ilustração da capa do livro "Man Made Language", de Dale Spender.

A linguagem é um campo de disputa política. Por meio da linguagem nomeamos fenômenos; o ato de nomear está carregado de poder e de escolhas, que refletem nossa posição política.

Não é a linguagem que molda nossa realidade, mas é preciso ter poder para controlar o discurso e como ele é criado e repassado. Ao longo da história, o poder de “nomear” tem sido eminentemente um poder masculino: não à toa, “homem” é sinônimo de “ser humano” e de “humanidade”. Só nomeia quem produz conhecimento, quem faz circular conhecimento, quem toma decisões políticas; e para produzir e circular conhecimento, para tomar decisões políticas, é preciso estar lá, na esfera pública. Debatendo, pensando. O que foi tirado, roubado de nós a maior parte de nossa história.

Por isso, nos anos 60/70, as feministas se atentavam muito à linguagem. Algumas autoras falavam na construção de uma “língua materna” como uma das tarefas mais difíceis do feminismo — porque o que nós temos seria uma língua “paterna”, manchada quase que inextricavelmente com o patriarcalismo, o racismo, o colonialismo. Daí vieram novas palavras, novas construções, novas formas de escrever e de pensar. Isso remete a Virginia Woolf e ao chamado por novas formas de construção do saber, a partir da vivência de mulheres no mundo. A partir da língua que falamos e usamos umas com as outras e com nossas mães.

Existem muitas frentes de ressignificação de palavras e expressões que são, na verdade, tentativas de apagamento e despolitização de nossas lutas. Outras feministas, como Carol Hanisch, Denise Thompson e Dale Spender já escreveram sobre isso antes de mim, mas vou fazer um breve apanhado de questões mais atuais que nunca:

“Radfem”

Era uma vez o Movimento de Libertação das Mulheres (Women’s Liberation Movement, depois abreviado para Women’s Lib ou Women’s Movement)… como diz Carol Hanisch, primeiro caiu “libertação”, que, obviamente, era radical demais. Depois, caiu movimento, porque implica uma classe de pessoas organizadas e em constante ação. Depois, caiu a própria palavra “Mulheres”, sendo substituída por “Feminismo”, ou, pior ainda, “gênero”, no contexto acadêmico de “estudos de gênero”. Assim, década após década, foi se desvinculando a ideia de que feminismo é, na verdade, o movimento de libertação das mulheres. Não dos seres humanos, não de “todos os gêneros”, não uma política de “igualdade de gêneros”; um movimento de libertação das mulheres. E o pior é que essa ignorância é compreensível,porque fomos apagadas sob a justificativa da inclusão: falar em “estudos de gênero” é obviamente mais “inclusivo” e mais “amplo” do que em “estudos feministas” ou “estudos das mulheres”, porque inclui, bem, homens.

O processo de diminuição e de corte de palavras é uma estratégia de infantilização, porque as torna menos séria. Não é economia linguística, como costumam argumentar. Soa tosco. Ainda mais quando usamos palavras em outra língua que não a nossa. Em inglês, há várias expressões reduzidas, pejorativas, para infantilizar movimentos políticos ou pessoas: radfems (feministas radicais), commies (comunistas), lefties (esquerdistas), alky/alkie/alchy (alcoólatra), lesbo/lez/lezzo(lésbica)…

Não somos “rads”. Não somos “radfems”. Somos feministas. Feministas radicais. Fazemos parte do Movimento de Libertação de Mulheres. Fale as coisas por inteiro e não permita que te roubem essas expressões. Não se denomine a si mesma e a suas companheiras como “rads” ou “radfems”.

“Pessoas que menstruam/menstruantes” / “Pessoas grávidas” / “Pessoas portadoras de útero” / “Pessoas portadoras de vagina”

Esse é um caso curioso de inversão do argumento. Frequentemente se acusa o feminismo radical de ser “biologizante” e de reduzir mulheres a seus corpos (útero, vagina, seios), na tentativa tosca de distorcer o que realmente queremos dizer — que é que não há como separar a experiência subjetiva de “ser mulher” de se nascer fêmea, já que a socialização para o papel social “mulher” pressupõe capacidade reprodutiva. Daí, na tentativa de “incluir” fêmeas que não são “mulheres”, o pessoal da linguagem “inclusiva” vai lá e faz o quê? Usa precisamente uma linguagem que nos reduz a nossas funções fisiológicas ou parte do corpo. Lógica nota dez!

Para além desse duplipensar, vale dizer que isso é apagamento puro. Menstruação, gravidez, lactação — são todos fenômenos exclusivos ao sexo feminino, e que, na maior parte do mundo, ainda são permeados por fortes tabus. Até em muitos países do liberal “ocidente” muitas mães ainda são encaradas com olhares feios (quando não sexualizadores) quando amamentam em público, por exemplo. Ainda escondemos o absorvente no bolso, na bolsa ou na manga da blusa quando precisamos ir ao banheiro trocar. Algumas meninas no mundo sequer têm acesso a absorventes. Gravidez resulta de sexo, e sexo é coisa de puta, e aborto não é uma opção pra maioria esmagadora de mulheres no mundo. E por mais que exista uma minoria estatística que se considere outra coisa, esses fenômenos todos ainda acontecem, largamente, com mulheres. Qual a lógica de apagar a realidade de 99% para acomodar 1%? Qual o efeito semântico disso?

Não é correto dizer “pessoas grávidas” porque não é qualquer pessoa que engravida. São mulheres. Fêmeas. Sexo feminino. Não há roupa, corte de cabelo, cirurgia, hormônio e alteração documental que mude essa realidade material. Essa realidade nos atravessa por toda a nossa vida, e a maioria absoluta das mulheres não tem como fugir dela (nem quem pensa que conseguiu fugir — porque na hora de parir, só uma bolada de dinheiro, mesmo, pra te salvar da violência obstétrica, viu? Chamar-se João não vai te proteger da Manobra de Kristeller no hospital público).

“Barriga de aluguel” / “Subrogação de útero” / “Maternidade subrogada”

Essas expressões tentam dar uma aparência contratual — liberal — para mascarar a verdadeira realidade do fenômeno: exploração da capacidade reprodutiva de mulheres. Porque pega mal pra um casal gay dos Estados Unidos procurar uma agência de “exploração de capacidade reprodutiva de mulheres vulneráveis de países subdesenvolvidos”, né? Então eles procuram uma agência de planejamento familiar.

Percebam como em nenhuma dessas expressões a mulher, mãe, é visível. Ela é ou reduzida a seu órgão (barriga, útero/ventre) ou à sua capacidade (maternidade). É importante perpetuar esse apagamento, porque gera desconexão. É importante não saber quem são essas mulheres, não saber de onde vêm esses bebês. Assim, sua humanidade, sua história é apagada, sua humanidade lhes é negada; elas só “alugam” seus meios de produção — seus corpos — para a fabricação de bebês. Seus desejos e vontades para além do contrato não importam. Se o bebê desejado fosse menino e veio uma menina, e ela não quiser abortar, isso não importa. Se vieram trigêmeos e o casal só queria gêmeos, e ela não quiser abortar o terceiro, isso não importa. E se ela se negar a cumprir o acordado, ela não receberá um centavo. Grávida.

Porque negócios são negócios, não é?

“Trabalho sexual” / “Trabalhadora sexual” / “Indústria do sexo”

Da mesma forma como “subrogação de útero”, falar em “trabalho sexual” ajuda a higienizar o que a prática verdadeiramente é, além de tentar empurrar para a esfera do trabalho (e da regulamentação, e da cobrança de impostos, etc) algo que na verdade é exploração e violação de direitos humanos. Quando falamos que prostituição é um “trabalho como outro qualquer” — equiparado a, digamos, ser caixa no McDonald’s, ser advogada, ser atriz, ser vendedora numa loja de shopping ou ser motorista de aplicativo, normalizamos tudo o que acontece na prostituição como “parte da rotina de trabalho”. Os homens que pagam por sexo — estupradores; porque sexo sem vontade é estupro, e prostituição é estupro por coação econômica — agora são “clientes”, e os cafetões e traficantes agora são “empresários” ou “agentes”. Ao renomearmos “exploração sexual” como “trabalho sexual”, de repente, toda a violação aos direitos das mulheres desaparece. É quase como se a linguagem modificasse a realidade… onde mesmo isso se defende? Ah, é. No pós-estruturalismo. Na teoria queer.

Quando dizemos que trabalho sexual é um trabalho como outro qualquer, entrar para a prostituição passa a ser uma escolha como qualquer outra, e não fruto de uma confluência complexa de fatores todos resultantes da falta de opções, da falta de oportunidades, da necessidade econômica iminente, e, frequentemente, de traumas na infância e na adolescência. É uma solução conveniente porque coloca toda a responsabilidade de modificação da própria situação nos ombros da mulher. “Você está pobre? Passando fome? Tem que alimentar suas crianças? Ora, prostitua-se! O quê? Você não quer? Preguiçosa! Não quer trabalhar? Tem mulher aí se prostituindo 16h por dia pra alimentar a família! Depois reclama que não tem dinheiro…”. É a melhor solução possível pra um Estado, que, regulamentando, pode se esquivar de propor políticas sociais de habitação, saúde, profissionalização e educação que combatam a prostituição de forma eficaz, resolvendo o problema em sua raiz: a pobreza feminina e a mentalidade masculina de direito de acesso aos corpos femininos.

Ou seja, todo mundo.

“Identidade de gênero” / “Mulher trans” / “Homem trans”

Não dá pra falar em identidade de gênero se gênero não é identidade. É simples assim. Você não “escolhe” seu gênero; gênero é um sistema binário de hierarquia entre homem (por cima) e mulher (por baixo). O que as pessoas chamam por aí de “gênero” tá muito mais pra própria “personalidade” do que qualquer outra coisa, visto que agora já existem, por exemplo, gênero-fofoschrodigênero, e gênero-estática, e por aí vai.

Se tudo é gênero, nada é.

Da mesma forma, se qualquer pessoa pode se dizer mulher ou homem só porque sim, então “mulher” e “homem” não têm mais significado nenhum e são significantes vazios, meras aglomerações de sons. Porque a definição de “trans” é “não ser cis”, ou seja, “não se identificar com o gênero que lhe foi designado no nascimento”. Só que isso, por si, é uma definição vazia, porque ainda depende da necessidade de preenchimento do significante “gênero” (e, mais ainda, de definir o que significa “se identificar”). Quando perguntamos pra pessoas comuns, leigas, geralmente caímos no seguinte raciocínio circular: o que é uma mulher? -> uma mulher é quem se sente mulher. -> o que é se sentir mulher? -> é ser mulher/se identificar com o gênero feminino. Percebem como não foi dada resposta nenhuma? É sério que chegamos a um ponto em que não sabemos definir o que é uma mulher?

Precisamos chamar as coisas pelo nome certo. Falar o nome certo não é fóbico, nem odioso; é a descrição da realidade. “Mulheres trans” são pessoas do sexo masculino que se reivindicam mulheres. “Homens trans” são pessoas do sexo feminino que se reivindicam homens. Falar isso não deveria ser considerado discurso de ódio, mas vivemos num momento de pós-verdade em que, bem, é. Mas há alguma mentira? “Mulheres trans” são ou não do sexo masculino? Se reivindicam ou não mulheres?

“Violência de gênero”

Além da problemática de deixar no ar o que é esse tal de gênero e o que ele tem a ver com a violência, essa expressão consegue esconder tanto o grupo das vítimas majoritárias — as mulheres — quanto dos perpetradores majoritários — os homens. É uma expressão que vem, aos poucos, substituindo “violência contra a mulher” por motivos que já foram citados em outros itens: “violência de gênero” é considerado mais “inclusivo” e “amplo”, porque se entende que poderia abarcar a violência cometida contra, por exemplo, homossexuais/lésbicas, travestis, homens fora do padrão da masculinidade, travestis e pessoas que se reivindicam trans e não-binárias, porque a motivação por trás dessa violência seriam os “estereótipos/normas de gênero”. Curiosamente, em virtualmente todos os casos de “violência de gênero” quem a comete é um homem. Por que não estamos falando em violência masculina, então, por exemplo? Por que não estamos nomeando nossos agressores? Por que não os estamos identificando? A quem essa invisibilização convém?

“Homossexual” para se referir a lésbicas; “homofobia” para se referir à violência sofrida por lésbicas

A palavra “lésbica” foi re-apropriada pelas lésbicas nos anos 60 e 70 justamente como estratégia de diferenciação do outro setor de pessoas que se relacionavam com pessoas do mesmo sexo — os gays. Porque elas constaram — uma constatação que é verdadeira até hoje — que quando falamos “gay” (em português não é muito comum usar “gay” para se referir a mulheres, mas em inglês é relativamente comum) ou “homossexual”, a imagem mental que temos é masculina. A reivindicação da palavra lésbica é justamente para demarcar a existência de mulheres que amam mulheres e suas pautas específicas.

Específica também é a violência sofrida por essas mulheres. A lesbofobia em nada se assemelha à homofobia, além do fato de que as duas são direcionadas a pessoas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo e calcadas em profunda misoginia. Mas são fenômenos completamente diferentes. A lesbofobia tem relação com o ódio masculino por mulheres que lhes negam o acesso a seus corpos; a homofobia tem relação com a repulsa de homens por outros homens que não fazem uso de seu poder sexual (literal) sobre outras mulheres. A lesbofobia frequentemente se converte em violência sexual, por meio da qual o estuprador tenta “converter” a lésbica numa “mulher de verdade” (ou seja, heterossexual); a homofobia também tem seu papel corretivo, mas é praticado entre pessoas de uma mesma classe sexual (portanto, com mesmo nível de poder uns sobre os outros).


A linguagem está em constante disputa e a modificação de expressões e de palavras é constantemente pautada por reformistas, conservadores, pós-estruturalistas e todo tipo de pensamento e política que não busca mudanças radicais na situação de mulheres e, consequentemente, na sociedade. Cabe a nós identificar esse tipo de prática e não ceder; resistir pra que essas escolhas de palavras não se tornem convencionais.

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feminismo radical e materialista de forma didática. textos autorais e traduções. fúria, cultura do estupro, política, prostituição e teoria feminista.

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