elas refletem uma ‘retórica nociva ou violenta’. Porque se você tem uma opinião que você sabe que só vai fazer pessoas se sentirem mal com elas mesmas, por que constantemente compartilhá-la com o mundo?”.

De que “opinião” estamos falando aqui, Riley? De lésbicas se negando a se relacionar com pessoas do sexo masculino? De, portanto, mulheres dizendo “não”? E você não gosta de ouvir isso? Te ofende? Ora, cresça!

Lésbicas, por acaso, ficam “ofendidas” por ouvirem de mulheres heterossexuais que, não, elas não são consideradas parceiras potenciais? Homens gays ficam “ofendidos” por não serem considerados parceiros potenciais por homens heterossexuais? Que infantilidade é essa de não saber lidar com rejeição? Por que tudo tem que ser transformado numa questão de preconceito, de ódio, de transfobia, de manipulação emocional?

Pode ser que a jovem sapa também se depare com isso daqui.

Se você um dia estudou interpretação de texto ou se precisou fazer uma redação de vestibular, você ouviu da sua professora ou professor que o que vem no final do texto é a mensagem que fica. E esse print acima é como a reportagem finaliza o texto. A mensagem é muito clara: a pessoa entrevistada se apresenta como mulher trans – portanto, é do sexo masculino – e diz que “ser lésbica não é gostar de buceta”. De novo, aqui, vemos a tentativa de redefinir o que é “lésbica” (e, por consequência, o que é ser mulher). Sua linha de raciocínio é justificada da seguinte forma: “se relacionar com uma mulher transgênero não é a mesma coisa que se relacionar com um homem”. Sim, não duvidamos. A questão é que mesmo que não seja a mesma coisa que se relacionar com um “homem”, ainda assim, não é a mesma coisa que se relacionar com uma mulher.

Aí a jovem sapa vai, sei lá, pro facebook.

E se depara com um post dessa página bizarríssima, desse ano. (Eu adoro que o nome da página é “Igreja” porque o mundo gay/trans é verdadeiramente um culto; algumas vozes falam e o resto só repete, de forma totalmente acrítica) E essa postagem não é só mentirosa (“algumas lésbicas têm pênis”), não é só lesbofóbica, como abertamente misógina. Prega violência escancarada contra pessoas que discordem — se você tiver dois neurônios, prega violência contra mulheres lésbicas, porque a postagem é uma crítica a “lésbicas transfóbicas”.

Talvez o Twitter seja menos ruim?

Não foi minha melhor ideia.

E no youtube?

Nesse vídeo, cuja proposta seria totalmente OK se não tocasse em questões como “não é por ser trans que eu ‘virei’ mulher, eu só adequei meu corpo à minha cabecinha” (sim, porque existe cérebro rosa e cérebro azul, e nosso cérebro está desconectado do resto do nosso corpo, ok?), a pessoa do sexo masculino trans-autoidentificada Luiza aparece dizendo-se “lésbica, sapatão”, cortando as unhas, e depois lambendo os dedos. Luiza, como qualquer pessoa do sexo masculino nascida e criada num mundo extremamente pornificado que fetichiza relações lésbicas, diz que se “descobriu” lésbica ao ver um casal de lésbicas num restaurante (não, eu não estou inventando. Você pode ver a tirinha aqui). Luiza também já disse, publicamente, numa das marchas de mulheres lésbicas e bissexuais de São Paulo, que os pênis de pessoas do sexo masculino trans-autoidentificadas são apenas “xoxotas de formatos diferentes”, e que “vamos chupar todas”. Aqui, mais uma vez, a tentativa de redefinir o que é lésbica, o que é mulher, e, inclusive, o que é a genital de uma mulher.

Esse outro vídeo foi postado no canal TransDiário na semana da visibilidade lésbica, em Agosto. Em pouco menos de 3 minutos de vídeo, a pessoa do sexo masculino da relação fala de seus problemas de encontrar alguém no tinder, frisando que tem lésbica que não gosta de mulher, tem lésbica que gosta de buceta (e faz o símbolo da vulva com as mãos), reforçando o discurso de culpabilização das lésbicas que se negam a se relacionar com pessoas do sexo masculino.

Esse é um vídeo de entrevista com a pessoa do sexo masculino trans-autoidentificada Duda, que conseguiu a façanha de acusar o PSOL (sim, o PSOL) de transfobia. Nesse momento específico, ao falar de sua transição tardia, Duda diz que começou a se confundir e achar que era gay, mesmo estando num casamento com uma mulher; até “entender” que “identidade de gênero” e sexualidade são coisas diferentes, e que existem tanto mulheres lésbicas “com vagina” quanto mulheres lésbicas “com pênis”.

Nesse vídeo as pessoas (homens e mulheres) argumentam que a transfobia estaria em rejeitar a pessoa trans depois que, por exemplo, já “rolou um clima”, simplesmente porque a pessoa revelou que é transexual. Argumentam que isso é preconceito puro, porque “você não sai na rua abaixando a calça das pessoas antes de sentir tesão”. E sim, isso é verdade. Conforme o uso de hormônios e as cirurgias ficam mais comuns, pessoas trans ficam cada vez mais o que chamamos de “passáveis”, e muitas vezes – principalmente quando se trata de alguém do sexo feminino – simplesmente não dá pra saber, enquanto a pessoa ainda está de roupa (rs), de qual sexo ela é. Só que existe uma diferença gritante entre, por exemplo, flertar, dar uns beijos, e deixar a coisa evoluir pra qualquer ato sexual que efetivamente envolva genitais e outras partes mais íntimas do nosso corpo. É totalmente possível sentir tesão ou atração por uma pessoa e gostar do beijo dela sem, necessariamente, querer que essa intimidade evolua. Isso não necessariamente precisa ser “repensado” ou “criticado” como uma “preferência” embutida em nós por uma sociedade “cissexista”, nas palavras de Riley. Exigir – no sentido de sugerir que quem não o faz é conservador, cabeça fechada e afins – que as pessoas “repensem” suas preferências soa muito como, bem, uma cura gay eufemizada, porque apesar de pessoas heterossexuais também estarem incluídas nessa conversa, sabemos sobre quem a pressão recai. (E não é sobre heterossexuais, e, dica: também não é sobre homens gays)

Outro argumento furado que as pessoas desse vídeo trazem é que pessoas trans têm corpos diversos (no sentido de que existem pessoas com e sem cirurgia), mas, olha… isso não muda muita coisa. Frequentemente a dúvida reside em “mas e se a mulher trans for operada?”, e eu devolvo: mulheres, é sério que vocês acham que uma cavidade cirurgicamente construída e revestida com a pele do pênis é igual à vagina de vocês? A nossa vagina tem textura; tem sua própria flora; é extremamente vascularizada; ela responde ao toque; tem sua própria lubrificação; é MUITO forte; é extremamente elástica. Então, bem, a existência de “diferentes corpos” não é argumento. Sim, qualquer pessoa tem direito de perder o tesão no minuto em que descobre que a pessoa com quem ela está flertando não se enquadra nas características pelas quais ela se atrai.

O “debate” já está num nível tão absurdo que tem gente que defende que a pessoa trans sequer precisa falar que é trans de cara — por exemplo, num aplicativo, ou no primeiro encontro. Tem, por exemplo, essa pessoa do sexo masculino, que traz toda uma narrativa infelizmente cheia de homofobia internalizada falando sobre como ela “sempre foi mulher” porque gostava de boneca. E ela diz que decidiu simplesmente não falar mais que é trans imediatamente pros caras com que se relaciona, pra que eles o conheçam “como mulher” primeiro. Isso me soa quase que como uma vingança.


Que tipo de mensagens são dominantes nas mídias? Se o discurso mais corrente é de que se você, lésbica, não considera para potencial parceria sexual um ser humano do sexo masculino que se reivindica mulher, então você não só está sendo transfóbica como sequer é lésbica… dá mesmo pra dizer que não, ninguém está obrigando lésbicas a ficar com quem tem pênis?

Fazer esse tipo de manipulação emocional, em que ou você está do “meu” lado — que é o lado da comunidade LGBT, já que quem manda hoje na “comunidade” LGBT é o T, que nem orientação sexual é — ou você está contra mim, e deixar a lésbica sem opção… dá pra dizer que não é obrigar?

Há algo muito errado com pessoas que precisam obrigar que outras se relacionem sexualmente com elas pra sentirem que suas identidades estão sendo validadas. E isso precisa ser apontado sem que as mulheres que o apontem sejam jogadas — como sempre — na fogueira, inclusive por outras mulheres.

3 COMENTÁRIOS

  1. Que texto incrível. Por favor, escrevam mais, escrevam sempre sobre esse tema espinhoso, misógino, lesbofóbico. Não nos calarão.
    Força, mulherada. Tamo junta!

  2. Mano, obrigada por escrever sobre isso!!! Ultimamente está se tornando mais comum mensagens de ódio a lésbicas q não querem se envolver com trans… Continue falando sobre! É necessário

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