Início Movimento feminista Talvez o Feminismo precise é de separatismo, e não de inclusão

Talvez o Feminismo precise é de separatismo, e não de inclusão

proibido homens

Numa época em que a inclusão se tornou prioridade no meio feminista, a ideia fundamental de sua criação parece particularmente ter caído por terra: o separatismo. A mera acusação de não ser “intersecional” (algo que, de fato, é imperativo e frequentemente aplicado de maneira equivocada por liberais que exigem “inclusão”) é o suficiente para cancelar eventos, fechar espaços e organizações que se são centradas em mulheres. A ideia de separatismo, mesmo entre feministas, traz à tona a concepção do temido feminismo de segunda onda, com suas mulheres peludas que soletram mulheres com um “y” (womyn, em inglês), ou aquelas sapatonas “incomíveis”, cheias de zum-zum-zum e tals (muitas risadas, não estou certa?). Você encontrará proibições ao separatismo em qualquer tempo em que quaisquer mulheres tentaram organizar qualquer coisa. “Esse evento é para qualquer um que seja marginalizado pelo patriarcado”, liberais vão dizer. Obrigada, no entanto todo mundo é literalmente “marginalizado” pelo patriarcado de alguma forma.

Feministas liberais e caras de esquerda meio que se perderam no roteiro — feminismo é a separação de um sistema que mantém as mulheres subordinadas aos homens e que canaliza recursos diretamente das mulheres e os entregam aos homens. A razão pela qual essa tática é ridicularizada pelo patriarcado é justamente porque o separatismo é uma ameaça para a supremacia masculina. De fato, é o primeiro coquetel bralotov lançado.

Se você quiser saber da real história, leia o panfleto de Marilyn Frye, Some Reflections on Separatism and Power (Algumas Reflexões sobre Separatismo e Poder, em tradução livre). Publicado pela primeira vez em 1977, tem apenas 10 páginas. Já que você é uma mulher moderna, provavelmente você está lendo esse artigo na tela do seu celular enquanto usa o banheiro de um dos seus trabalhos, então eu vou resumir esse artigo para você da maneira mais objetiva possível.

Feminismo é Separatista

Marilyn Frye

Frye explica que o feminismo é uma filosofia, não a favor, mas contra a inclusão. O paradigma dominante diz que “Homens têm direitos aos corpos de mulheres, ao trabalho de mulheres. As mulheres são convidadas a participar da vida pública na forma decretada por homens.” O Feminismo fala: “Não. Essa não é a ordem de vida natural ou inevitável do Planeta Terra”. Não queremos fazer parte da sua festa capitalista, imperialista e hegemônica.

O separatismo de homens é um status quo — desde a mesquinhez em espaço público (Manspreading no transporte público! Assédio!) até aos cargos mais altos de poder (representação ínfima de mulheres no governo ou na indústria). Isso significa que a separação feminista é rebelião — as mulheres se recusam a fazer parte de “instituições, relacionamentos, papéis e atividades definidos por homens, dominados por homens e que operam de forma a beneficiar homens e que promovam a manutenção do privilégio masculino.”

E aqui está a parte realmente importante: “Essa separação deve ser iniciada e mantida, por vontade própria, por mulheres (ênfase no original).” Não é sobre advogar para a existência de uma ilha de lésbicas que se isolem de metade da população mundial (OK! Eu não declinaria essa opção, mas admito que não é prático.), mas sim, de determinar que sejam levantadas paredes, que se mantenham pelo tempo que for preciso, e ter controle de quem passa pelo portão e quem espera do lado de fora.

Homens são Parasitas

Talvez o que mais colocaria Frye em maus lençóis nos dias de hoje é sua asserção de que machos e fêmeas vivem em relações parasitárias. A sabedoria do patriarcado diz que mulheres devem ser subordinadas a homens porque eles as protegem e as provém. Mas as mulheres sempre contribuíram para o próprio sustento material — na verdade, qualquer capacidade de homens de nos prover ou nos proteger, é devido às circunstâncias criadas pelo próprio patriarcado de que este “é projetado de forma a dificultar mulheres de serem suas próprias provedoras”.

Todos os tipos de estudos que pesquisam sobre a felicidade de casais heterossexuais chegam à conclusão de que homens são significantemente mais felizes e saudáveis casados do que solteiros, enquanto que para mulheres é o inverso. Mulheres envolvidas com homens apresentam depressão mais profunda, pior saúde e menor estabilidade do que os seus parceiros.

É super impopular dizer isso, uma vez que a maioria das mulheres têm homens de quem gostam em suas vidas, homens dos quais gostaríamos de chamar de aliados na nossa luta feminista, se não for irmão, pai, marido, colega. No entanto, o fato é que o privilégio masculino faz com que homens minem nossas energias mental, espiritual e física, ou, como algumas de nossas irmãs gostam de chamar, nossa ginecoenergia. Às vezes você só precisa de um tempo, mesmo dos bons (#NotAllParasites).

Acesso é Poder

Frye expõe que:

“Diferenças de poder sempre se manifestam na assimetria de capacidade de acesso… Os muito ricos sempre têm acesso a quase todo mundo; quase ninguém tem acesso a eles. Os recursos do empregado estão disponíveis ao chefe enquanto que os recursos do chefe não estão disponíveis ao empregado. O genitor tem acesso incondicional aos quartos de seus filhos… Poder total é acesso incondicional; não ter poder nenhum é ser incondicionalmente acessado. A criação e a manipulação do poder são constituídas a partir da manipulação do controle do acesso”.

Durante a história do patriarcado, homens mantém virtualmente acesso ilimitado aos corpos das mulheres. Eles têm projetado e mantido esse acesso através do casamento, negando acesso ao aborto, e desvalorizando o trabalho das mulheres, alguns dos inúmeros exemplos de uma lista longa. Quando mulheres se recusam a beneficiar os homens, começam a reivindicar poder, isso deixa os homens malucos (e, com muita frequência, homicidas).

Definição é Poder

No patriarcado, mulheres são definidas como seres incapazes de dizer não. Seja excessivamente sexual ou estimulante e indulgente, “mulher” é uma pessoa que tem uma capacidade de auto sacrifício sem limites. Na verdade, ela existe somente em relação a um homem. Homens são as pessoas padrão, enquanto mulheres são seus reflexos a ao mesmo tempo suas sombras. Uma mulher que se separa disso desafia essa definição.

No ato de separação, mulheres expandem a ideia do que são capazes de fazer, de como se parecem, e de quem amam. Mulheres criaram uma nova linguagem para se definir, no entanto não conseguem mudar a linguagem daqueles ao seu redor. “Geralmente”, diz Frey, “quando mulheres renegadas dão nome a determinada coisa e pessoas leais ao patriarcado dão outo nome, as pessoas leais conseguem o que querem.” No entanto, embora dizer algo não mude a linguagem, criar a própria comunidade abre espaço para criar um idioma compartilhado.

“Quando reivindicamos o controle do acesso sexual a nós, do acesso ao nosso emocional e da nossa capacidade reprodutiva, do acesso à forma de maternidade e de sororidade, nós redefinimos a palavra ‘mulher’.”

Com o que o Separatismo se parece agora

Os homes, claro, são mestres no separatismo. Eles se recusam a abrir espaços para mulheres até em coisas triviais, como filmes e vídeo games. Basta olhar para o que Ativistas dos Diretos dos Homens (MRAs) dizem sobre Mad Max: A Estrada da Fúria e Gamergate.

Mulheres que tentam se separar e criar espaços para si mesmas, com o intuito de pensar, relaxar, se curar, se organizar, aprender, a porra toda do inferno se racha.

Homens aterrorizam e monitoram suas esposas assim que elas escapam para abrigos de violência doméstica. Elliot Rodgers invadiu um alojamento feminino para matar mulheres que o fizeram se sentir rejeitado.

Em 31 estados, estupradores podem requerer a custódia de seus filhos perante a justiça. Nem as mulheres que foram legalmente vitimizadas têm garantia de separação do estado.

Meu bar local de lésbicas, The Wild Rose (A Rosa Selvagem, em tradução livre), é cheio de caras héteros procurando ser vistos, tipo Homodelfia (héteros que frequentam lugares para gays e lésbicas). Tantos homens “cis-het” participaram da Macha das Lésbicas em Seattle quanto não-binarios/gênerosqueers/butchers/femmes ou qualquer um que se identificasse como lésbica esse ano.

O Festival de Música de Mulheres de Michigan (Michfest) foi extinto. No seu auge, foi o maior concentrador de lésbicas e mulheres-que-amam-mulheres no sistema solar. Pense sobre isso por uma porra de um minuto. Pense em como você se sentiria com mulheres de todo o mundo, de países onde é proibido ser lésbica, de cidades pequenas do Oriente Médio onde você não encontraria mulheres usufruindo da regalia de poder ser Butch (exceto em seus sonhos), indo para um lugar onde de repente enxergam a si mesmas em todos os lugares, e de repente se sentem seguras para serem autênticas. Agora, feministas liberais, MRAs, defensores da família tradicional e — mais difícil de engolir — a comunidade queer, se deleitam com a sua extinção. Não importa qual é sua definição do que é ser uma mulher, o fato é que o Michfest se esforçou muito para criar sua autodefinição (que, frisando mais uma vez, incluía mulheres trans). No entanto, mulheres, especialmente lésbicas, não têm permissão para se autodefinir, portanto, seguimos a pista da risada novamente e compartilhamos alguns artigos do Everyday Meninism de quão terrível e maligno o Michfest foi.

Uma coisa em comum que os espaços separatistas têm, é que eles são feitos para as mulheres se sentirem acolhidas. Todos eles têm razões diferentes para o separatismo. Todos eles são definidos por um critério de separação, por exemplo, o que as pessoas que estão dentro dele têm em comum. E em cada caso, esses espaços recebem ameaças e ataques, na maioria das vezes de homens, mas as vezes também de mulheres leais ao patriarcado.

Os argumentos contra o separatismo são pós-feministas. Esses argumentos fingem que nosso trabalho está feito e afirmam que homens não são responsáveis pela e cúmplices da subjugação das mulheres como uma classe. Eles não só nos agridem, mas também agridem homens que poderiam ser nossos aliados, porque esses argumentos segurem que homens são muito frágeis para ser negado a eles acesso às mulheres. Eles sugerem que mulheres se beneficiam de uma identidade relacional com homens, quando na verdade, mulheres são boas entidades para nós mesmas. Para mulheres corajosas, para feministas, o que se encontra nas florestas de Michigan, ou nos corredores das Sete Irmãs, ou por trás dos muros que as mulheres ergueram, é a oportunidade de amar a si mesmas.


Texto escrito por Jocelyn Macdonald, publicado em 30 de novembro de 2015. Original pode ser encontrado aqui.

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