15 anos sem Andrea Dworkin

À mestra, com carinho.

Há 15 anos, em 9 de abril de 2005, o movimento de mulheres e o mundo perdia Andrea Dworkin.

Andrea Dworkin foi uma escritora e militante feminista norte-americana, conhecida por sua militância anti-pornografia e anti-prostituição e sua crítica irredutível à dominação masculina.

Deixou uma vasta obra para a teoria feminista, incluindo os livros:

Pornografia: homens possuindo mulheres
– Intercurso
Woman-hating (ódio às mulheres)
– Mulheres de direita
Nosso sangue

Andrea Dworkin passou por muitas das violências sobre as quais teoriza e fundamenta em seus livros: violência doméstica, tendo sido agredida quase até a morte, perseguida e ameaçada por seu ex-marido, um ativista que havia conhecido no movimento contra a guerra do Vietnã; se prostituiu; foi presa por seu ativismo anti-guerra e violada na prisão; foi assediada, perseguida, ameaçada e escrachada por empresários da indústria pornográfica por seu ativismo antipornografia.

Andrea teve uma morte precoce, aos 58 anos, sem dúvidas uma decorrência direta das violências misóginas que sofreu ao longo da vida. As experiências de estupro e descrédito, de agressões, ameaças e perseguições, levaram Dworkin a desenvolver distúrbios alimentares que afetaram severamente sua saúde e acabaram por provocar a sua morte por miocardite em 2005.

De frisar que Andrea Dworkin foi uma ativista de ferro sobre temáticas que hoje são tomadas como dado garantido pelo movimento feminista e pelos direitos das mulheres, mas que, à altura, nem sequer nome tinham — como, por exemplo, a violência doméstica. A violência doméstica ainda não era tipificada no código penal norte-americano (tampouco no brasileiro e em muitos outros países) e em seus livros lemos muitas vezes a referência à “agressão de mulheres” ou “espancamento de esposas”: foi uma teorização fundamental que ofereceu as bases para conseguirmos identificar e nomear o problema e, consequentemente, ataca-lo para proteger mulheres. Outro exemplo disso foi a ligação causal explícita que Andrea traçou entre prostituição e incesto/abuso na infância — relação que foi comprovada ano após ano por diferentes pesquisas acadêmicas, mas que ela já havia dissecado em sua análise feminista empírica:

“Incesto é o campo de treino. Incesto é o lugar para onde a garota é enviada para aprender como fazer. Então, obviamente, você não precisa mandá-la a nenhum outro lado: ela já está lá e não tem para onde ir. Ela é treinada. E o treinamento é específico e é importante: não ter limites reais para o próprio corpo; saber que ela é valorizada apenas pelo sexo; para aprender sobre os homens o que o ofensor, o agressor sexual, está ensinando a ela.”

Mas Dworkin não apenas escreveu sobre isso, sua participação e entrega ao movimento feminista não se limitou a deixar obras: Andrea fazia campanhas por onde passava e chegou a escrever uma portaria, junto da jurista e feminista radical Catharine Mackinnon, que reconhecia a pornografia como discriminação sexual e violação dos direitos civis das mulheres, permitindo que mulheres, homens e pessoas transsexuais na indústria pornográfica processassem seus exploradores. Para aprovar a portaria, as feministas organizaram assembleias e auditorias com as autoridades públicas e fizeram com que as autoridades ouvissem, em primeira mão, o testemunho de várias sobreviventes da indústria pornográfica e sobreviventes de violência sexual que tinham sido direta ou indiretamente impactadas pela pornografia. A portaria chegou a ser aprovada em Minneapolis, mas o lobby dos pornógrafos conseguiu mobilizar poder o suficiente para que tribunais a derrubassem como “inconstitucional” e “censura à liberdade de expressão” (liberdade dos pornógrafos, é claro).

Outra contribuição importante de Andrea Dworkin — e provavelmente a menos reconhecida e mais subestimada — é sua análise e teorização sobre misoginia e racismo. Como judia nascida numa altura em que o holocausto era demasiado recente para ser uma “memória”, educada em escolas judias com professores sobreviventes de campos de concentração e criada com ideias muito “próprias” sobre o Estado de Israel na altura, Dworkin desenvolve uma análise impressionante sobre a sexualização da raça, o racismo na sociedade de dominação masculina e também sobre imperialismo. Seu livro biográfico “Vida e Morte” é onde conta essas experiências.

Dworkin foi uma feminista inexorável, comprometida até o último minuto de sua vida com a libertação das mulheres. Comprometida em dissecar a dominação masculina em seus mínimos detalhes, tijolo a tijolo desta construção, e derrubá-los um a um por uma sociedade livre da dominação, deixou uma obra valiosíssima (e que precisa ser urgentemente resgatada como princípios de um movimento realmente pró-mulheres) e um exemplo de militância. Como escreveu Julie Bindel, que foi sua companheira de militância em vida: “Andrea era impulsionada não pelo ódio ao seu inimigo — a supremacia masculina — mas pelo amor à ideia de um novo mundo em que o sadismo sexual fosse obsoleto.”.

Hoje faz 15 anos que perdemos essa incansável feminista. E hoje, mais que nunca, precisamos de um movimento feminista que relembre o seu comprometimento na linha de frente da luta pela emancipação da mulher.

Textos traduzidos de Andrea Dworkin aqui no blog:

Do livro “Ódio às Mulheres” (Woman-hating)

Do livro “Vida e Morte”

Lista de reprodução de vídeos de Andrea Dworkin legendados: https://www.youtube.com/embed/videoseries?list=PLjqlQPFy0Z96vdw6InepwztQeqT7x5AIW

Feminismo com Classe

Por um feminismo classista e revolucionário!

One thought on “15 anos sem Andrea Dworkin

  • 01/05/2020 at 23:51
    Permalink

    Aline, obrigada por mais um texto maravilhoso; obrigada por essa linda homenagem à nossa Andrea.
    Espero que essa mulher incrível seja, sempre, uma grande inspiração para todas nós. <3

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *