As feministas somos conscientes de que a linguagem sexista faz parte do mesmo sistema de poder que produz a discrepância no mercado de trabalho: o patriarcado. Sabemos também que o mundo não pode se transformar somente mediante mudanças na linguagem, mas também sabemos que a transformação do mundo requer uma transformação da linguagem.

Quando meninas escutam expressões como “os políticos” ou “os cientistas” encontram um obstáculo mental para projetar-se nessas posições. Quando escutamos as palavras “perito” ou “filósofo”, criamos uma imagem mental masculina que contribui à perpetuação da ideia de que a sabedoria é algo próprio dos homens. As mulheres somos a metade da humanidade e temos sido marginalizadas na linguagem. Em outras palavras, se a linguagem não nos leva em consideração, é porque a história não o fez. As línguas descrevem o mundo, com suas hierarquias e injustiças. Pela primeira vez as mulheres escrevemos a história e construímos nossa linguagem. Não precisamos pedir permissão. Os homens, como classe sexual, não pediram permissão para nos roubar. Nenhuma Academia de senhores birrentos poderá frear nosso acesso a tudo que nos foi arrebatado.

Os estudos confirmam que o uso do masculino genérico gera imagens masculinas na mente. Ainda que algumas pessoas pretendam nos fazer acreditar que somos umas tontas que confundimos o gênero gramatical com o gênero sexuado, está totalmente demonstrado que o uso do masculino não funciona como um mero genérico na mente, mas que privilegia a imagem dos homens. Frente a este problema foram postas em prática dois tipos de soluções linguísticas: as que visibilizam as mulheres e as que utilizam termos neutros.

Queremos um neutro ou queremos ser mencionadas? Por exemplo, pensemos em uma classe em que há mais alunas que alunos. Queremos que se fale desse grupo no feminino genérico ou que se utilizem termos neutros como “o alunado”? As pessoas leitoras pensarão nas mulheres quando verem o termo “o alunado” ou continuarão gerando imagens masculinas? Considero que em muitas ocasiões é imprescindível que nós sejamos mencionadas expressamente para que certos terrenos se mostrem disponíveis para nós. As mulheres ocupamos uma posição secundária em quase todas as esferas da sociedade e estamos muito distantes de alcançar a paridade.

Por mais que se ridicularizem os pares como “todas e todos”, são fórmulas adequadas quando queremos garantir que as mulheres sejam visíveis. Por sua vez, o feminino genérico permite que os homens aprendam a se colocar no lugar das mulheres quando têm que se sentir incluídos na palavra “todas”. Ademais, o feminino genérico serve para mostrar contradições sociais quando é utilizado por homens que têm demasiado protagonismo e que, com sua práxis, mantêm suas companheiras em segundo plano. A linguagem não sexista acaba sendo incoerente quando utilizada em contextos sexistas.

Para o conjunto das pessoas falantes, nas ocasiões profissionais e acadêmicas, será uma opção simples utilizar expressões neutras como “pessoa empregada” ou “magistratura”. Essa solução não garante que as mulheres sejam visíveis, mas ao menos não nos oculta. No interior do feminismo está se estendendo o uso do “E” [n/t e, no português, do “U”] como fórmula para tornar as palavras neutras. Assim, se diz: “todes estamos cansades mas felizes” ou “elus não vêm”.

A favor do “todes” poderíamos argumentar que esse uso responde à intenção de criar um autêntico neutro que integre a todas as pessoas sem designar de forma preferencial a um grupo. Entretanto, esse motivo acaba sendo pouco explicativo do uso da expressão no interior de ambientes feministas. Nós não deveríamos ter objeções em usar o feminino. Somos uma maioria de mulheres e lutamos contra a exclusão das mulheres na história. Não devemos substituir o “todas” pelo “todes”. É necessário mencionar expressamente as mulheres sempre que se pretenda fazer um uso feminista da linguagem.

Na verdade, o argumento mais forte a favor do “todes” não é que esta fórmula seja um autêntico neutro, mas que designa a um grupo excluído: as pessoas não binárias*. No entanto, se o termo “todes” não é um autêntico termo neutro, não deveria se entender que as mulheres estão incluídas no mesmo. De fato, o que ocorre é que, como o termo “todes” se estendeu no interior do feminismo para mencionar as pessoas não binárias, a imagem mental que nos vem à cabeça ao utilizá-lo são as pessoas não binárias. Esclareço que não há nenhum problema em querermos integrar com a linguagem todos os coletivos de pessoas. O problema está em que se considere, uma vez mais, que as mulheres estamos incluídas numa fórmula presumidamente genérica que não realmente o é.

Porque, no final das contas, descobrimos que não somos mencionadas em lugar nenhum: nem na linguagem usual (ainda presa pelo machismo linguístico), nem no interior do feminismo. Pelo mesmo motivo, absolutamente não é feminista dizer “pessoas gestantes” ou “pessoas menstruantes” para integrar a quem tem capacidade de gestar mas não se sente mulher. De fato, quando falamos de uma realidade que afeta quase exclusivamente às mulheres, é sexista ocultar-nos por trás de expressões neutras, por mais que as intenções sejam boas. Situações como o parto ou a lactação seguem sendo fonte de numerosas discriminações, e isso é assim precisamente porque são “coisas de mulheres” e porque vivemos num mundo em que as mulheres somos o segundo sexo.


*O termo “todes” não designa a totalidade da comunidade LGBTI (ao contrário do que se costuma pensar), porque o normal é que as lésbicas e as bissexuais se autodenominem “elas”, os gays e os bissexuais “eles”, os homens que se reivindicam mulheres “elas”, as mulheres que se reivindicam homens “eles”, e as pessoas intersexuais frequentemente se consideram de um ou outro sexo. Quem se nomeia com termos como “todes” e “elus” são as pessoas não-binárias: aquelas que não se consideram a si mesmas nem homens, nem mulheres. O uso desses termos é defendido pelas pessoas que subscrevem à chamada “teoria queer”, que é uma proposta explicativa das hierarquias sociais que está muito difundida dentro do movimento LGBTI e também dentro do movimento feminista (sem que seja necessário se ter lido Butler ou Foucault para se mover dentro de seus parâmetros).


Tradução do artigo ¿Todas o todes?, de Tasia Aránguez Sánchez, publicado originalmente na Tribuna Feminista, em 2018. Você pode ler o original, em espanhol, aqui.

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